*por Vítor Antunes
Vem ganhando corpo nas redes – e na crítica – a repercussão de “Guerreiros do Sol”, novela de George Moura exibida pela Globoplay e pelo canal Globoplay Novelas (antigo Viva), que mergulha no universo árido e contraditório do sertão brasileiro sem recorrer a suavizações ou romantizações. Com uma estética marcada pela crueza e um pulsar sanguíneo que o tema exige, a produção revira as camadas do cangaço com densidade e complexidade raras na teledramaturgia nacional.
Quem também se debruça sobre essa ambiguidade é o ator gaúcho Rafa Sieg, intérprete de Tatarana – um personagem bruto, de camadas espessas, que marca sua primeira grande aparição em uma novela. “O meu olhar sobre o cangaço, especificamente, ainda é um olhar estrangeiro, já que sou gaúcho. Mas o que penso sobre isso é que, de forma alguma, se pode romantizar a violência. Há milhões de filmes que retratam situações violentas, com personagens que estão lutando pela própria sobrevivência. E é disso, acima de tudo, que o cangaço trata: de uma forma de vida de pessoas em luta por sobrevivência”, reflete o ator.
Sieg continua: “É importante entender em que contexto essa violência acontece. Ela também é reflexo de outra violência. Isso acontece no sertão e nas grandes cidades. A violência, muitas vezes – ou na maioria das vezes – é reflexo de outras formas de exclusão, rejeição, ofensa. Então, não romantizo o cangaço, não romantizo a violência. Mas o cangaço não é só violência. O cangaço também é uma forma de vida. Acho que não existe uma linha reta sobre o que ele representa. E mesmo sem romantizar, acredito que é preciso olhar para essas histórias e encontrar os seres humanos que habitam esses relatos. A série mostra isso muito bem.”

Rafa Sieg é Tatarana em “Guerreiros do Sol” (Foto: Divulgação/Globo)
Apesar de já ter feito participações em novelas como “Pantanal “e “Viver a Vida”, foi com Tatarana que Rafa teve a chance de desenvolver um personagem com mais substância. “Essa é a minha primeira grande oportunidade em novelas, e é uma felicidade imensa ter recebido esse chamado, essa confiança do diretor, o Papinha [Rogério Gomes], mesmo eu não sendo do universo da TV. Há muita gente nova no elenco. Inclusive, havia pessoas cujo trabalho eu ainda não conhecia”, revela.
A série não romantiza o cangaço. Mas traz a história de um povo abandonado do interior do Brasil, do Sertão, que precisa lutar pela sobrevivência. Claro que, guardadas todas as devidas proporções, quando se vive nos extremos de um país tão grande como o Brasil, esse reflexo do abandono ainda existe hoje. Imagine, então há anos atrás – Rafa Sieg
Exibida em duas plataformas digitais que não têm a mesma penetração popular da televisão aberta, Guerreiros do Sol ainda tem seu sucesso em avaliação – ao menos nos moldes tradicionais. O próprio Rafa comenta essa mudança de paradigma: “É difícil mensurar. Mesmo quando há grande repercussão, a medição de audiência acaba se confundindo um pouco, porque não é mais feita em tempo real. Como é para você esse novo contexto em que a produção artística está inserida, no qual não temos as mesmas métricas de antigamente? Estamos entendendo, como você disse. É um contexto novo, e também estamos nos adaptando”.

