*por Vítor Antunes
Ela é um dos grandes nomes do teatro brasileiro. Pioneira entre as mulheres que ousaram produzir teatro, a desnudar-se, literalmente, como atriz, e teve seu nome fixado como uma das ‘certinhas do Lalau’ — ranking das mulheres mais bonitas da cena artística brasileira definida por Sérgio Porto (1923-1968), também conhecido como Stanislaw Ponte Preta. O concurso era conhecido por apresentar vedetes de renome, como Anilza Leoni (1933-2009) e Diana Morel (1935-1998), e ela própria, Maria Pompeu. Aposentada, mas ainda conectada com seu ofício, a atriz aponta: ‘Eu tenho 88 anos. Já me aposentei, não tenho mais projetos e não pretendo voltar a trabalhar como atriz. Atuei até os 83 anos e acredito que colaborei bastante com o teatro. Foram 65 anos de trabalho. Se ainda estivesse em atividade, estaria completando 70 anos de minha trajetória como atriz profissional’.”
No espelho do tempo, Maria reconhece que a velhice não chega de súbito — ela se insinua aos poucos. A juventude costuma nos fazer acreditar que tudo permanecerá como está. Mas não permanece. Daí, a atriz também aponta sobre o etarismo, que afasta as atrizes do palco. “Quando somos jovens, não pensamos que vamos envelhecer. Nem passa pela cabeça. Parece que, aos 30, chegamos a uma idade eterna. Mas, à medida que envelhecemos, percebemos que é um processo difícil, inclusive do ponto de vista profissional. Tirando Fernanda Montenegro, Nathália Timberg e Laura Cardoso, não há atrizes com 90 anos trabalhando. Aos 50 ou 60, já se começa a ser deixada de lado, o que é triste. Algumas atrizes que ainda poderiam estar atuando foram esquecidas”, lamenta.
Há uma serenidade em sua despedida dos palcos, apenas a grandeza da aceitação. Maria sobreviveu ao tempo, à dureza da lida, ao silêncio depois do aplauso. Hoje, quando olha para trás, enxerga não apenas memórias — vê uma existência inteira dedicada à arte. “No início, sentia muita falta, muita tristeza. Chorava, inclusive. Mas um dia tive uma espécie de iluminação e agradeci muito a Deus por tudo o que fiz. Tive muitos colegas que ficaram pelo caminho, que não suportaram a dureza da profissão. E eu consegui trabalhar durante 65 anos numa carreira tão difícil. Então, me conformei. Agradeci a Deus por tudo o que fiz. Quando lembro das coisas, é com saudade, sim, mas não com infelicidade — é com sentimento de realização”.
A memória, esse arquivo vivo do tempo, continua sendo celebrada por Maria — e agora pelo público, que reencontra suas novelas nas reexibições. “Essas novelas em que trabalhei estão voltando porque o público brasileiro adora novelas. É a principal diversão do grande público. Acho que as pessoas sentem saudade das novelas antigas, e muita gente se queixa das produções atuais. Achei ótimo quando disponibilizaram Pecado Capital no Globoplay, Cheias de Charme… Adorei me ver mais jovem. O Espigão também voltou recentemente. Era uma novela supermoderna para a época”.

Maria Pompeu na época de “certinha do Lalau” (Foto: Arquivo Nacional/Revista Manchete/Reprodução)
O tempo que hoje dedica é de contemplação — mas não de estagnação. A plateia mudou de lado: agora, Maria se senta entre o público, com olhos atentos, alma desperta e coração ainda apaixonado pelo ofício. “Tenho uma lista de espetáculos de teatro para assistir. Neste momento tenho 10 peças anotadas. Costumo ir ao teatro duas ou três vezes por semana. E vou acompanhada por uma cuidadora, porque sofri um acidente há um ano e meio. Operei o fêmur e a cirurgia não foi bem-sucedida. Por isso, ando com acompanhante, bengala e tenho uma cuidadora 24 horas por dia. No que diz respeito à minha saúde, está tudo bem, dentro do possível”.
No entanto, a televisão, meio pelo qual muitos a conheceram, nunca lhe seduziu. O encantamento, agora, está em outras formas de expressão — nos palcos, nas músicas, nas palavras ditas com arte e sentimento. “Na verdade, nunca assisti muita televisão. Várias novelas em que atuei, assisti apenas para ver o que estava fazendo. Minha televisão pode ficar desligada por meses, abandonada. Minha diversão noturna, quando não estou no WhatsApp, é o YouTube. É lá que assisto aos shows que gosto, como os da Alcione, ou às palestras da Academia Brasileira de Letras, todas as terças-feiras às 16h. Também vejo programas como Persona e Provoca, da TV Cultura, pela internet. De vez em quando ouço podcasts. Rádio, apesar de ter trabalhado com isso, ouço muito pouco”.

Maria Pompeu e Grande Otelo (Foto: Biblioteca Nacional/Revista Manchete/Reprodução)
E nem mesmo o rádio, onde sua voz encontrou um dos primeiros palcos, lhe desperta nostalgia ativa. Tudo o que foi, ela guarda com reverência — mas não com apego. “Quando entrei para a Rádio MEC, eu já fazia teatro. Estreei nos palcos em 1955 e só entrei na Rádio MEC em 1961, seis anos depois. Eu gostava muito, mas não era rádio-atriz; era repórter. Entrevistava muitos artistas clássicos, muitos escritores… Tinha um programa chamado Noturno, no qual entrevistei grandes nomes. O material da minha entrevista com Vinicius de Moraes (1913-1980), por exemplo, ainda hoje é uma raridade. Infelizmente, eu mesma não guardei.”
A atriz foi vista novamente em cena. À Sombra dos Laranjais voltou ao Globoplay. E não há muitos registros da trama: “Fiz uma participação muito pequena. Lembro de todos os meus trabalhos porque tenho um currículo extremamente detalhado — creio que poucas atrizes tenham um assim. Nele constam o dia, mês e ano de estreia de cada peça, o início da gravação de cada novela, tudo acompanhado de fotografias. Antigamente não se dava importância a isso, especialmente ao trabalho na televisão, que era considerado menor. Com o tempo, foi ganhando valor, mas no início não havia valorização da novela como produto. Por isso, não tenho reportagens sobre todas as peças que fiz — só das que consegui guardar”.

