Por onde anda Betty Erthal? Atriz está ausente das novelas e desabafa: ‘Não tive oportunidades de grandes papéis’


A atriz critica a escassez de bons papéis para atores maduros na teledramaturgia. Diz que hoje é ignorada por não ter muitos seguidores e questiona convites feitos apenas pelo cachê. Sem ressentimentos, prefere o teatro, onde valoriza o processo criativo e a possibilidade de desenvolver personagens com profundidade. Em cartaz com “Aluga-se um namorado”, destaca que a peça aborda conflitos familiares ainda atuais. Morando em um sítio perto de Petrópolis, leva vida com prazer e continua em cena. Para ela, mais importante que o tamanho do papel é a verdade artística que ele permite alcançar

*por Vítor Antunes

Há anos se discute o papel e o lugar do ator maduro na teledramaturgia brasileira. De tempos em tempos, surgem iniciativas que prometem ampliar o espaço e diversificar as narrativas, mas a prática costuma ser menos generosa do que o discurso. Betty Erthal conhece bem essa engrenagem. Longe das novelas há anos, ela teve sua última personagem fixa em “Poder Paralelo” (2009), na Record, onde viveu Damiana. “Na televisão eu tive poucas oportunidades de bons personagens. Eu atuei em ‘Kananga do Japão’ (1989, TV Manchete), com uma personagem bacana, a Elise ‘Sabo’ Ewert, uma jovem militante comunista revolucionária, de nacionalidade alemã e descendência judaico-polonesa, que era segurança do Luís Carlos Prestes (1898-1990), assim como a Araci, de ‘O Dono do Mundo’ (1991, TV Globo). Eu cheguei a pensar em uma personagem que me gratificasse tanto quanto a Sabo ou quanto a Araci. Mas eu sinto falta de uma personagem bacana para chamar de minha. Eu não tive muitas oportunidades de ter grandes papéis”.

Há muito tempo não faço televisão, eles me ignoram totalmente. Me disseram até que hoje em dia quem tem muitos seguidores é chamados para fazer novela. Eu realmente não tenho muitos seguidores, nem me interessa ter. O teatro vai ter sempre um lugar para uma pessoa idosa. E eu não quero um grande papel. Eu quero um personagem que eu possa desenvolver, que eu possa criar. Na televisão, nos últimos trabalhos que fiz, eram papéis que que não tinham vida. Serviam apenas para abrir a porta e falar: “Boa noite, barão”. Personagens muito pequenos. Há quem diga: “Faça para ganhar o cachê”. Mas isso vale a pena? – Betty Erthal

Betty Erthal atuou em Kananga do Japão, da Manchete (Foto: Reprodução/TV Manchete/Recuperada e tratada com iA)

Betty não cultiva ressentimentos. Cultiva escolhas. E a televisão, hoje, não é uma delas. “Televisão realmente não me interessa muito fazer mais, porque não me oferecem papéis aos quais eu poderia me dedicar mais, estudar, me identificar com os personagens e dar continuidade a eles. O teatro é diferente. Eu gosto muito de teatro”. Ao falar do palco, sua voz ganha outra temperatura. “Eu gosto de todo o processo, desde a leitura, quando a gente fica uma semana discutindo o texto, o que está escrito, o que não está, o que está nas entrelinhas, o subtexto. E eu gosto desse processo todo, de ensaiar, ensaiar, ensaiar.” A repetição, no caso, não é vício de linguagem, mas método. O teatro, para ela, é oficina e laboratório, um espaço onde o ator não apenas executa, mas constrói.

Longe do centro urbano, vivendo em um sítio nas cercanias de Petrópolis, na Região Serrana, Betty mantém-se em movimento. Está em cartaz com “Aluga-se um namorado”, ao lado de Eri Johnson, Raymundo de Souza, Juliana Knust e grande elenco. “A peça é um processo. Ela fala de coisas que as pessoas entendem. Entre elas, essa questão de família, do que se segue, do que se diz e do que não se diz. É um clássico muito interessante de ser feito”.

Betty Erthal está desde 2009 sem fazer novelas (Foto: reprodução/foto tratada e recuperada por iA)

A comédia parte de uma premissa provocadora: uma judia contrata alguém para se passar por judeu e, assim, convencer a família religiosa a aceitar um relacionamento misto. Para Betty, o tema religioso não é tratado como trincheira. “Não fazemos nenhum aprofundamento sobre dogmas, mas sim na autocobrança da personagem da Juliana Knust, que acha que tem que fazer a vontade dos pais. A personagem fica sempre presa à vontade dos pais. Então, isso ainda é um assunto atual. Há muitas pessoas que não são autênticas para não magoar os pais. Muitas pessoas não conseguem ser o que realmente são por se sentirem pressionadas pela família.”

DONA DO MUNDO, DONA DE SI

Em 1991, Betty viveu um dos papéis mais emblemáticos de sua trajetória: Araci, em “O Dono do Mundo”. A personagem surgiu discreta, empregada de Olga Portela, vivida por Fernanda Montenegro, mas cresceu em cena e ganhou densidade ao longo da trama. Parte desse crescimento se deveu à química entre as duas atrizes, construída fora e dentro do set. “Eu trabalhei muito com a Fernanda. Eu fiz ‘É’, com ela no teatro, depois fiz ‘Fedra’ e, em ‘O Dono do Mundo’, já tínhamos muita sintonia, uma conexão de amizade, uma ligação boa.”

Betty Erthal está em montagem com Eri Johnson (Foto: Divulgação/Tratada e recuperada por iA)

Ainda em cartaz, Betty reivindica para si uma palavra pouco usual no meio artístico: aposentada. E o faz sem drama. “Eu estou aposentada. Agora estou com a peça, mas eu tenho tanta coisa para ver, tanta coisa que eu quero ler, tantos sites que eu quero visitar, tanto noticiário… Tenho aquilo que necessito: uma vida financeira modesta, o que eu preciso para as minhas viagens, para os meus filhos, para sair com os meus amigos, para ir ao teatro. Estou bem sem projetos. Fico cuidando um pouco lá do meu matinho,  no meu cantinho, de encontrar os amigos, de encontrar a família. Eu estou bem desacelerada. Entendi de ser verdadeira artisticamente. Mas eu sou uma pessoa que também fico entusiasmada se me provocam, eu aceito. Isto basta.”

A atriz parece ter resolvido a equação que ainda desafia a teledramaturgia: não se mede uma carreira pelo tamanho do papel, mas pela medida da verdade que ele comporta. Se a televisão prefere contar seguidores, ela prefere contar ensaios, leituras, viagens e conversas demoradas. Entre abrir portas cenográficas e cultivar o próprio jardim, escolheu o segundo gesto. Tornou-se dona do próprio tempo. E, num meio movido a urgências, talvez esse seja o papel mais raro de todos.