*por Rodrigo Otávio
O “Esporte Record”, programa esportivo da emissora, conta com um “repórter-comentarista-ou-o-que-quer-que-seja” que atende pelo nome de Toninho da Resenha. Apresentado por Cleber Machado com entusiasmo quase didático, o personagem foi descrito como fruto direto da inteligência artificial e criado pela RecordTV. Dados de rendimento, estatísticas, informações sobre jogos e históricos recentes são inseridos em um sistema automatizado; a partir daí, Toninho formula seus comentários – análises 100% robóticas, sem pudor em enunciar juízos duros, diretos e, supostamente, polêmicos.
Há algo de excessivamente confortável, e, porque não dizer, covarde, nessa delegação da crítica à inteligência artificial. Quando a opinião vem de uma máquina, ninguém a assume. Não há rosto, biografia, trajetória ou risco reputacional. Trata-se apenas da reorganização automática de dados previamente fornecidos, rearranjados em frases de impacto que simulam coragem editorial. A crítica deixa de ser um ato e passa a ser um efeito colateral do algoritmo.
“Polêmica é comigo mesmo. O São Paulo tem elenco, promessa e discurso, mas não tem time. E quando isso acontece, há o medo do rebaixamento”, sentenciou, em tom definitivo o Toninho da Resenha, como quem profere uma verdade inconveniente. Não havia ali hesitação, nuance ou ironia. Apenas a segurança sintética de quem não tem nada a perder.
O São Paulo, é verdade, vive seus problemas – inclusive econômicos. Um deles foi tema, aliás, de uma extensa reportagem investigativa exibida pelo “Fantástico” no mesmo domingo da estreia de Toninho, numa coincidência que beira a ironia editorial. A Record informou à imprensa que o comentarista em IA passará a integrar semanalmente o programa, com a missão de abordar temas relevantes do futebol e analisar o cenário dos principais clubes do país. Missão nobre, à primeira vista. Questionável, à segunda.

Toninho da Resenha: Um equívoco da Record (Foto: Divulgação)
Não se pode afirmar que a inteligência artificial careça de repertório. Ao contrário: ela dispõe de uma massa colossal de informações, estatísticas, arquivos e comparações. O que lhe falta é justamente aquilo que estrutura qualquer pensamento crítico legítimo: subjetividade, contradição, ambivalência, memória afetiva. Falta-lhe o risco. Falta-lhe a implicação pessoal. Falta-lhe, sobretudo, a experiência humana – esse terreno instável onde opinião não é apenas cálculo, mas também hesitação, erro e responsabilidade.
Mais grave ainda é a operação simbólica que acompanha a criação do personagem. Ao investir em uma figura caricata – algo entre o boneco falante e o mascote de aplicativo – a emissora ocupa um espaço que poderia ser de um comentarista real. Em sua estreia, Toninho da Resenha serviu basicamente para verbalizar o óbvio: uma leitura previsível diante de uma derrota acachapante do tricolor paulista diante do Mirassol. Nada que não estivesse nas arquibancadas, nas mesas de bar ou nas redes sociais desde o apito final.
A escolha soa barata, oportunista, “inteligentemente burra”. A inteligência que se anuncia como afiada revela-se apenas funcional: reproduz consensos, simula polêmica, mas não produz pensamento. Automatizada, é também inofensiva. Não fere, não desestabiliza, não desloca. Apenas ocupa tempo de tela.
A pergunta que se impõe é direta e incômoda: que lugar de autoridade ocupa a opinião de um robô? Qual a credibilidade de um personagem artificial ao comentar um esporte que depende, sobretudo, de leitura tática, conhecimento técnico, memória histórica, sensibilidade e até intuição? A opinião esportiva, como qualquer opinião, não é um relatório estatístico. É fruto de vivência, interpretação, comparação e, muitas vezes, contradição. Tudo aquilo que não cabe em um banco de dados.

Eva Byte era apresentadora do “Fantástico” (Foto: Reprodução)
Não é a primeira vez que um robô ocupa espaço no jornalismo brasileiro. Há anos, Eva Byte foi coapresentadora do Fantástico, responsável pelas cabeças – chamadas curtas das reportagens. Ali, o gesto era outro. A Globo buscava sinalizar modernidade, experimentar linguagem, não terceirizar pensamento crítico. O texto de Eva Byte era escrito, editado e assumido por um redator humano. A inteligência artificial funcionava como interface visual, não como instância opinativa. O mesmo raciocínio vale para a Magalu, do Magazine Luiza. A personagem robô é usada com inteligência estratégica: não opina, não critica, não analisa conjuntura. Serve como identidade de marca, adorno comercial, mediação simpática com o consumidor. Não há ali confusão entre ferramenta e autoridade, entre imagem e discurso.
O desespero contemporâneo de inserir inteligência artificial em tudo transformou a IA no pistache do jornalismo. O creme de pistache entrou em toda receita possível até perder identidade, virar moda vazia, gosto genérico. A inteligência artificial, aplicada indiscriminadamente a toda demanda jornalística, corre o mesmo risco: perde função como ferramenta e ganha contornos de fetiche tecnológico, de “produto premium”, de falsa modernidade. O resultado é um jornalismo cada vez mais inócuo, frágil, ornamental.
No fim, Toninho da Resenha não aponta para o futuro do comentário esportivo. Ele revela apenas o presente de uma indústria que prefere automatizar o risco a assumir a crítica — e que, ao fazê-lo, terceiriza não apenas a opinião, mas também a responsabilidade por tê-la.
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