*por Rodrigo Otávio
Louvável, e até necessária, é a tentativa da RedeTV! de se reposicionar no ecossistema da televisão. Aqui mesmo no Site Heloisa Tolipan, em diversas ocasiões, já se apontou que a emissora sobrevive com baixa audiência e, ao mesmo tempo, historicamente arrisca pouco em sua grade. Esta semana, contudo, houve um movimento que merece registro: o lançamento de um produto voltado à praça do Rio de Janeiro. A emissora ensaia uma retomada do jornalismo local com o “RJ do Povo”, que estreou terça-feira, dia 31, marcando o retorno a esse tipo de cobertura após quase uma década de ausência. Até 2016, a RedeTV! mantinha o “RJ Notícias”, seu único telejornal local na capital fluminense. A nova aposta, portanto, corrige uma lacuna relevante: a negligência de uma praça estratégica no que diz respeito à produção de conteúdo. Ainda assim, chama atenção o fato de o programa ter chegado “às sombras”, com divulgação tímida e pouco investimento em sua promoção.
Do ponto de vista formal, há méritos evidentes. O cenário do “RJ do Povo”, por exemplo, supera o padrão de alguns telejornais regionais concorrentes. A comparação com produções da Record é inevitável: mesmo mais compacto, o estúdio da atração da RedeTV! apresenta soluções visuais mais interessantes – e muito em conta do grande telão – do que programas de maior orçamento, como o “Domingo Espetacular”, que opta pelo chroma key. A paleta cromática, centrada em tons amarelados e alaranjados, cumpre dupla função: dialoga com a tradição dos telejornais vespertinos e, ao mesmo tempo, evoca uma estética nostálgica dos primeiros anos da emissora, em jornais como o “RTV!” (1999).

RJ do Povo estreou terça-feira, dia 31 de março (Foto: Reprodução/Rede TV)
No entanto, os problemas operacionais e editoriais são numerosos e comprometem a percepção de qualidade. Já na estreia, apenas dois repórteres — Natália Fonseca e Edson Soledade — participaram com entradas ao vivo e matérias gravadas. No caso deste último, um ruído básico: seu sobrenome não foi informado em nenhum momento na estreia, somente na segunda exibição do telejornal, na quarta-feira. Aliás, a ausência de créditos é um dos pontos mais críticos do telejornal. Nem o apresentador, Fábio Barreto, nem a equipe de reportagem foram devidamente identificados na tela, o que denota falha elementar de padronização e acabamento.
No desempenho em campo, há fragilidades que precisam ser tratadas com urgência. Edson apresentou dificuldades de dicção, articulação e concordância, perceptíveis tanto nas entradas ao vivo quanto nos VTs. São questões técnicas, corrigíveis com treinamento, e que não invalidam o esforço dos profissionais, que cumpriram suas pautas com correção e dignidade. Os problemas se estendem à captação de imagem. Em uma das reportagens sobre o preço dos ovos de Páscoa, a operação de câmera comprometeu significativamente o resultado. O material apresenta tremores constantes, enquadramentos imprecisos e uma instabilidade que sugere uso inadequado do equipamento — como se a câmera estivesse operada à mão em situações que exigiriam tripé. O efeito de “câmera nervosa”, pertinente em coberturas de alta tensão, como perseguições policiais, torna-se deslocado em matérias de caráter leve.
Por fim, o pacote gráfico — ainda que visualmente atraente — também revelou inconsistências. As tarjas são bem resolvidas do ponto de vista estético, mas houve erro grave de correspondência entre texto e imagem: uma legenda indicava um problema relacionado ao tráfico em Jacarepaguá, enquanto as imagens exibiam o atropelamento com vítimas fatais – mãe e filho, na Tijuca.
Ainda que seja plausível, e até esperado, que, em uma estreia ao vivo, o factual se imponha sobre o planejamento, chama atenção o fato de uma das reportagens anunciadas na escalada, tratada como especial e dedicada ao crime organizado em Jacarepaguá, simplesmente não ter ido ao ar. Trata-se de um ruído relevante: a principal matéria prometida ao público acabou suprimida. A responsabilidade, em tese, recai sobre o editor-chefe — cuja identidade, aliás, permanece desconhecida, já que a emissora não exibiu créditos de encerramento. É provável que o programa tenha estourado seu tempo e sido obrigado a devolver para a rede antes de exibir todo o conteúdo previsto.
No campo da apresentação, o jornal também evidenciou problemas de condução. O uso de bordões, recurso típico de telejornais de viés policial, apareceu de forma excessiva e pouco orgânica. Fábio Barreto, profissional experiente, acabou recorrendo de maneira reiterada ao “bateu de frente é perda total”, esvaziando o impacto da expressão pelo uso insistente. Mais do que isso, percebe-se um certo desconforto na tentativa de elevar o tom — inclusive no registro vocal, frequentemente tensionado para o agudo — e de incorporar uma persona mais incisiva e popular. Falta-lhe, nesse formato específico, a contundência e o vigor característicos de âncoras mais habituados a esse tipo de jornalismo.

Na foto, o menino atropelado na Tijuca. Na legenda (GC), o caso Jacarepaguá – que não foi exibido (Foto: Reprodução/RedeTV)
Tecnicamente, persistem falhas que comprometem a experiência do espectador. Houve problemas de iluminação no estúdio e inconsistências na operação de áudio, com a música de fundo (BG) entrando em momentos inadequados ou desalinhados com o conteúdo exibido. São deslizes de operação que, embora comuns em estreias, exigem correção rápida. No segundo dia de exibição do jornal, as falhas aumentaram: Houve vazamento de áudio da cabine de controle e dois vazamentos do conteúdo da rede nacional, o esportivo “Bola na Rede”. Também no jornal exibido na quarta-feira houve problemas graves na edição de vídeo na reportagem sobre empreendedorismo, e nenhum dos dois repórteres foram creditados. A reportagem especial prometida na estreia também não foi exibida.
No programa de estreia, uma oportunidade importante foi desperdiçada. Em um quadro de “povo fala”, uma moradora de São João de Meriti relatou a falta d’água em seu bairro — pauta clássica de prestação de serviço e de jornalismo comunitário. No entanto, não houve qualquer encaminhamento: nenhuma menção a possíveis soluções, nenhum compromisso explícito de cobrança às autoridades ou à concessionária responsável, a Águas do Rio. Exercício básico do jornalismo de ouvir todas as partes.
Ao deixar de transformar a queixa em ação, o telejornal se distancia justamente da vocação que reivindica para si: a de ser uma ponte entre o cidadão e o poder público
Apesar do conjunto de problemas — que não são poucos —, o “RJ do Povo” não é um produto descartável. Trata-se de um projeto ainda em estágio inicial, “verde”, mas com potencial de maturação. É relevante, sobretudo, observar a movimentação da RedeTV! em tentar reconquistar o público carioca, historicamente afastado da emissora desde o fim da Manchete, sua antecessora direta no canal 6. Há um espaço a ser disputado, especialmente entre espectadores pouco contemplados por formatos mais tradicionais.
Com ajustes pontuais — técnicos, editoriais e de posicionamento —, o telejornal pode se tornar uma alternativa viável dentro do segmento popular. Uma estratégia de contraprogramação, por exemplo, evitando o confronto direto com produtos consolidados como o RJ1, da Globo, ou o SBT Rio, poderia favorecer sua curva de crescimento. A iniciativa, em si, é meritória. Mas, para se sustentar, precisará rapidamente converter intenção em consistência.
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