*Por Brunna Condini
Entre o saxofone aprendido às pressas para o filme ‘Diminuta’, de Bruno Saglia – “É bem difícil. O mais importante era pegar a intimidade com o instrumento e fingir bem” — e as noites em que lota o teatro ao lado de Maria Casadevall com o espetáculo ‘Um Dia Muito Especial’, em que aborda a homofobia, o machismo, o fascismo, a escuta e o afeto, Reynaldo Gianecchini vive um momento em que a arte e a vida parecem pulsar no mesmo compasso. “Acho muito bonito quando a arte consegue provocar reflexão sem agressividade, quando entramos pela humanidade, pela escuta. Hoje, a maturidade me faz buscar exatamente isso: conversas que transformam”.
Aos 53 anos, Gianecchini é produtor de si e menos refém da aprovação externa – “Hoje eu ligo muito pouco para a validação do outro para entender o meu valor” – e mais atento às pausas que o mantêm inteiro – “Me refaço quando vou para a natureza, pé no chão, silêncio. Não abro mão desses momentos para me abastecer” – e amadurecimento que leva para o longa-metragem “Diminuta”, com um personagem que reencontra a criança ferida que deixou para trás através da música.
“No filme, a música o resgata para transcender e ressignificar todos os seus medos”, diz o ator, que há anos identifica na terapia a via para repensar a própria travessia: “A gente respira de outra forma quando conhece nossas partes sombrias”. No palco, segue provocando reflexões urgentes sem perder a leveza; fora dele, fala sobre liberdade, escolhas e o prazer de assumir sua trajetória. “Não consigo mais fazer o que não quero ou não acredito. Hoje me considero privilegiado por poder escolher”. E quando o assunto é televisão, ele é direto, e surpreendentemente sereno. Ao completar 25 anos de ‘Laços de Família’, novela que o apresentou ao país e ainda repercute no streaming e na América Latina, o ator reconhece com afeto o impacto daquela estreia. Mas também admite que esse ciclo, para ele, se fechou:
Tenho imenso carinho por essa fase da TV, fiz muito. Mas não tenho mais vontade de fazer novelas hoje – Reynaldo Gianecchini

Reynaldo Gianecchini vive uma fase de amadurecimento criativo: entre o cinema e o palco, o ator fala sobre liberdade, escuta e o prazer de escolher seus próprios caminhos (Foto: Abilio Gil)
Gianecchini também lembra que o encerramento de seu contrato com a emissora se deu de forma natural — ele saiu da Globo em julho de 2021, após mais de 20 anos de contrato fixo, com o fim do vínculo após ‘A Dona do Pedaço’ (2019) — e aconteceu quase como um reflexo de seu próprio momento interno. “Foi uma coisa bastante espontânea. Veio na hora perfeita, porque era bem quando eu estava querendo ter mais liberdade nas minhas escolhas”, afirma. “Realmente não tenho mais vontade de fazer novela. Considero que foi uma fase muito legal. Fiz trabalhos muito bons, mas agora quero outras narrativas, outros jeitos de contar histórias. Quero fazer mais cinema, mais streaming. Não ficar tão absorvido por um esquema muito desgastante, que toma um ano inteiro da sua vida”. Ele observa que não houve pressão ou rompimento abrupto com a Globo, pelo contrário, tudo se alinhou naturalmente:
Acho que esse movimento de não ter interesse em fazer novelas agora está sendo tão espontâneo que eu também não estou tendo convites. Não está pintando nada de lá. Não é que eu esteja tendo que recusar. Foi um movimento que partiu de mim e deles. Então está tudo certo – Reynaldo Gianecchini
Ainda assim, o ator não fecha portas e mantém o humor diante da imprevisibilidade da vida: “Não sou fechado para nada. Nunca digo nunca. Aí corta, daqui a um mês estou lá fazendo… mas acho pouco provável. Só se eu me apaixonar muito por um personagem”.

“Não consigo mais fazer o que não quero ou não acredito. Hoje me considero privilegiado por poder escolher” (Foto: Reprodução/Instagram)
E vê o atual cenário da teledramaturgia com um olhar realista, porém afetuoso. Entende a força cultural da novela, mas também suas transformações diante de novas gerações, que consomem conteúdo de maneira completamente diferente. “A novela dialoga com um público de raiz. A geração nova cresceu vendo as redes sociais, os influencers. É outro código, outro hábito”.
O desejo de se aprofundar em formatos mais curtos, autorais e contemporâneos, buscando narrativas que o provoquem, está diretamente ligado à forma como encara a profissão. Desde que assumiu a produção de seus próprios trabalhos, ele tem se envolvido em todas as etapas: roteiro, estética, ritmo, dramaturgia. “É um prazer enorme estar dentro do processo inteiro. Me sinto mais completo como artista”. E reconhece que o pacote vem com responsabilidade redobrada — “tenho trabalhado horrores” — mas o retorno compensa: “Quando você está apaixonado pelo que faz, o esforço vira outro tipo de energia”.

