*Por Brunna Condini
Renata Gaspar chega à nova produção da HBO Max, ‘Ângela Diniz: Assassinada e Condenada’ (estreia em 13 de novembro), com a força de quem entende que interpretar uma mulher é também um ato político. Na pele de Gilda — personagem ficcional inspirada em figuras como Jacqueline Pitanguy e Celina Albano, ícones do feminismo brasileiro — a atriz dá corpo a uma geração de feministas que, nos anos 1970, ousou transformar dor em mobilização e lançou o movimento ‘Quem Ama Não Mata’. “Foi emocionante. Gilda é uma mistura de mulheres reais que enfrentaram o machismo declarado da época, criaram filhos sozinhas e ainda mudaram o rumo da história. Elas abriram o caminho para que a gente pudesse estar aqui, trabalhando, votando, dirigindo. Sinto uma admiração profunda”, afirma Renata.
A série, inspirada em um crime real que mobilizou o país, marca um novo ponto de virada na trajetória da atriz. Depois de interpretar mulheres que sofriam violência na ficção, Renata agora encarna uma personagem que reage a ela. Gilda não é a vítima da história, mas uma força ativa de transformação: uma mulher que articula, questiona e se insurge contra o sistema que oprime outras mulheres. “Ângela Diniz foi assassinada aos 32 anos, em 1976, em uma casa na Praia dos Ossos, em Búzios, o desfecho é muito atual: a união de mulheres mudando o rumo de uma história. Quando mulheres decidem se unir, é uma potência tão forte que até o que parecia impossível pode mudar”.
Com uma carreira marcada pela alternância entre o humor e o drama, nesta entrevista a atriz também reflete sobre os limites do humor hoje: “Temos que entender o tempo que estamos vivendo. Pra quê propagar a violência em forma de piada nessa altura do campeonato?”.

Renata Gaspar vive personagem inspirada em ícones do feminismo, e fala sobre liberdade, dor e o poder da união feminina na série ‘Ângela Diniz: Assassinada e Condenada’ (Foto: Fábio Audi)
Aos 39 anos, com 22 de carreira, a atriz fala com a consciência de quem compreende a potência das histórias que escolhe contar. Depois de viver personagens marcadas pela dor, como nas novelas da Globo ‘Um Lugar ao Sol’ (2021) e ‘Terra e Paixão’ (2023); ela agora assume um papel de resistência. Em ‘Ângela Diniz: Assassinada e Condenada’, série de Elena Soárez, Pedro Perazzo e Thais Tavares, e direção-geral de Andrucha Waddington, com Rebeca Diniz; o olhar feminino está em cada detalhe, da reconstrução histórica à escolha das palavras:
Essa série tem uma delicadeza e uma força muito grandes. A Ângela foi uma mulher julgada, condenada e morta, mas o que o movimento ‘Quem Ama Não Mata’ fez foi reescrever essa narrativa, devolver a ela o direito de ser humana, complexa, livre. Contar essa história, tantos anos depois, é lembrar que ainda há muito a mudar – Renata Gaspar

“Quando mulheres decidem se unir, é uma potência tão forte que até o que parecia impossível pode mudar” (Foto: Fábio Audi)
E continua: “A gente vive em um país onde as mulheres ainda são culpabilizadas pela violência que sofrem. Quando li o roteiro, entendi que não era só sobre Ângela, era sobre todas nós, sobre o direito de existir sem precisar pedir desculpas por isso. O que mais me emociona é pensar que essa história, que começou há quase cinquenta anos, ainda ecoa de forma tão urgente. Falar de Ângela é falar de tantas mulheres que não tiveram voz, que não puderam contar sua versão. E agora, finalmente, contamos. Com sensibilidade, com respeito, com força”. A atriz diz que o set de filmagem era atravessado por esse espírito coletivo e de reparação histórica. “Havia uma atmosfera de cuidado. Cada cena era feita com uma consciência muito grande do que estávamos representando. Era impossível não se emocionar. Muitas vezes, a gente chorava juntas depois das gravações. Porque não é só uma história policial ou de tribunal, é uma história sobre mulheres, sobre memória, sobre liberdade”.
Da indignação à luta: uma história que ainda ecoa nos dias de hoje
Baseada em uma história real que marcou o país, ‘Ângela Diniz: Assassinada e Condenada’ reconstrói, em seis episódios, a trajetória de uma mulher que ousou viver em seus próprios termos em pleno Brasil dos anos 1970. Inspirada no premiado podcast ‘Praia dos Ossos’, a série acompanha a vida e a morte de Ângela Diniz, socialite, mãe, feminista por instinto, que enfrentou o preconceito e o controle masculino em busca de autonomia e liberdade. Separada do primeiro marido e decidida a conduzir a própria vida, Ângela rompeu padrões e pagou um preço alto por isso: foi assassinada com quatro tiros pelo então namorado, Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street, em 30 de dezembro de 1976, na Praia dos Ossos, em Búzios. O crime chocou o país e expôs a brutalidade com que a sociedade tratava as mulheres que rompiam com o que esperam delas.
No julgamento, Doca foi inicialmente absolvido sob a tese de “legítima defesa da honra”, argumento que colocava a culpa da morte sobre a própria vítima. A sentença gerou revolta e deu origem ao movimento ‘Quem Ama Não Mata’, formado por mulheres de todo o país, que transformaram a indignação em luta política. A pressão popular levou à reabertura do caso e a um novo julgamento, simbolizando o despertar coletivo contra a violência de gênero.
Renata mergulhou no contexto dos anos 1970, estudando o feminismo brasileiro e suas pioneiras. Leu ‘Feminismo no Brasil’, de Jacqueline Pitanguy e Branca Moreira Alves, e revisitou textos de Simone de Beauvoir, absorvendo não apenas o pensamento teórico, mas a coragem prática daquelas mulheres:

