Rainer Cadete volta à TV, fala de liberdade sexual e detona rótulos: “O meio artístico ainda cobra encaixe”


Ele está no ar em ‘Êta Mundo Melhor!’, novela das seis da Globo, e divulga o livro ‘Olhares que Filtram’, escrito em parceria com o filho, Pietro Cadete, de 18 anos. Na obra, os dois escancaram afetos, ancestralidades e a construção de um vínculo entre um pai branco e um filho negro em um país marcado pelo racismo estrutural. O artista também anuncia novos projetos, como um trabalho musical, e retorna aos palcos com o espetáculo ‘Visitando o Sr. Green’. Neste bate-papo, Rainer fala sobre a liberdade nos afetos e a vivência da sexualidade de forma fluida, sem se prender a rótulos ou padrões – ele se declarou pansexual

*Por Brunna Condini

Rainer Cadete voltou ao ar em ‘Êta Mundo Melhor!‘, a nova novela das seis da Globo, e, ao mesmo tempo, realizou recentemente uma sessão de autógrafos na Bienal do Rio para promover uma de suas obras mais íntimas: o livro ‘Olhares que Filtram‘, escrito em parceria com o filho, Pietro Cadete, de 18 anos. Na obra, os dois escancaram afetos, ancestralidades e a construção de um vínculo entre um pai branco e um filho negro em um país marcado pelo racismo estrutural. “Nosso livro nasceu das conversas que sempre tivemos sobre quem somos e como o mundo nos atravessa”, revela o ator, que também fala, sem freios, sobre sexualidade, paternidade e os sentimentos que escolhe transformar em arte.

Entre a volta à TV, o lançamento do livro com o filho e novos projetos, Rainer conversa sobre a liberdade nos afetos, a vivência da sexualidade de forma fluida, sem se prender a rótulos ou padrões (ele se declarou pansexual); refletindo sobre o quanto essa liberdade o potencializa, ou desafia, em um meio artístico que ainda cobra tantas definições. “Me fortalece porque me conecta com quem sou de forma mais honesta. Não vivo a sexualidade como uma camisa de força ou uma necessidade de agradar expectativas externas. Vivo como movimento, verdade, presença. E isso me dá força como artista, porque me permite acessar uma gama mais ampla de emoções, de experiências humanas”. Apesar da fé nas escolhas, o ator não as romantiza:

No ar em novela, divulgando o livro com o filho e com outros projetos, Rainer Cadete fala sobre paternidade, liberdade e o poder de transformar sentimentos em arte (Foto: @linekerlenhard)

No ar em novela, divulgando o livro com o filho e com outros projetos, Rainer Cadete fala sobre paternidade, liberdade e o poder de transformar sentimentos em arte (Foto: @linekerlenhard)

O meio artístico, apesar de parecer moderno, ainda cobra muitos rótulos. Ainda existe uma necessidade de encaixe, de ‘caixinhas’, de controle. Ser fluido num ambiente que quer certezas pode ser desafiador, mas prefiro lidar com esse desconforto do que abrir mão de quem sou . No fim, a liberdade interna não é só uma escolha estética, é um posicionamento de vida. E quanto mais a gente assume isso, mais espaço a gente abre para que outros também possam respirar – Rainer Cadete

O artista conta, que além da novela e da divulgação do livro, está se experimentando em outros projetos inéditos. “Tem um trabalho musical vindo aí, que é uma forma de expressão que me atravessa de um jeito muito direto e emocional. Já está gravado, agora falta lançar. Também tenho vontade de voltar ao teatro com algo mais autoral, mais íntimo, talvez até dirigir. E sigo aberto aos encontros que a arte proporciona. O que me move é estar inteiro no que faço, cercado de gente talentosa e generosa. Quando isso acontece, sei que estou no caminho certo”, diz Rainer, que aproveita para voltar aos palcos nos dias 26 e 27 de julho, no Grande Teatro do Sesc Palladium, em Belo Horizonte, com o espetáculo ‘Visitando o Sr. Green‘, de Jeff Baron, ao lado de Elias Andreato, após o sucesso que a montagem fez em São Paulo.

