“Ramba brasileira”: Giovanna Antonelli surpreende em filme tenso dirigido por Gustavo Bonafé na Amazônia


A atriz assume um dos papéis mais desafiadores da carreira em “Rio de Sangue”, vivendo uma policial marcada pela violência e movida pelo instinto materno. Sob direção de Gustavo Bonafé, o filme combina ação e drama ao inserir a narrativa no contexto do garimpo ilegal na Amazônia. O diretor aposta em realismo, com consultorias e presença indígena, sem abrir mão do suspense como motor principal. A personagem de Giovanna, apelidada de “Ramba brasileira”, sintetiza força e vulnerabilidade em igual medida

*por Vítor Antunes

Um dos papéis mais disruptivos da carreira de Giovanna Antonelli, a ponto de ser descrita, nos bastidores, como uma espécie de “Rambo feminina”. A imagem ganha contornos mais precisos quando filtrada pela fala do diretor de Rio de Sangue, filme produzido pela Intro Pictures e dirigido por Gustavo Bonafé. “O filme ainda tem esse molde de uma relação mesmo maternal, e de até onde uma mãe pode ir para resgatar a filha. Tanto que bricamos dizendoque a personagem da Giovanna como a ‘Ramba brasileira’.” Em Rio de Sangue, Giovanna interpreta Patrícia Trindade. Jurada de morte pelo narcotráfico, ela deixa São Paulo e segue para o Pará, onde tenta recompor não apenas a própria segurança, mas um vínculo interrompido com a filha, Luiza (Alice Wegmann). Luiza é médica e atua em missões humanitárias junto a populações indígenas no Alto Tapajós numa zona de fricção entre Estado, crime e abandono histórico. Quando a jovem é sequestrada por garimpeiros durante uma expedição, a trama assume seu pulso mais clássico: a corrida contra o tempo. O percurso de Patrícia torna-se, então, um teste de resistência — física, moral e, sobretudo, materna.

Para Giovanna, o papel chega com o peso habitual das estreias: “Todo papel do momento é o mais desafiador. Geramos muita energia pra depositar em cada projeto e para tirar nossas ideias do papel”. Segundo ela, é importante debater esses assuntos: “É necessário  mostrar essa nossa realidade pouco falada e muito sabida. O que vemos ali no filme acontece todos os dias, há muitos anos. A floresta e o olhar do povo indígena contam nossa história de uma forma muito potente”.

Bonafé, por sua vez, enfatiza a construção da protagonista em um registro diferente da personalidade exuberante de Giovanna. “O primeiro ponto que ressaltamos foi que a  Patrícia é uma personagem sem traquejo social, sem vaidade, e a Giovanna adorou isso. O filme é primordialmente uma peça de entretenimento. É um thriller de ação e suspense que vai manter o espectador muito envolvido”.

Fora das telas, Antonelli projeta o futuro em outra chave. Prepara para 2027 o “Elas”, que define como “o maior evento feminino da América Latina, que conta com mais de 3 mil mulheres presentes, em dois dias de imersão”.

Gravações de “Rio de Sangue”, com o staff de Gustavo Bonafé (Foto: divulgação)

O diretor descreve a origem de Rio de Sangue objetivamente: “O projeto surgiu como um filme de ação com pano de fundo no garimpo ilegal na Amazônia. A história já partia disso”. A ideia inicial, porém, não era exatamente essa: “O filme se chamava Rio Negro, mas mudamos depois das pesquisas que começamos a fazer sobre o tema”. A mudança não foi apenas geográfica, mas também de abordagem. “Desde o começo, o roteiro foi muito preocupado em entender a realidade, para não tratar esse pano de fundo como algo superficial ou distante.” Para sustentar essa ambição, a produção recorreu a diferentes frentes de escuta. “Tive consultoria com indígenas e até com pessoas que já trabalharam no garimpo ilegal, pra retratar de fato como é essa realidade.”

Com essa base, o projeto se organizou como aquilo que nunca deixou de ser: um thriller. “A ideia sempre foi fazer um filme de ação e suspense, mas dentro de um contexto sociopolítico importante no nosso país.” A história se passa em Jacareacanga, no sudoeste do Pará e distante cerca de 1.700 km da capital, Belém. Jacareacanga é uma região diretamente impactada pelo garimpo, mas as filmagens aconteceram principalmente em Santarém.

“Tivemos apoio da prefeitura e trabalhamos inclusive com os Munduruku. Fomos muito bem recebidos pelos indígenas para contar essa história”. Nem tudo, porém, pôde ser captado in loco. Por questões de segurança, as cenas de garimpo ilegal foram recriadas em uma olaria. Ainda assim, os maiores desafios vieram de outro elemento: a água. “A dificuldade maior são as cenas de ação, principalmente as que acontecem no rio, porque o processo fica mais lento. Tem muita cena de deslocamento em barco, e há uma em que a personagem da Giovanna é levada numa canoa pro meio do Tapajós, pra ser afundada ali. Essas diárias são as mais difíceis, porque a água complica tudo.”

No Tapajós, para onde quer que você aponte a câmera, o cenário é lindo, deslumbrante. A realidade já está lá – Gustavo Bonafé.

Giovanna Antonelli e Gustavo Bonafé (Foto: Bárbara Vale)

O diretor destaca que detalhes acabam definindo o tom do filme. “A gente tem os indígenas, em parte do filme, falando a língua munduruku — que era algo que eu fiz questão que acontecesse. Eles têm um trabalho de recuperação da língua entre eles mesmos, de reensinar para os mais novos e tentar não perder isso no filme”.

A presença indígena não se limita ao idioma. O elenco também foi construído com esse cuidado. “A gente trabalhou com alguns atores indígenas. Mandei minha preparadora de elenco pra lá, ela trabalhou com alguns, depois chegamos a três nomes e fui entender quem sustentaria melhor o filme.” A decisão recaiu sobre Fidelis Baniwa. “Ele é um ótimo ator. Achei muito importante pro filme. Temos também o Daniel Munduruku, assim como a cacica Leusa, também munduruku.”

Giovanna Antonelli no set de “Rio de Sangue” (Foto: Bárbara Vale)

Se no filme o esforço é de aproximação com uma realidade específica, fora dele Bonafé amplia o enquadramento. Vê o cinema brasileiro atravessando um momento favorável, ainda que incompleto. “Acho que a gente tá num momento muito bom. Tem coisas a melhorar, principalmente na questão das leis, e estamos tentando avançar com a lei do streaming, pra exigir mais conteúdo nacional. As pessoas menosprezam o tamanho da nossa indústria. Ela emprega mais gente que o agro. Muita gente trabalha, é um setor que dá resultado, que dá dinheiro, que as pessoas gostam e que forma a cultura do país. A gente está vivendo um ótimo momento,  e ainda tem espaço pra melhorar.”

Longa foi dirigido por Gustavo Bonafé (Foto: Divulgação)

Rio de Sangue parece se organizar menos como um filme de ação e mais como um percurso — desses em que a correnteza não se vê de imediato, mas arrasta tudo. Entre o ruído dos tiros e o silêncio espesso da floresta, há uma mulher que avança, não como heroína clássica, mas como alguém empurrado pelos próprios vínculos. Talvez por isso a “Ramba brasileira” faça sentido: não pela força bruta, mas pela insistência. No Tapajós a beleza não suaviza — ela expõe. E o que o filme revela, no fim, é justamente isso: que por trás do espetáculo ainda pulsa um país que resiste, fala — às vezes em outra língua — e insiste em não desaparecer.