Ângela Diniz nos anos 70 e Marjorie Estiano: atriz viverá a socialite em série da HBO Max (domínio público e divulgação)
É impossível não se emocionar. Ǫue responsa interpretar essas mulheres! Me senti lisonjeada, é muita força e determinação. Liderar um movimento, criar centros de apoio, delegacias da mulher, viver para algo mudar. As mulheres não têm noção do quanto elas trabalharam, e ainda por cima vivendo naquela época em que o machismo era mais declarado, criando seus filhos praticamente sozinhas. Tenho extrema admiração e agradecimento por todas elas – Renata Gaspar
A artista vê paralelos evidentes entre o passado e o presente. “Se esse movimento voltasse agora, com a mesma frase, pareceria mais atual que nunca: ‘quem ama não mata’. É triste, mas é verdade. A diferença é que hoje vemos as violências acontecendo, muitas vezes ao vivo, nas redes sociais. Ainda assim, o agressor é solto, e a mulher segue sendo responsabilizada. A mentalidade de que o corpo feminino é propriedade masculina ainda persiste. Há muita resistência em largar o poder”. Ela também reflete sobre o impacto emocional de revisitar tantas dores femininas ao longo da carreira. “Às vezes cansa, claro. Mas o que me move é saber que precisamos falar disso. É cansativo, mas é urgente. E, ao mesmo tempo, o humor sempre me salva. Ele me traz de volta pra leveza, para o riso, para o afeto”, conclui Renata, que além dos projetos como atriz, também abriu recentemente um espaço coletivo de criação chamado Sala de Estar, onde oferece workshops de atuação.

“Vivemos em um país onde as mulheres ainda são culpabilizadas pela violência que sofrem. Quando li o roteiro, entendi que não era só sobre Ângela, era sobre todas nós” (Foto: Fábio Audi)
O limite é quando fere o outro
Esse equilíbrio entre intensidade e leveza é uma das marcas registradas de Renata, que transita com naturalidade entre o drama e a comédia. Mas ao pensar na discussão sobre os limites, mesmo do humor, e em casos recentes como o do humorista Léo Lins, a artista reforça a importância de olhar para o outro, mesmo ao fazer rir. “Estamos caminhando, evoluindo aos poucos daí vem alguém e “em forma de piada” tem uma fala racista, preconceituosa? A pessoa que assiste muitas vezes não vê aquilo com distanciamento, ela pensa assim. Nós, artistas, temos o dever, sim, de também educar o público. Esses dias fui fazer um projeto e os roteiristas não entendiam que a fala era machista e a defenderam até o fim, e para qualquer mulher presente seria algo óbvio, estava nítido que aquilo apenas frisaria um pensamento que por anos nos reprimiu, e que tinham soluções mil vezes mais engraçadas, mas para eles era apenas uma piada imperdível”. E pontua:
Não é tempo de fazer chacota de temas sérios e que causaram dor para tanta gente – Renata Gaspar
Entre uma fala e outra, ela deixa evidente que sua arte é atravessada por propósito. Cada personagem, cada cena e cada escolha são, de alguma forma, um gesto político e humano. “A verdade, é que quando mulheres decidem se unir, até o que parecia impossível pode mudar”, repete, como quem sabe que essa é a verdadeira moral da história.
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