Rafa Sieg aponta que “Guerreiros” não romantiza do cangaço (Foto: Divulgação/Globo)
A fala de Sieg ressoa como um retrato do momento atual da dramaturgia: um campo em mutação, onde a forma de consumir conteúdo altera também o impacto cultural das obras. “Eu cresci na frente da televisão, nos anos 90, vendo novela, vivendo como espectador todo o sucesso que ela representava. A repercussão era diária, algo que não conseguimos experimentar hoje. Claro que todos torcemos para que a novela chegue ao canal aberto, porque certamente milhões de pessoas irão assistir. E torcemos por isso, porque o conteúdo da novela é popular, e é importante que ele alcance a população, que chegue ao maior número possível de pessoas”.
Ainda assim, a recepção nas plataformas tem sido motivo de celebração. “É uma novela de altíssima qualidade, e o público está sedento por isso. Queremos que ela chegue. Mas também ficamos felizes por, mesmo no streaming, já existir toda essa repercussão. Isso é ótimo, inclsuive para a empresa. Estamos todos nos acostumando com essa nova forma de assistir. Tem gente que gosta de como os episódios são liberados em blocos semanais, cinco por vez. Não é aquele modelo de um episódio por semana. Cada um encontra sua forma de ver. Eu, por exemplo, às vezes assisto como se fosse novela mesmo – um capítulo por dia – para ir digerindo melhor. Estamos todos aprendendo, mas, sem dúvida, o desejo é que chegue o quanto antes à TV aberta, para ampliar a repercussão e entregar ainda mais esse produto de qualidade”.
Ao colocar o cangaço no centro da narrativa, a trama inevitavelmente convoca a figura de Virgulino Ferreira, o Lampião – morto em 1938, mas cuja imagem permanece viva no imaginário popular como símbolo de resistência, violência e lenda. Revisitado agora pela Globo, Lampião já foi retratado em diferentes tons ao longo da história: em Mandacaru (1997/1998), da Manchete; na clássica minissérie Lampião e Maria Bonita (1981); e até no carnaval de 2023, quando foi tema da Imperatriz Leopoldinense, campeã naquele ano com um enredo que escancarava suas contradições.

Rafa Sieg é gaúcho e um dos poucos atores de Guerreiros a não ser nordestino (Foto: Márcio Farias)
ENTRE AS ESTRUTURAS, OS ANDANTES E OS VIVENTES
Natural de Panambi, interior do Rio Grande do Sul, o ator Rafa Sieg vive um momento de inquietação artística. Aos 45 anos de idade e com 25 de carreira, ele mergulha de forma simultânea em dois projetos que, embora distintos em forma e linguagem, partem do mesmo impulso: revisitar sua terra natal – na geografia, na literatura e na sensibilidade.
Desde o fim de junho, Sieg está em plena filmagem de “Estrutura”, novo longa-metragem de Emiliano Cunha, diretor do premiado Raia 4, no qual assume um dos papéis centrais. O filme, financiado pela Lei Paulo Gustavo, integra a nova leva de produções brasileiras que ganham fôlego com a retomada do fomento ao audiovisual. “É um filme financiado pela Lei Paulo Gustavo, e muitos outros filmes no Brasil estão em fase de filmagem e realização neste momento. É muito bacana viver novamente esse momento de produção no audiovisual brasileiro. Esse projeto conta a história de um professor de arquitetura – meu personagem – que orienta uma aluna num projeto que será realizado por meio de uma parceria público-privada com uma empreiteira. O conflito se estabelece nas dificuldades da realização dessa reforma dentro de um prazo curto e, também, pelo fato de que minha presença, por mais bem-intencionada, acaba sendo conflituosa. Não sou da comunidade, e isso interfere no projeto dela. O filme reflete um pouco dos dilemas do nosso tempo – sobre como é importante respeitar as representatividades e os espaços. Isso é fundamental para a reconstrução da nossa sociedade, em todas as suas múltiplas camadas de respeito”.

