Quem “matou” Raquel?”. Protagonista de Vale Tudo “some” ou chega a aparecer por segundos em capítulo de novela


A provocação da comediante e atriz Dadá Coelho ao postar no X a frase “Quem matou Raquel?” expõe um problema central da nova versão de ‘Vale Tudo’: o apagamento da protagonista. À primeira vista, a pergunta pode soar absurda, afinal, a indagação clássica que norteia a novela “Vale Tudo” sempre foi “Quem matou Odete Roitman?” Mas, no capítulo 151, de 51 minutos, Raquel esteve em cena por pouco mais de 7 minutos. No anterior, o 150, não chegou a completar 1 minuto. Já no 149, apareceu por cerca de 5 minutos. No total, em quase três horas de novela, a personagem central da trama esteve no ar por menos de 15 minutos – um esvaziamento difícil de justificar numa obra em que o protagonismo deveria ser pulsante

Que "matou" Raquel?". Protagonista de Vale Tudo "some" ou chega a aparecer por segundos em capítulo de novela

*por Rodrigo Otávio

Na noite de ontem (23/9), a atriz, roterista, comediante Dadá Coelho — casada com o também ator Paulo Betti — lançou em suas redes sociais uma provocação que ecoa entre fãs e críticos de televisão: “Quem matou Raquel?”. À primeira vista, a pergunta pode soar absurda, afinal, a indagação clássica que norteia a novela “Vale Tudo” sempre foi “Quem matou Odete Roitman?”. Além disso, até o momento, tanto Odete (Débora Bloch) quanto Raquel (Taís Araújo) seguem vivas na trama. Mas Dadá não erra no diagnóstico: dramaturgicamente, a protagonista morreu há algum tempo.

Raquel, que deveria ser a espinha dorsal da narrativa, quase não aparece mais na novela que protagoniza. Os números falam por si: no capítulo 151, exibido em 22/09/2025, com 51 minutos de duração, a personagem surgiu apenas em dois momentos curtos — entre 42:47 e 46:35, e depois de 47:30 a 50:04 — somando pouco mais de sete minutos em cena. No capítulo anterior, o 150, sua presença foi ainda mais escassa: menos de um minuto, entre 38:52 e 39:32, num episódio também de quase 50 minutos. Já no capítulo 149, Raquel apareceu em três momentos (07:47–08:48; 35:49–37:09; 40:20–42:15), totalizando cerca de cinco minutos. Em outras palavras: em quase três horas de novela – considerando que cada capítulo tem cerca de 50 minutos-, a protagonista esteve em cena por menos de 15 minutos.

É natural que, em folhetins de longa duração e com múltiplos núcleos, os personagens se alternem no foco narrativo. Porém, o que se vê aqui é um apagamento. A ausência quase completa da protagonista não pode ser explicada como mero rodízio: é uma incoerência grave — mais uma — dentro da adaptação assinada por Manuela Dias e dirigida por Paulo Silvestrini. Uma incoerência que mina a força da história e desvaloriza a própria noção de protagonismo.

Raquel vivida por Taís Araujo em ‘Vale Tudo’ – Foto: Globo/Fábio Rocha

Enquanto Raquel desaparece, outros personagens ganham fôlego, e com mérito. Consuelo (Belize Pombal) desponta como um dos grandes achados da versão: carismática, intensa e cheia de nuances, a personagem se impõe através da candura à poderosa Odete Roitman, e ganha sua confiança. Sua presença funciona como contrapeso humano à vilania de Odete. Não deixa, contudo, de ser arriscado: a própria Odete, que já explicitou falas racistas, pode a qualquer momento acionar a conhecida cartada preconceituosa do “tenho amigos e funcionários negros” — expediente tão velho quanto atual na boca de quem quer se esquivar de acusações de racismo.

O fenômeno que hoje se repete em “Vale Tudo” já havia sido notado recentemente em “Garota do Momento, novela das 18h que terminou há poucos meses. Lá, a protagonista deixou de conduzir a narrativa e, em certos momentos, parecia quase coadjuvante, com menos tempo de tela do que personagens secundários. Aqui mesmo, no Site Heloisa Tolipan, em maio, levantamos essa discussão: personagens como Carlito (Caio Cabral), Ulisses (Ícaro Silva) e Glorinha (Mariana Sena) desapareceram das últimas semanas da trama das seis, deixando o público sem respostas para seus destinos e com arcos narrativos abruptamente interrompidos.

À época, ecoamos também a crítica contundente de um noveleiro nas redes sociais: “Apagaram o protagonista, apagaram a história gay, transformaram um marido abusador cafajeste em anjo da noite para o dia, transformaram a vilã em mocinha. É a derrota do momento.” Outros lamentavam: “Tanto personagem esquecido.”

Telespectadores de "Garota do Momento" criticam diminuição do tempo de tela de personagens pretos (Reprodução/TV Globo)

Telespectadores de “Garota do Momento” criticaram diminuição do tempo de tela de personagens pretos (Reprodução/TV Globo)

O debate, portanto, não é novo. E ele ganha ainda mais peso quando se trata da presença de personagens negros nas novelas. Por décadas, as telenovelas brasileiras foram marcadas pela ausência quase absoluta de protagonistas pretos ou de personagens com densidade dramática. Nos últimos cinco anos, porém, houve avanços importantes: protagonistas negros na faixa das sete, personagens com deficiência representados de forma mais naturalizada, e até na faixa das seis uma protagonista feminina negra. Há, sim, um esforço institucional da Globo em promover diversidade.

O problema é que diversidade sem narrativa é quase um gesto vazio. Não basta escalar, é preciso escrever. O que se observa em “Vale Tudo” é a mesma distorção já percebida em outras tramas: personagens que deveriam conduzir a história são deslocados para margens narrativas, sem desenvolvimento consistente. A queixa não é nova — em entrevista à Revista Quem, Taís Araújo admitiu estar insatisfeita com a trajetória de Raquel, sobretudo quando a personagem retornou à pobreza sem que houvesse densidade dramática nesse arco. O apagamento da protagonista, aos poucos, deixou de ser percepção do público e tornou-se consenso crítico.

A expectativa para esta nova versão de “Vale Tudo” era altíssima, e isso se deve ao peso da original. A trama de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères não apenas consagrou personagens, mas também redefiniu o papel do protagonismo na teledramaturgia. Manuela Dias e Paulo Silvestrini, ao tentar imprimir suas próprias assinaturas, acabaram esvaziando justamente o que havia de mais preciso na primeira versão: o brilho e a centralidade dos protagonistas, além da coerência narrativa que garantia a cada personagem uma trajetória orgânica.

Vale Tudo permanece como um dos títulos mais emblemáticos da história da TV brasileira. Mas sua adaptação atual parece esquecer um princípio elementar da dramaturgia: protagonista não é apenas nome no cartaz, é presença pulsante em cena. Quando isso se perde, a provocação de Dadá Coelho — “Quem matou Raquel?” — deixa de ser uma ironia espirituosa e se impõe como crítica certeira.