“Hoje eu ligo muito pouco pra validação do outro pra entender o meu valor” (Foto: Reprodução/Instagram)
Ele faz cinema
Enquanto isso, em ‘Diminuta’, que estreou no início deste mês na plataforma de streaming Belas Artes à La Carte, marca um reencontro de Gianecchini com a música, não apenas como habilidade técnica, mas como pulsação interna e eixo emocional do personagem. No papel de Cristiano, um homem que tenta reconstruir a própria vida a partir do saxofone que abandonou na infância, o filme foi rodado entre o Vêneto, na Itália, e a Serra Gaúcha, e acompanha a jornada desse homem dividido entre dois países e duas versões de si: o garoto que cresceu cercado pela música ao lado do avô, sua grande referência afetiva, e o adulto que, já no Brasil, deixou o saxofone para trás enquanto tentava construir uma vida estável.
Quando o casamento e o trabalho entram em crise, o personagem decide voltar às origens e reencontrar sua linguagem primeira: o jazz. “Tive que aprender o básico do saxofone. Não sabia nem pegar no bichinho”, conta. Mas o breve processo com o sax foi suficiente para reorganizar sua relação com o corpo e a escuta: “O mais importante era pegar a intimidade com o instrumento. A música aguça a vibração, abre canais. Te coloca em um outro estado de presença como ator”.

Reynaldo Gianecchini vive um homem que se reencontra através da música em ‘Diminuta’ (Foto: Still/Divulgação)
A coprodução entre Brasil e Itália reúne Deborah Evelyn, Daniela Escobar e uma participação especial de Giancarlo Giannini — lenda do cinema italiano, indicado ao Oscar por ‘Pasqualino Sete Belezas’ (1975). Gianne lembra com carinho de dividir o set com o veterano: “Não contracenamos, mas a presença dele é impressionante… chega e preenche o ambiente”. O ator salienta, que ‘Diminuta’ é, sobretudo, um filme sobre raízes, pertencimento e memória, temas que atravessam também a sua trajetória. E no centro disso tudo, está a música, fio que conduz o personagem de volta a si mesmo e que também foi canal para o intérprete:
Quando você entra no universo do personagem e pega sua essência, acontece a magia. Assisto ao filme e acredito que toco. E isso é sinal de que a alma dele chegou em mim – Reynaldo Gianecchini

“Tive que aprender o básico do saxofone. Não sabia nem pegar no bichinho” (Foto: Still/Divulgação)
Ele faz teatro
No teatro, sua entrega se amplifica em ‘Um Dia Muito Especial’, adaptação do clássico de Ettore Scola (1931-2016). Em cena, Gianecchini vive um homem perseguido pelo regime fascista, enquanto Maria Casadevall interpreta uma dona de casa solitária mergulhada na ideologia da época. “Ela é fascista, ele é antifascista. Eles poderiam se odiar, se ‘cancelar’. Mas escolhem se ouvir. É bonito demais quando a arte possibilita isso”. Ele frisa que essa é a camada mais atual e potente da obra: a defesa da conversa em tempos de ruídos. E enxerga o espetáculo como um espelho do Brasil e do mundo de hoje, profundamente polarizado:
Estamos vivendo um momento muito difícil, de incomunicabilidade mesmo. Ninguém quer ouvir o porquê o outro pensa diferente. Todo mundo quer impor sua ideia, muitas vezes de forma violenta – Reynaldo Gianecchini

Reynaldo Gianecchini e Maria Casadevall em ‘Um Dia Muito Especial’ (Foto: Divulgação)

Reynaldo Gianecchini e Maria Casadevall em ‘Um Dia Muito Especial’ (Foto: Divulgação)
Ele acredita que o teatro oferece, justamente, o oposto desse movimento: um espaço de suspensão e escuta. “Faço esse exercício o tempo todo: tentar entender o outro, mesmo quando penso radicalmente diferente. Não é fácil, às vezes parece até impossível, mas quando você consegue abrir uma fresta, alguma coisa se transforma, em você e na pessoa também”, reflete. Para o ator, essa postura não é sobre concordar, mas sobre humanizar. “Quando você se depara com um ser humano rico no palco, quando vê a história dele, a dor dele, você se desarma. A arte faz isso: tira a gente da absolutização das certezas”.
Por isso, Gianne afirma que o espetáculo chega ao palco como um convite urgente: “Hoje, tudo é muito absoluto, muito rígido. A peça mostra que existe beleza na escuta, na dúvida, na transformação. E que ninguém precisa pensar igual pra existir diálogo”.

Reynaldo Gianecchini no palco com o espetáculo ‘Um Dia Muito Especial’ (Foto: Divulgação)
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