Rafa Sieg é um dos protagonistas de “Estrutura” (Foto: Divulgação)
Aos 45 anos de idade e com 25 anos de carreira, o ator gaúcho Rafa Sieg atravessa uma fase de inquietação criativa. Após dar vida ao contundente Tatarana em Guerreiros do Sol, Sieg volta-se agora para um projeto de natureza íntima e literária: um espetáculo em homenagem ao conterrâneo Érico Verissimo (1905–1975), um dos mais importantes nomes da literatura brasileira.
Mais do que reverenciar o autor de O Tempo e o Vento, o ator busca, nesse movimento, uma reconexão com suas próprias raízes – um retorno simbólico à terra, à linguagem e à memória cultural do Rio Grande do Sul. “Quero falar de algo que me toque, que me atravesse, que me pertença também”, afirma. Foi em contato com “Solo de Clarineta”, autobiografia de Verissimo, que Rafa encontrou o ponto de partida dessa empreitada pessoal. “Encontrei isso em Érico, na autobiografia dele – Solo de Clarineta, que eu ainda não tinha lido – e nela descobri muitas coisas que diziam respeito a mim mesmo. Como é nascer, crescer, viver no interior, sair de lá e desenvolver um olhar mais imagético para a vida…”, conta ele.

“Descobri em Érico Veríssimo muitas coisas que diziam respeito a mim mesmo. Como é nascer, crescer, viver no interior, sair de lá e desenvolver um olhar mais imagético para a vida” (Foto: Divulgação)
Com emoção contida e admiração evidente, Sieg traça um paralelo entre sua trajetória e a do escritor: “Imagina: há cem anos, um cara decide que quer ser escritor – uma profissão que praticamente nem existia – chega a Porto Alegre e se torna um dos grandes nomes da literatura. A maneira como Érico chegou à escrita de O Tempo e o Vento não dá para resumir em poucas palavras, mas é curioso: ele não era alguém ligado à vida campeira, e mesmo assim escreveu a grande obra do povo gaúcho – O Continente, O Tempo e o Vento”.
Ao reconhecer em Érico Verissimo a capacidade de escavar o que há de mais profundo nas identidades locais, Sieg revela o desejo de, assim como o escritor, reexaminar imagens cristalizadas. “Ele não vinha desse universo, mas sentiu esse chamado de compreender quem são essas pessoas. Da mesma forma que falei sobre o cangaço: quem são essas figuras por trás da imagem que fazemos delas? A gente lê nos livros de história sobre os grandes heróis, o gaúcho, esse homem bravo, viril… mas não é só isso. Érico foi além: escavou uma infinidade de personagens humanizados e construiu uma obra monumental.”
Esse gesto – o de buscar o humano por trás dos mitos – é o que move o projeto do ator. “Isso me interessa. Como esse homem se sentiu impulsionado a fazer isso? Eu me identifico com esse impulso. Também venho redescobrindo, com o tempo, esse estado que é a minha origem, ressignificando o olhar sobre figuras que, muitas vezes, foram estereotipadas.”
Mais do que uma homenagem, o espetáculo surge como um ato de reconhecimento e pertencimento. “Então, isso me interessa – e é um projeto meu. Já estou ensaiando, e, se tudo der certo, a estreia acontece até o final deste ano, celebrando os 120 anos do nascimento de Érico. Fico muito feliz em homenageá-lo com esse espetáculo”.
Entre a poeira vermelha do sertão e o barro escuro das coxilhas gaúchas, Rafa Sieg caminha como quem escuta as vozes enterradas sob o chão – ora de cangaceiros em luta por sobrevivência, ora de personagens criados pela pena inquieta de Érico Verissimo. Há em sua jornada um desejo de escavar sentidos, de compreender o país pelas suas margens, de dar corpo e voz às histórias que ficaram à sombra dos grandes relatos. Não se trata apenas de atuar, mas de traduzir – com o corpo, com a palavra e com o tempo – o Brasil profundo, aquele feito de silêncio, contradição e resistência. Em tempos de ruído fácil e imagens rasas, Sieg opta pela escuta, pela travessia, pelo risco da densidade. E talvez seja nisso que reside a potência de sua arte: entre estruturas que ruem e memórias que persistem, ele se faz andante – e se oferece, inteiro, como um vivente entre mundos que ainda pedem para ser contados.
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