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Sexo, mentiras e mídias sociais em “O Rebu”: na nova versão, sai o jet set e entram a qualidade de cinema e a Sociedade do Espetáculo

Com extremo apuro visual, o capítulo apresentado nesta segunda-feira revela o quanto o mundo ficou mais complexo quarenta anos depois da versão original

Publicado em 15/07/2014 | Por Alexandre Schnabl

Autêntico exemplar da teledramaturgia inteligente que ocupava o antigo horário das 22h na TV Globo setentista, “O Rebu” ganha agora remake, com José Villamarim (de “Amores Roubados” e “Avenida Brasil”) à frente da equipe, cujo primeiro capítulo foi ao ar nesta noite de segunda-feira (14/7). Pela atual faixa das 23h que requenta há três anos antigos sucessos da emissora, já passaram novas adaptações do folhetim de Janete Clair (“O Astro”), da brejeirice de Jorge Amado sob a ótica faceira de Walter George Durst (“Gabriela”) e do realismo fantástico de Dias Gomes (“Saramandaia”). Era natural, portanto, que o thriller policial escrito por Bráulio Pedroso em 1974 acabasse mais cedo ou mais tarde dando as caras nessa nova fornada de clássicos do baú da Globo. Afinal, se “O Rebu” não pertence à leva de blockbusters que fizeram a história da televisão neste horário mais tardio – como “Bandeira 2”, “O Bem Amado” e a própria “Gabriela” – ele faz parte de um segmento de produções cult ao lado de “O Bofe” (de Bráulio Pedroso, 1972), “Os Ossos do Barão”(de Jorge Andrade, 1973 e “O Grito” (de Jorge Andrade, 1975).

O mote é simples, mas genial: em uma festa da alta sociedade carioca, um crime é cometido, mas, até o meio da novela (capítulo 50 do total de 112), ninguém sabe quem matou, quem morreu ou qual o motivo do assassinato. E, conforme os publicistas da Globo andam apregoando através do amplo material divulgado, outra razão chama atenção para a excelência da trama: toda a história se desenrola durante o tal rega-bofe, os momentos de antecederam ao badalo, os atos subsequentes ao sinistro, sua investigação, tudo, claro, com muito flashbacks. Portanto, a questão do tempo (e a necessidade de dominar o timing nesta produção) já garante os holofotes.

A abertura da versão original, em 1974: época de escassez de recursos em uma TV Globo pré-Hans Donner e muito antes da tecnologia digital

Obviamente, hoje os tempos são outros. É era em que a velocidade do mundo digital e os recursos de computação definem outros parâmetros para o ritmo da ficção, seja no cinema ou na tevê. Nesta adaptação televisiva com aroma de cinemão, Villamarim e sua trupe precisaram atualizar a trama para os dias atuais, trabalhando com cortes frenéticos e tomadas mirabolantes (como a tal piscina vista de cima neste primeiro capítulo), sob a soberba direção de fotografia de Walter Carvalho (“Central do Brasil”). E ainda se dão ao luxo de alterar personagens e atualizar o enredo como deve ser feito.

A plástica 2014 da nova "O Rebu":  a novela ganha  o refinamento da fotografia assinada por Walter Carvalho (Divulgação)

A plástica 2014 da nova “O Rebu”: a novela ganha o refinamento da fotografia assinada por Walter Carvalho (Divulgação)

Na versão original, exibida em plena revolução de costumes dos anos 1960/1970, havia questões relevantes como a igualdade de sexos, a confusão de gêneros, dominatrix fêmeas que se relacionam com garotões, adultérios consentidos e até homossexualismo velado, mas nunca escondido. A antiga novela era um tapa na cara da sociedade da época. Agora, algumas questões envelheceram, outras nem tanto, uma ou outra até permanece a mesma, mas sob novos olhares.

Por exemplo: uma das razões em que não se sabia antes a identidade da vítima até meados da novela era o fato de que as mulheres da festa, em um arroubo bafônico, resolverem em dado momento vestir smokings. Por isso, o corpo que boia na piscina pode ser homem ou mulher e demora uma eternidade até que se descubra que quem partiu para o nirvana é Sílvia (Bete Mendes). Naturalmente, tratava-se de uma crítica à questão de gêneros que ganhava visibilidade naquela década, deixando todos atônitos após a eclosão do ativismo gay em Stonewall. Neste primeiro capítulo do remake, entretanto, os roteiristas abriram mão deste suspense e já se sabe que quem passou desta para melhor é Bruno (Daniel Oliveira).

Igualmente novo para o público do período era o surgimento das mulheres no mercado de trabalho, tomando decisões no comando de empresas sem precisar viver à sombra dos maridões. Essa nova e poderosa persona coube à Tereza Rachel, que tornou sua Lupe Garcez um personagem memorável na galeria de tipos que fizeram a história da Globo. Rica, chique, linda, dona do seu próprio nariz e amante de um rapaz bem mais novo, com conta bancária capaz de causar um acesso de risos na milionária. Na nova versão, a bem-nascida foi rebatizada de Vic Garcez, tem um affair com um fedelho típico da Geração Y e foi confiada à Vera Holtz, uma atriz que a alta-direção do Projac adora escalar pra viver o papel de devoradora de novinhos, algo que  já havia funcionado em “Belíssima” (de Sílvio de Abreu, 2006).

