Polêmica: Dos remakes feitos pela Globo, os de novelas originais de outras emissoras são os que fazem sucesso. Entenda!


A partir da década de 1980, a TV Globo passou a investir em remakes de novelas, prática que se intensificou nos anos 2010 e ganhou força após o sucesso de Pantanal (2022). A autora que mais assinou remakes na emissora foi Ivani Ribeiro, cuja única novela inédita na Globo foi ‘Final Feliz’ (1982); todas as demais foram adaptações de suas obras anteriores, muitas originalmente exibidas na Tupi. Entre 1980 e 2025, a Globo realizou 30 remakes de novelas de cinco emissoras distintas. A Tupi teve nove novelas readaptadas, com alto índice de sucesso (66,7%), superando proporcionalmente a própria Globo, que teve 13 títulos refeitos, mas apenas 53,8% deles considerados bem-sucedidos. A Globo também lidera em fracassos, com quatro produções malsucedidas. Curiosamente, novelas não originadas pela emissora costumam render melhores remakes

*por Rodrigo Otávio

Desde a década de 1980, a TV Globo passou a investir pontualmente em remakes de suas novelas e de obras originalmente exibidas por outras emissoras. No entanto, esse movimento se intensificou significativamente a partir dos anos 2010, culminando com o enorme êxito da nova versão de “Pantanal” (2022), que reatualizou o clássico da TV Manchete com sofisticação técnica e apelo contemporâneo.

Entre os nomes mais associados a essa prática está Ivani Ribeiro (1922-1995), uma das autoras mais prolíficas da teledramaturgia nacional. Curiosamente, Ivani escreveu apenas uma novela inédita para a Globo — “Final Feliz” (1982), que permanece há 40 anos fora das reprises. Seus demais trabalhos na emissora foram remakes ou adaptações de suas próprias novelas anteriores, muitas exibidas originalmente por emissoras já extintas, como a TV Tupi e a Excelsior.

Um dado chama atenção ao se analisar o desempenho dessas produções: os remakes que obtiveram maior sucesso não foram, em sua maioria, originados na própria Globo. Pelo contrário, foram obras adaptadas de outras emissoras — notadamente a Tupi — que se concentram os maiores acertos. A emissora, que lidera numericamente a lista de auto-remakes com 13 títulos, também acumula o maior número de fracassos absolutos, com quatro novelas mal recebidas pelo público.

Das 30 novelas readaptadas pela Globo entre 1980 e 2025, mais de 40% tiveram como origem a própria emissora. No entanto, apenas pouco mais da metade dessas adaptações atingiram o êxito esperado. Já a Tupi, que responde por 30% dos títulos, obteve um índice de sucesso de 66,7%. A única novela adaptada da Manchete — “Pantanal” — foi um sucesso incontestável, mas representa um desvio estatístico por ser um caso isolado.

Esses números reforçam uma conclusão instigante: ao olhar para o passado em busca de tramas para recontar, a Globo encontra seus melhores resultados justamente nas obras alheias — talvez por oferecerem ao público o fascínio da redescoberta e o frescor da novidade, ainda que com DNA clássico.

Paulo Gracindo, Claudio Correa e Castro e Ary Fontoura eram os protagonistas de “Hipertensão” (Foto: Nelson di Rago/Globo)

Na década de 1980, por exemplo, a Globo reapresentou algumas das principais criações de Ivani sob nova roupagem: “Amor com Amor se Paga” (1984), inspirada em “Camomila e Bem-Me-Quer” (Tupi, 1972–1973); “A Gata Comeu” (1985), remake de “A Barba Azul” (Tupi, 1974–1975); “Hipertensão” (1986–1987), baseada em “Nossa Filha Gabriela” (Tupi, 1971–1972); e “O Sexo dos Anjos” (1989–1990), releitura de “O Terceiro Pecado” (Excelsior, 1968). No mesmo período, “Selva de Pedra” (1986), de Janete Clair, também foi recriada, mantendo o prestígio do texto original de 1972.

Nos anos 1990, outras refilmagens ganharam destaque. “Lua Cheia de Amor” (1990) foi uma nova versão de “Dona Xepa” (1977), originalmente escrita por Gilberto Braga (1945-2021). “Mulheres de Areia” (1993) atualizou a novela homônima da Tupi, com adição de elementos de “O Espantalho” (1977). “A Viagem” (1994) também foi repaginada com grande êxito, assim como “Anjo Mau” (1997), de Cassiano Gabus Mendes (1929-1993). Já “Irmãos Coragem” (1995) e “Pecado Capital” (1998), apesar de seus nomes de peso, não repetiram o mesmo impacto.

Durante os anos 2000, o autor Walcyr Carrasco estreou no universo dos remakes com “O Cravo e a Rosa” (2000), livremente inspirado em “O Machão” (Tupi, 1974), que por sua vez era uma adaptação de A Megera Domada, de Shakespeare. No mesmo período, a Globo regravou títulos como “Cabocla” (2004), “Sinhá Moça” (2006), “O Profeta” (2006), “Paraíso” (2009) e “Ciranda de Pedra” (2008). Em 2010, “Ti Ti Ti” ganhou nova vida sob a batuta de Maria Adelaide Amaral, mesclando tramas de diferentes versões.