Maria Pomeu nas gravações de “Cheias de Charme”. Uma de suas últimas novelas (Foto: Divulgação/Globo)
MAIS QUE VEDETE
Pompeu às vezes é confundida com uma vedete de teatro de revista, o que nunca foi o caso. Ela é de outra geração, na qual as moças eram eleitas por sua beleza também, mas para o panteão das “certinhas do Lalau”. “As pessoas confundem muito. Preciso sempre explicar que há uma diferença. Nunca fui vedete de Walter Pinto, ou seja, do teatro de revista. Isso pertence a uma geração anterior à minha. Nunca trabalhei na Praça Tiradentes. Fui considerada uma ‘certinha’ porque fiz alguns shows de boate com Carlos Machado no México, em 1964. Inclusive, quando houve o golpe militar, eu estava no México, sem ter muita noção do que estava acontecendo. Eu estava viajando. Toda semana, ele escolhia, em sua coluna no jornal Última Hora, uma mulher que considerava bonita — não necessariamente do teatro — podia ser atriz de cinema, teatro. Ele escolhia uma por semana e estampava a foto daquela ‘certinha do Lalau’ na coluna. No fim do ano, saía uma edição da revista Fotos e Fotos, na qual ele revelava, em grande segredo, as 10 mais certinhas do ano, entre as 52 selecionadas durante o ano. Em 1963, fui uma das 10 mais certinhas.”
Ser uma certinha do Lalau não me rendeu nem um centavo. Não éramos pagas para fazer as fotos. Era uma espécie de gentileza dos jornalistas, uma forma de divulgação. Quando estava com uma peça em cartaz, por exemplo, eu ligava para o Lalau e dizia: ‘Vê se faz uma semana comigo, estou com tal peça em cartaz’. E até hoje encontro pessoas que dizem: ‘Eu me lembro, você foi certinha do Lalau’. Foi algo que marcou muito. Acho que fiz outras coisas mais importantes na vida, mas essa ficou como uma marca ligada ao meu nome – Maria Pompeu

Maria Pompeu: Ícone da beleza nos Anos 1960 (Foto: Biblioteca Nacional/Revista Manchete/reprodução)
Hoje, ela fala não apenas como atriz, mas como sobrevivente de um tempo em que as amizades se sustentavam por ligações inesperadas e visitas marcadas no calor da hora. Agora, o que antes era presença virou ausência digital. Não há mais recados na secretária eletrônica; há um vazio moderno, preenchido por mensagens que não chegam. “Muitas das pessoas já se foram. E, hoje em dia, com o WhatsApp, ficou ainda mais difícil, porque praticamente ninguém mais se fala. É tudo por mensagem. Antigamente, eu chegava em casa, olhava a secretária eletrônica e tinha 15 recados. Agora, passam-se semanas sem que ninguém telefone. Ninguém deixa mensagem. Sempre olho e não tem nada. As pessoas não se conversam mais, não se encontram. É muito raro. Acho que os jovens ainda têm esse hábito de se encontrar, de marcar coisas. Mas entre os mais velhos, não. As amizades foram se perdendo”.
Mesmo sem saudosismo excessivo, Maria estabelece uma comparação entre as gerações que passaram e aquelas que hoje ocupam os palcos. Não se trata de nostalgia, mas de observação — de uma diferença de entrega, de disciplina, de respeito ao rito do ofício. O passado não era idealizado, mas era, segundo ela, mais comprometido com a essência do teatro. “Acho que os atores de hoje são muito diferentes dos antigos. Os de antigamente tinham uma dedicação imensa. Chegávamos ao teatro com duas horas de antecedência para nos concentrar, nos preparar. Hoje, quando vou assistir a uma peça, vejo o ator entrando ao mesmo tempo que o público. Não vejo a mesma dedicação. Nem todas as peças atuais me agradam. Gosto de peças com começo, meio e fim. Hoje se faz muita coisa que não diz nada. Assistimos à peça inteira e não sabemos do que se tratava. Isso não quer dizer que, no passado, tudo fosse melhor. Por exemplo, Dulcina de Moraes (1908-1996) era mais afetada. Já Cacilda Becker (1921-1969), de quem eu gostava mais, era diferente”.

Maria Pompeu e Antonio Calloni em “O Astro” (Foto: Divulgação/Globo)
E se os encontros rareiam, e os palcos já não são seu território cotidiano, ainda assim Maria permanece profundamente ligada à palavra — essa matéria-prima da sua vida. Carrega na memória fragmentos de textos como quem guarda relíquias, como quem tem a alma moldada pelo verbo. “Tenho cerca de três horas de textos literários decorados. Participei de um grupo de contadores de histórias — mas era voltado para adultos, não para crianças. Textos de vários autores, mas há um da Cecília Meireles (1901-1964) que é o meu norte: ‘Aprendi com as primaveras a me deixar cortar e voltar sempre inteira’”.
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