Relembre artistas que, como Edson Café, do Raça Negra, e Renato Rocha, da banda Legião Urbana, morreram na miséria


Assim como Edson Café, ex-Raça Negra, que morreu domingo, a atriz Isaura Bruno e Renato Rocha, do Legião Urbana, tiveram papéis importantes na música e na televisão brasileiras, mas terminaram suas vidas em abandono e pobreza extrema. Em diferentes momentos, os três viveram em situação de rua, vítimas da negligência social e da omissão das instituições culturais. Isaura, uma das primeiras atrizes negras da TV, morreu vendendo doces; Renato, baixista da formação clássica da Legião Urbana, faleceu sozinho em uma pousada; e Edson, ex-integrante do Raça Negra, lutou contra a dependência química e a falta de assistência. Conheça

*por Vítor Antunes

Edson Café (1956-2024), Isaura Bruno (1916-1977) e Renato Rocha (1961-2015)  tiveram trajetórias artísticas relevantes em diferentes campos da cultura popular brasileira, mas encerraram suas vidas em condições precárias, marcadas pela exclusão social. Todos viveram, em algum momento, em situação de rua — em contextos que misturam desassistência, dificuldade de reinserção e, no caso de Isaura, o peso evidente do racismo estrutural. No último domingo, Edson Café, ex-Raça Negra, foi encontrado morto na rua, na Vila Carrão, em São Paulo. Isaura, numa Rodoviária, em 1977. Embora tenham contribuído para momentos importantes da música e da televisão nacional, não obtiveram respaldo material, jurídico ou simbólico capaz de garantir-lhes dignidade após o fim da visibilidade pública. O apagamento dessas histórias expõe os limites de um mercado que, historicamente, explora talentos enquanto comercialmente úteis, mas que se omite diante de suas vulnerabilidades mais profundas.

No artigo “Me Chamam Rua, População, Uma Situação: Os Nomes da rua e as políticas da cidade”, de Mateus Cunda e Rosane Silva, escrito para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), os acadêmicos dizem que as pessoas em situação de rua (…) “são tão diversas em sua composição, que seria difícil criar perfis sobre modos de vida ou hábitos. Há uma série de nomeações que se formam em torno do habitante da rua, elencadas, não ao acaso, numa política estética que enuncia o “não-lugar” na cidade”, ou seja há várias origens e histórias possíveis para os habitantes da rua, que ocupam uma espécie de não-espaço. Não são vistos, não são plenamente contemplados em direitos por não terem comprovante de residência e suas histórias costumam ser invisibilizadas. Assim como o fato de terem hábitos diferentes, costuma dificultar sua localização. Conheça a história desses três artistas que perderam a luta pela dignidade.

 

Renato Rocha na capa do álbum “Que País é Este?”, de 1987 (Foto: Reprodução)

Edson Café

O músico Edson Bernardo de Lima, conhecido artisticamente como Edson Café, foi encontrado desacordado em uma calçada da Zona Leste de São Paulo no último domingo (8). Ele chegou a ser socorrido e levado à UPA do bairro Vila Carrão, sendo posteriormente transferido para o Hospital Municipal do Tatuapé, onde faleceu. O caso foi registrado como morte suspeita e está sob investigação da Polícia Civil. O corpo foi identificado por familiares no Instituto Médico Legal (IML) da Zona Leste após exames periciais.

Aos 69 anos, Café enfrentava uma dura trajetória marcada por episódios de vulnerabilidade social e dependência de substâncias químicas. Por mais de dez anos, viveu em situação de rua — parte desse tempo na cidade do Rio de Janeiro —, sobrevivendo com a ajuda de doações, programas assistenciais e, por vezes, atuando como guardador de carros. Em 2016, foi reencontrado por uma equipe de reportagem que o localizou em condição precária. Uma admiradora chegou a oferecer acolhimento, mas ele retornou às ruas pouco tempo depois, relatando que as drogas funcionavam como forma de aliviar suas dores emocionais.

Edson Café foi um dos integrantes da formação original do grupo Raça Negra, surgido nos anos 1980 em São Caetano do Sul. Atuando entre 1990 e 2005, participou do auge da banda como compositor, violonista e percussionista. Entre suas criações de destaque está a música “Oi, Estou Te Amando“, além de outras sete faixas gravadas pelo grupo. Também escreveu canções para outros nomes do pagode romântico, como o Só Pra Contrariar.

Em outubro de 1994, sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) que comprometeu os movimentos do lado esquerdo de seu corpo. Mesmo com limitações, continuou a se apresentar, tocando pandeiro apenas com a mão direita. Com o tempo, porém, as sequelas físicas e psicológicas agravaram seu estado emocional, levando-o à depressão e ao abuso de álcool e outras drogas — fatores que culminaram em seu afastamento definitivo da banda.

Nos últimos anos, Edson Café declarou sentir-se abandonado por antigos colegas do Raça Negra, especialmente por dizer não receber os direitos autorais das composições que ajudou a criar. Apesar de ter passado por 12 processos de internação em clínicas de reabilitação — com apoio da família e do vocalista Luiz Carlos — não conseguiu se manter afastado do vício nem sair das ruas.