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Nesta nova adaptação, o penetra que invade o bafão interpretado antes por Lima Duarte (Boneco) ganha os contornos de um alpinista social, bem menos ingênuo e muito mais descolado, agora sob a pele do novo queridinho do cinema nacional, Jesuíta Barbosa (“Tatuagem”, “Praia do Futuro”), vencedor do último Festival do Rio. O ator já havia trabalhado com Villamarim em “Amores Roubados”, assim como Patricia Pillar e Dira Paes, e promete cenas tórridas com a milionária que se envolve com o pobretão, Maria Angélica (Camila Morgado). Esta também foi rejuvenescida pela dupla de escritores, Sergio Goldemberg e George Moura, que a deixaram bem mais foguenta que a original, vivida por uma romântica Yara Côrtes em 1974.

Mas, encabeçando a trama, está o triângulo amoroso composto por Patricia Pillar, Sophie Charlotte e Daniel Oliveira, com este se interpondo à relação gay das primeiras em uma inversão de sexos, já que no original de Braúlio Pedroso, ao invés de Patrícia, o todo-poderoso que organiza a festa era Conrad Mahler, interpretado por Ziembinski, seu protegido era Cauê (Buza Ferraz, lindo de doer!) e quem fazia a tia velha por os bofes para fora era Bete Mendes. No capítulo visto nesta segunda, foi mantida a relação homossexual, mas, com os papeis invertidos, uma dupla de potrancas protagoniza a questão. E como referências dos anos 1970 abundam nesta obra, a equipe atual não abriu mão dos cabelos curtinhos para a Duda de Sophie, igual à Sílvia de Bete e uma das marcas da novela, ainda que Duda equivalha ao Cauê de Buza. Pode até parecer confuso, mas nada que atrapalhe o enredo.

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Entretanto, uma coisa é visível quando se compara a primeira realização com esta nova produção. Em 1974, o grand monde era muito mais simples e o jet set predominava em um mundo no qual não existia o medo de ostentar. A primeira crise do petróleo ainda estava no início e a sociedade mundial ainda não havia sucumbido ao flagelo do politicamente correto que se abateu sobre todos a partir da virada dos oitenta e à perda do poder aquisitivo. Antes de mais nada, Braúlio escreveu uma história que orbitava neste universo dos bem-nascidos seguindo a tradição hollywoodiana de reproduzir o ambiente dos muito ricos, aqueles que viviam à sua volta e seus dramas. Filmes como “The V.I.P.s” (idem, de Anthony Asquith, MGM, 1963) ou “O Inferno na Torre” (The Towering Inferno, de John Guillermin, Warner Bros, 1974) são exemplos de gêneros diferentes que mostram como o cinema era pródigo em revelar às massas esse mundinho estelar, e o que a TV Globo fez, de certa forma, foi trazer para a televisão brasileira este universo, tendo como pano de fundo a história policial.

Tanto que, naquele roteiro, a razão da tal festa onde tudo se passava era um jantar em homenagem à uma fictícia princesa, Olympia Buoncompagni (Marília Branco), cujo sobrenome remete à uma família que existe de verdade e que é uma das mais ilustres da Itália. Uma alusão, certamente, ao finado jet set composto por dinastias poderosas como os Grimaldi, Furstemberg, Rothschild e personalidades que dominavam as colunas sociais daquelas décadas, tipo Madame Sukarno, Sinatra, Sammy Davis Jr, o xá do Irã Reza Pahlavi, sua mulher Farah Diba, Pelé, Liza Minelli, Diana Vreeland, Marisa Berenson, Liberace, Liz Taylor e Richard Burton, entre outros. E a preocupação em retratar esse mundo foi tão latente que críticas à produção de arte da novela e a algumas particularidades do cerimonial apresentadas no plôt eram questionadas por ninguém menos que os colunistas sociais, como Ibrahim Sued e Zózimo Barroso do Amaral. Algo que não deve acontecer agora, quando a Globo já domina plenamente todos os meandros da pesquisa de arte.

O capítulo 92 da versão original e os cuidados com a produção de arte nesta época (Reprodução)

Afinal, o verdadeiro desafio da equipe de José Villamarim neste remake é inserir a a nova Sociedade do Espetáculo na história e a presença das mídias sociais e da tecnologia da informação dentro do contexto.

Espertamente, em 1974 a Globo escalou o um time de primeríssima para compor o elenco original, com o ator e diretor polonês Zbigniew Marian Ziembinski (1908-1978), ou simplesmente Ziembinski – uma espécie de Fernanda Montenegro dos primeiros anos da emissora – para encabeçar o elenco composto por medalhões que fizeram a história da dramaturgia televisiva: além de Duarte, Mendes, Côrtez e Rachel, Mauro MendonçaIsabel RibeiroRuth de SouzaJosé LewgoyArlete SallesCarlos VerezaMaria Claudia e Rodrigo Santiago. Algo que nesta nova empreitada, Villamarim tenta repetir com a prata da casa atual, como Tony RamosJosé de Abreu, Laura NeivaCássia Kiss Magro Marcos Palmeira, além dos citados. Promete!

Ziembinski na cena da descoberta do corpo de Silvia (Bete Mendes) b0iando na piscina, na versão apresentada em 1974 (Reprodução): compare com a riqueza de detalhes da cena exibida nesta segunda-feira (14/7), sob a batuta de Walter Carvalho 

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