"No fim, a liberdade interna não é só uma escolha estética, é um posicionamento de vida" (Foto: @linekerlenhard)

“No fim, a liberdade interna não é só uma escolha estética, é um posicionamento de vida” (Foto: @linekerlenhard)

Liberdade, desconstrução de rótulos e amor sem roteiro

Ao falar com naturalidade sobre encontros que transcendem rótulos, ele explica por que acha que a sexualidade dos outros ainda rende tanto interesse e até incômodo. “Acredito que isso acontece porque revela uma liberdade que muita gente não tem coragem de viver. É como um espelho que mostra o que foi reprimido, o que ficou para depois, o que ensinaram a esconder. O desejo não se escolhe, ele simplesmente aparece. E, quando encontra espaço para ser vivido com afeto e escuta, pode ser uma das formas mais bonitas de liberdade. No fim das contas, só queremos ser acolhidos por quem a gente é. Quando isso acontece, mesmo que por instantes, é como se a alma respirasse”. Está vivendo o amor com alguém?

Estou em um momento bonito. Com o coração tranquilo, curioso, aberto. Tenho vivido o amor de formas diversas, sem pressa de encaixar tudo num formato só. Às vezes esse amor vem no silêncio de um café comigo mesmo, às vezes num abraço que demora, numa troca inesperada, numa conversa que acende alguma coisa dentro. Estou deixando o amor chegar como ele quiser, com leveza, sem mapa e sem roteiro – Rainer Cadete

"Tenho vivido o amor de formas diversas, sem pressa de encaixar tudo num formato só" (Foto: @linekerlenhard)

“Tenho vivido o amor de formas diversas, sem pressa de encaixar tudo num formato só” (Foto: @linekerlenhard)

Parceria baseada na escuta, respeito e afeto

Em ‘Olhares que Filtram’ , o ator compartilha as reflexões importantes. “Escrever esse livro com o Pietro foi também uma forma de olhar para minha própria posição no mundo com mais clareza. Sou um homem branco, e meu filho é um jovem negro crescendo em um país profundamente atravessado pelo racismo. Isso marca a nossa relação, porque existem experiências que ele vive e vai viver que nunca vou atravessar da mesma forma. E justamente por isso, o meu papel é escutar, acolher, me responsabilizar pelo que me cabe. Não existe fórmula. Existe presença, afeto, a escolha de estar junto mesmo quando não se tem todas as respostas. O mais desafiador é saber que o amor, por mais profundo que seja, não muda o olhar do mundo. E o que me cabe é buscar caminhos para que ele se sinta fortalecido, respeitado. Pietro é herdeiro de uma ancestralidade poderosa. Esse livro nasce também da consciência de que as nossas diferenças não são barreiras, mas pontos de partida. E que escutar, amar e caminhar junto pode ser uma forma potente de transformação”.

Rainer e Pietro Cadete escreveram juntos 'Olhares que Filtram' (Foto: @s_santoian)

Rainer e Pietro Cadete escreveram juntos ‘Olhares que Filtram’ (Foto: @s_santoian)

Rainer se enche de orgulho para falar do filho, que explora suas potencialidades em diferentes vertentes: estreou recentemente como ator na peça ‘Marighella – O Homem que Não Tinha Medo’, em cartaz em São Paulo; estuda gastronomia no Instituto de Artes Culinárias Le Cordon Bleu, faz estágio com Claude Troisgros e escreve. “Sou uma manteiga derretida quando o assunto é o Pietro. Desde cedo, nos primeiros textos da escola, já via ali uma sensibilidade rara. Sempre me perguntei se era só coisa de pai coruja, mas as professoras diziam o mesmo. A poesia do do meu filho sempre me tocou. Inspirados pela nossa editora, Janice, começamos a escrever juntos. Trocamos muito, ouvimos pessoas que admiramos, como Elisa Lucinda, Calila das Mercês, Jonathan Andrade… e quando percebemos, o nosso livro tinha ganhado corpo. Aprendi com Pietro a olhar o mundo com outros olhos. Ele me desafia, me emociona, me ensina. E escrever com ele foi mais uma dessas grandes lições”, declara-se.

