Raymundo de Souza fala sobre volta ao teatro depois de 72 cirurgias em função de um acidente de moto


Solteiro, aos 73 anos, Raymundo de Souza retorna ao teatro em “Aluga-se um Namorado”, após uma carreira que o levou de galã a patriarca. Em 2018, um grave acidente de moto, que resultou em cerca de 72 cirurgias, abalou sua fé e o obrigou a uma reconstrução física e emocional. Recuperado, ele afirma viver o presente como prioridade e vê no palco um recomeço simbólico. Observador crítico das novas gerações e do etarismo na TV, defende mais espaço para atores maduros. Também cobra mudanças na legislação sobre direitos autorais, enquanto reafirma que segue trabalhando por vocação. Retoma ainda uma disputa antiga, já comentada em entrevistas anteriores: o não pagamento até hoje de direitos conexos por “Cortina de Vidro” e “Meus Filhos, Minha Vida”, do SBT, novelas reprisadas à exaustão, especialmente na Itália

*por Vítor Antunes

Ele já interpretou os mais diferentes papéis na televisão e no teatro: galã, vilão, jovem revoltado, patriarca. Agora, Raymundo de Souza retorna aos palcos encarnando um judeu alinhado aos valores da tradição na comédia “Aluga-se um Namorado”. A peça, que também se debruça sobre os códigos e afetos da família, encontra eco na trajetória pessoal do ator. “Eu tive três mulheres, cinco filhos, depois da última fiquei 20 anos e estou solteiro”, diz o ator, de 73 anos”. Em 2018, porém, a biografia ganhou contornos mais ásperos: um acidente de moto que resultou em cerca de 72 cirurgias e num longo processo de reconstrução física e emocional.

“Com uma perna machucada, a moral lá embaixo, sem trabalhar, isso tudo me machucou bastante. Doeu muito por dentro, especialmente na fé. Eu, que sou um cara de fé, passei a ter momentos difíceis”. A travessia foi também espiritual. Ele conta que passou a se observar mais — e a observar os outros. “Quando eu vejo uma pessoa ansiosa, eu pergunto: ‘o que ela quer?’ Se a pessoa não estivesse querendo algo que está fora do seu controle, por que sentiria essa ansiedade? Eu vou viver o meu momento, respeitando a minha própria vida. Assim, eu respeito a sua também, porque não vou transbordar”.

“A gente tem que olhar no espelho e agradecer a Deus por confiar em nos dar mais um dia de vida e nos capacitar a respeitar as pessoas. Eu procuro viver meu momento. As pessoas que estão do meu lado gostam de mim e querem estar. Quem não quer, não me liga. Então por que eu vou me incomodar? Eu vivo o meu agora. E amanhã a Ele pertence. Se eu construir um bom presente, o meu futuro será maravilhoso, como está sendo – Raymundo de Souza

Raymundo de Souza em cena de “Aluga-se um namorado” (Foto: Divulgação)

A volta aos palcos representou uma redefinição. Antes do acidente, ele estava em cartaz com “Um Casamento Feliz”, ao lado de Eri Johnson e João Lima Júnior. A interrupção foi abrupta. “Esse foi um dos grandes trabalhos, muito importante para mim, porque marcou a minha virada de chave depois do acidente gravíssimo que sofri, em 2018, e do qual já estou curado. Fiz 72 cirurgias na perna e reestreiei praticamente da mesma forma como tinha estreado antes. Esse retorno tem um significado muito grande”.

Em “Aluga-se um Namorado”, a comédia gira em torno de uma família judia tradicional. A personagem de Juliana Knust contrata um homem para se passar por judeu e apresentá-lo aos parentes como se fosse o pretendente ideal. No palco, o ator interpreta o patriarca. Fora dele, diz-se igualmente devoto dos laços familiares. “Essa peça fala de família, e eu sou muito ligado à minha. Adoro meus netos e sou muito ligado aos meus sobrinhos”. O acidente, afirma, reorganizou prioridades. “Passei a ter mais fé em Deus, a acreditar mais nas coisas, no próprio universo. Ele nos transmite segurança e a compreensão de que somos responsáveis pelas coisas que acontecem conosco. Comecei a ler muito sobre Deus, li a Bíblia inteira. Esse acidente me ensinou muita coisa”.