O elenco jovem de Elas por Elas (Foto: Divulgação/Globo)

A tendência continuou forte na década seguinte, com releituras como “Gabriela” (2012), “Saramandaia” (2013), “O Rebu” (2014), “Haja Coração” (2016) — versão modernizada de “Sassaricando” — e “Éramos Seis” (2019), que trazia elementos das versões da Tupi e do SBT. A novela “Sonho Meu” (1993), por sua vez, era inspirada em duas tramas antigas: “A Pequena Órfã”, da Excelsior, e “Ídolo de Pano”, da Tupi.

Nos anos 2020, a Globo deu continuidade a essa tendência com novas versões de “Pantanal” (2022), “Elas por Elas” (2023), “Renascer” (2024) e a anunciada refilmagem de “Vale Tudo” (prevista para 2025).

Juma (Alanis Guillen), a protagonista de “Pantanal” (Foto: Divulgação/Globo)

Porcentagem sobre 30 remakes realizados pela Globo entre 1980 e 2025 (Lista baseada nos títulos já listados nesta reportagem) :
Total de emissoras com obras refilmadas: 5 emissoras distintas

  • TV Globo: 13/30 = 43,3%

  • TV Tupi: 9/30 = 30%

  • TV Excelsior: 1/30 = 3,3%

  • TV Manchete: 1/30 = 3,3%

  • SBT: 1/30 = 3,3%

 

Emissora autora da obra original com maior percentual de sucessos:

  • Manchete (100%, com 1 novela) – Desvio padrão, já que apenas uma novela da Manchete foi refeita pela Globo

  • Seguido por Tupi (66,7%, com 6 de 9)

  • E Globo (53,8%, com 7 de 13)

  • Emissora com mais fracassos absolutos:

    • TV Globo (4 fracassos, ou 30,8%)

Total de emissoras com obras refilmadas: 5 emissoras distintas
Porcentagem sobre 30 remakes:

  • TV Globo: 13/30 = 43,3%

  • TV Tupi: 9/30 = 30%

  • TV Excelsior: 1/30 = 3,3%

  • TV Manchete: 1/30 = 3,3%

  • SBT: 1/30 = 3,3%

Lista que pautou a análise:

TV Tupi

  1. Amor com Amor se Paga (1984) – baseada em Camomila e Bem-Me-Quer (1972–1973)SUCESSO

  2. A Gata Comeu (1985) – remake de A Barba Azul (1974–1975)SUCESSO

  3. Hipertensão (1986–1987) – inspirada em Nossa Filha Gabriela (1971–1972)SUCESSO RELATIVO

  4. Mulheres de Areia (1993) – baseada em Mulheres de Areia (1973–1974)SUCESSO

  5. A Viagem (1994) – baseada em A Viagem (1975–1976)SUCESSO

  6. O Cravo e a Rosa (2000) – inspirado em O Machão (1974)SUCESSO

  7. O Profeta (2006) – baseado em O Profeta (1977)SUCESSO

  8. Éramos Seis (2019) – parcialmente baseado na versão da Tupi – SUCESSO RELATIVO

  9. Sonho Meu (1993) – inspirada em A Pequena Órfã / Ídolo de PanoSUCESSO

TV Globo

  1. Selva de Pedra (1986) – original de Selva de Pedra (1972)FRACASSO

  2. Lua Cheia de Amor (1990) – nova versão de Dona Xepa (1977)FRACASSO

  3. Irmãos Coragem (1995) – baseada em Irmãos Coragem (1970)FRACASSO

  4. Anjo Mau (1997) – baseada em Anjo Mau (1976)SUCESSO

  5. Pecado Capital (1998) – baseada em Pecado Capital (1975–1976)FRACASSO

  6. Ti Ti Ti (2010) – baseada em Ti Ti Ti (1985)SUCESSO

  7. Cabocla (2004) – baseada em Cabocla (1979)SUCESSO

  8. Sinhá Moça (2006) – baseada em Sinhá Moça (1986)SUCESSO

  9. Paraíso (2009) – baseada em Paraíso (1982)SUCESSO

  10. Ciranda de Pedra (2008) – baseada em Ciranda de Pedra (1981)FRACASSO

  11. Guerra dos Sexos (2013) – baseada em Guerra dos Sexos (1983–1984)FRACASSO

  12. Gabriela (2012) – baseada em Gabriela (1975)SUCESSO

  13. Saramandaia (2013) – baseada em Saramandaia (1976)FRACASSO

  14. O Rebu (2014) – baseada em O Rebu (1974)SUCESSO RELATIVO

  15. Haja Coração (2016) – baseada em Sassaricando (1987–1988)SUCESSO

  16. Elas por Elas (2023) – baseada em Elas por Elas (1982)FRACASSO

  17. Renascer (2024) – baseada em Renascer (1993)SUCESSO RELATIVO

  18. Vale Tudo (2025) – baseada em Vale Tudo (1988) – EM CURSO

TV Excelsior

  1. O Sexo dos Anjos (1989–1990) – baseada em O Terceiro Pecado (1968)SUCESSO RELATIVO

SBT

  1. Éramos Seis (2019) – também baseado na versão do SBT (1994)SUCESSO RELATIVO

TV Manchete

  1. Pantanal (2022) – baseado em Pantanal (1990)SUCESSO