Acho que o livro revela o quanto somos parceiros. Vai além da relação entre pai e filho. Mostra que nos escutamos, nos acolhemos e nos convidamos o tempo todo a crescer juntos. O público talvez não saiba o quanto aprendemos um com o outro – Rainer Cadete

"Pietro é herdeiro de uma ancestralidade poderosa. Esse livro nasce também da consciência de que as nossas diferenças não são barreiras, mas pontos de partida".(Foto: @s_santoian) (Foto: @s_santoian)

“Pietro é herdeiro de uma ancestralidade poderosa. Esse livro nasce também da consciência de que as nossas diferenças não são barreiras, mas pontos de partida”.(Foto: @s_santoian)

E conta que a liberdade com que vivencia se estende a criação e à comunicação com o filho. “Falar de sexualidade com o Pietro sempre foi algo natural. Nunca partiu de um lugar de obrigação, mas de escuta. Desde pequeno fiz questão de que ele soubesse que em casa ele podia falar sobre tudo, sem medo de ser julgado ou enquadrado. Hoje, com 18 anos, ele está atravessando esse momento de descobertas, de dúvidas, de afirmações, como qualquer jovem adulto. Não dou respostas prontas, abro caminhos, faço perguntas, troco experiências. E acima de tudo, tento ser coerente entre o que falo e o que vivo. A maior liberdade que eu posso oferecer pra ele não é sobre fazer o que quiser, mas sobre se sentir à vontade pra ser quem é, no tempo dele, do jeito dele. A sexualidade pra mim está muito ligada à liberdade de sentir, mas também ao cuidado, ao respeito e ao afeto. E é isso que eu tento passar. Não como regra, mas como base pra ele criar as próprias”.

Novela das seis

Quase uma década depois, o ator volta a interpretar Celso em ‘Êta mundo melhor!’, agora fazendo par com Larissa Manoela. “Voltar a fazer esse personagem é como reencontrar uma parte de mim, agora mais madura, provocadora, cheia de nuances. Ele vem carregado de desejo, contradição e humanidade. E encontrar a Larissa em cena tem sido um presente sonhado. A gente já se admirava muito, trocava mensagens querendo trabalhar juntos. E agora que isso aconteceu, está sendo ainda mais especial do que eu imaginava. Tem escuta, tem parceria, tem verdade. Nossos personagens vivem um jogo intenso entre paixão e ambição, onde o desejo se mistura com o risco. E acho que o público vai se reconhecer nesse lugar onde amar é também se arriscar. O Celso voltou diferente, e eu também”, avisa.

Larissa Manoela e Rainer Cadete fazem par romântico em ‘Êta mundo melhor!’ (Foto: Reprodução/Instagram)

Larissa Manoela e Rainer Cadete fazem par romântico em ‘Êta mundo melhor!’ (Foto: Reprodução/Instagram)

Você falou sobre essa mistura de desprezo, inveja e admiração silenciosa que seu personagem sente por Candinho (Sergio Guizé). E você, Rainer, como lida com sentimentos mais sombrios na vida, como a inveja, por exemplo?

A gente gosta de pensar que é imune a esses sentimentos, mas a verdade é que todos nós, em algum momento, nos deparamos com eles. A inveja muitas vezes nasce de um desejo reprimido, de algo que você queria viver ou conquistar e ainda não teve coragem ou oportunidade. Quando percebo isso em mim, tento não julgar. Observo. Escuto o que aquele sentimento está querendo me dizer. No meu trabalho, isso vira combustível. Já transformei sentimentos difíceis em criação, em personagem, em arte. Porque o palco, a câmera, a escrita, tudo isso também é lugar de elaboração – Rainer Cadete

E conclui: “O Celso sente inveja do Candinho, mas o que existe por trás disso é carência, é a sensação de estar à margem da felicidade do outro. Na vida real, tento fazer diferente. Tento me inspirar, aprender com o brilho do outro e seguir me construindo com verdade”.

Rainer Cadete é Celso em ‘Êta mundo melhor!’ (Foto: Manoella Mello/Globo)

Rainer Cadete é Celso em ‘Êta mundo melhor!’ (Foto: Manoella Mello/Globo)