Edson Café, na época em que morava nas ruas (Foto: Reprodução/Globo)

Isaura Bruno

Uma das protagonistas da primeira versão televisiva de “O Direito de Nascer” (TV Tupi, 1964), Isaura Bruno, que imortalizou a personagem Mamãe Dolores, morreu em extrema pobreza em 1977, em Campinas (SP), vendendo doces nas ruas e sem recursos sequer para arcar com seu próprio velório. Seu fim trágico ilustra não apenas a negligência da indústria televisiva com artistas negros, mas também o apagamento sistemático de suas contribuições para a cultura brasileira.

De acordo com pesquisa do jornalista Vítor Antunes, apresentada na conferência “White Slaves, Blackface, Whitewashing and ‘White’ Journalism: The ‘Invisible Blacks’ on Brazilian TV”, na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (2025), Isaura Bruno faleceu inicialmente como pessoa em situação de rua, atendida pela Santa Casa de Misericórdia de Campinas. A família, sem condições financeiras, recorreu à Prefeitura local para custear o enterro, que foi realizado com apoio público.

Isaura Bruno vendia doces numa Rodoviária em Campinas (Foto: Divulgação)

Bruno dedicou 14 anos à televisão, mas só assinou seu primeiro contrato formal em 1967. Apesar de sua visibilidade em um dos papéis mais icônicos da teledramaturgia da época, ela continuou exercendo trabalhos paralelos como empregada doméstica para colegas de profissão — entre eles, o diretor Edson Luiz, da TV Rio. No encerramento das gravações de “O Direito de Nascer”, coube a ela a tarefa de cortar e servir o bolo da equipe, um gesto que, por trás da cortesia, escancarava a desigualdade de tratamento entre os elencos brancos e negros.

Mamãe Dolores, figura maternal inspirada no arquétipo da “mammie” do imaginário colonial, foi um raro exemplo de personagem negra com destaque em horário nobre — ainda que submetida a estereótipos. Fontes primárias indicam que Isaura teria recebido um salário de 1 milhão de cruzeiros mensais pagos pela Gessy-Lever, patrocinadora da novela, que lhe prometeu uma campanha publicitária que jamais foi veiculada – e esse valor nunca confirmnado. Um telegrama enviado por uma emissora mexicana à TV Rio chegou a convidá-la para protagonizar a versão local da novela, mas essa oportunidade também se perdeu no tempo.

Fora das telas desde 1969, Isaura Bruno sobreviveu como pôde. Vendeu roupas, móveis e, mais tarde, doces em rodoviárias e praças públicas. Morreu invisibilizada, como tantas outras atrizes negras que tiveram sua trajetória marcada por brilho momentâneo e abandono estrutural.

Renato Rocha (Negrete)

Renato da Silva Rocha, mais conhecido como Negrete, foi uma das figuras centrais da formação original da Legião Urbana, uma das bandas mais influentes do rock brasileiro. Baixista e coautor de canções que marcaram gerações, participou dos três primeiros discos do grupo — “Legião Urbana (1985)”, “Dois” (1986) e “Que País É Este” (1987) — e ajudou a moldar a sonoridade melancólica e pulsante que caracterizou os anos iniciais da banda liderada por Renato Russo (1960-1996).

Após sua saída da Legião, no final dos anos 1980, Renato Rocha enfrentou um longo e duro processo de exclusão do cenário musical. Afastado dos palcos e dos estúdios, mergulhou em dificuldades pessoais agravadas pelo uso de drogas. Em 2012, chegou a ser encontrado vivendo em situação de rua no Rio de Janeiro. Com apoio de familiares e fãs, aceitou tratamento em uma clínica de reabilitação, mas sua trajetória permaneceu marcada por instabilidade.

Renato Rocha, o Negrete, morreu em 2015 depois de morar nas ruas do Rio (Foto: Reprodução)

Renato morreu aos 53 anos, em 22 de fevereiro de 2015. Seu corpo foi encontrado por uma amiga na pousada em que estava hospedado, no bairro da Enseada, em Guarujá, litoral de São Paulo. Ele tinha autorização para sair nos fins de semana da clínica onde estava internado, em Cotia, na Grande São Paulo. Segundo o laudo do Instituto Médico Legal, a causa da morte foi parada cardíaca. Não foram encontrados vestígios de violência nem de substâncias ilícitas no local.

Negrete, como era chamado pelos colegas, ainda tentou retomar a carreira pouco antes de morrer. Em 2014, participou de apresentações do projeto Urbana Legion, ao lado de outro ex-integrante da Legião, o guitarrista Eduardo Paraná. Foi uma breve volta aos palcos e ao repertório que ajudou a construir — canções que falam de juventude, política, dor e esperança. Sua morte, silenciosa e fora dos holofotes, revela uma camada menos visível da história do rock nacional: a daqueles que contribuíram intensamente com sua arte, mas terminaram esquecidos à margem. Renato Rocha viveu e morreu entre contrastes — do sucesso à solidão, do culto público à ausência de amparo.

Isaura Bruno, Renato Rocha e Edson Café foram estrelas que, em algum momento, iluminaram com força a cena cultural brasileira. No entanto, seus caminhos terminaram no silêncio das calçadas, marcados pelo abandono e pela indiferença. À margem dos direitos, do reconhecimento e da assistência, suas histórias ecoam como versos tristes de um país que consome talentos e os descarta quando cessam os aplausos. Que a memória, ao menos, lhes devolva a dignidade que a vida pública não sustentou.