Raymundo de Souza debate as questões inerentes à maturidade (Foto: Divulgação)

TEMPO

O ator, que iniciou a carreira no fim dos anos 1960, observa as novas gerações com a serenidade de quem já atravessou modas, formatos e febres passageiras. “Eu comecei em 1968. Os grandes atores da televisão eram Lima Duarte, Fernanda Montenegro, Maria Della Costa, Cacilda Becker”.

Ele prefere o tempo ao entusiasmo imediato. “A gente vai saber dessa nova geração daqui a 10 anos. Quem vai permanecer? O pessoal do TikTok? Eu tenho 58 anos de profissão. Há pessoas talentosíssimas e pessoas que só têm views e curtidas. São contratadas porque têm três ou seis milhões de seguidores. Isso me deixa um pouco triste.” Em seguida, pondera: “Cada um tem que seguir a modernização, a internet, a inteligência artificial. Mas quando eles estiverem na nossa idade, será que vão continuar fazendo arte? Eu não sei, o futuro a Deus pertence. Eu vivo agora. Este momento é o mais importante da minha carreira. Estou fazendo uma peça que amo, volto para o lugar onde nasci”.

O debate sobre etarismo também o atravessa: “Hoje se fala muito de etarismo, que os atores mais velhos não têm espaço. Eu entendo por que não trabalho tanto mais em novela. Uma família vai ter um ou dois idosos, necessariamente. Deveria haver mais espaço para atores maduros.” Ele não se queixa da própria agenda. “Graças a Deus, estou fazendo bastante cinema, bastante teatro”.

Raymundo de Souza em cena na novela “Cortina de Vidro”, na exibição da Tellecità (Foto: Reprodução)

Raymundo retoma ainda uma disputa antiga, já comentada em entrevistas anteriores: o pagamento de direitos por “Cortina de Vidro” e “Meus Filhos, Minha Vida”, do SBT, novelas reprisadas à exaustão, especialmente na Itália. “A gente vive no Brasil. Esse é um assunto que não está resolvido. Eu não entendo como essa Justiça é tão injusta com a classe artística. O que seria do povo brasileiro, ou do mundo inteiro, se não existisse a arte, a música?”

Ele acusa a emissora de negligência: “O SBT é uma emissora mesquinha. Dizem que foi pirateado. Piratearam a nossa novela e ela está passando até hoje na Itália. Naquela época era muito difícil piratear”. Em contraste, cita outras empresas. “A Globo paga, paga pouco, mas paga, porque é lei. A Record me paga quando reprisa no canal aberto. Não é o que eu queria, não estou satisfeito, mas assinei o contrato e aceito. Agora, deixar de pagar uma coisa que você tem direito?”.

O impasse, segundo ele, é estrutural: “A gente não ganha direitos autorais. Netflix não paga, Amazon não paga. Mas eles não têm culpa, a lei não existe, não estava previsto. Eles não estão descumprindo a lei.” A saída, acredita, virá de pressão organizada. “Claro que tem a briga. Vão propor isso, como foi em 1978 para a regulamentação do ator. Eu estava nessa luta.”

Eu não não tenho vergonha de falar nada, sabe?  E se me chamarem para fazer televisão, eu vou com maior prazer. Eu quero fazer porque é a minha arte, é o que eu vivo – Raymundo de Souza

Raymundo de Souza está no teatro (foto: Divulgação)

O ator parece menos interessado em disputar espaço do que em ocupar, com inteireza, o lugar que é seu. Depois de quase seis décadas de carreira, um acidente que o atravessou por dentro e por fora e uma fé que precisou ser reconstruída peça por peça, ele fala do presente como quem segura algo frágil e precioso. Não há ressentimento, apenas permanência. Se o palco diminui, ele se adapta; se a televisão chama, ele vai; se não chama, segue. O que o move não é a vitrine, mas o gesto antigo de representar. Entre a tradição da família que encena e a própria história que carrega, Raymundo transforma sobrevivência em linguagem. E continua, obstinado e sereno, fazendo da arte não um lugar de vaidade, mas de existência.