*por Vítor Antunes
Uma das emissoras mais importantes da história da televisão brasileira, a TV Excelsior encerrou suas atividades em 1970. Fundada 10 anos antes, ela foi considerada uma das mais modernas emissoras da época, investindo pesadamente em infraestrutura, tecnologia de ponta — com o uso de videotapes em quadruplex — e em um elenco estrelado. Vale lembrar que a Excelsior foi a primeira a exibir telenovelas diárias no país e revelou talentos como Regina Duarte, Stênio Garcia e Elis Regina (1945-1982) – a cantora venceu, com “Arrastão“, o festival da Excelsior, em 1965. Diferentemente da Rede Manchete, por exemplo, que encerrou suas atividades apenas em 1999 e já apresentava uma noção mais clara de preservação de acervo, a Excelsior teve seu fim durante a ditadura militar, em um momento em que fazer televisão era ainda mais caro e complexo. Além disso, o próprio pensamento de preservação de conteúdo audiovisual não era uma prática comum entre as emissoras brasileiras. Incêndios nos arquivos eram recorrentes — Globo, Record, Bandeirantes e Tupi também enfrentaram perdas por esse motivo. Nesse contexto, grande parte do acervo da Excelsior se perdeu ou permaneceu guardado em local incerto.
O pesquisador Gabriel Yudenich, de 24 anos, morador de Curitiba, trouxe informações mais concretas sobre o atual estado das fitas remanescentes da emissora. Ele confirmou o que há muito se suspeitava: o conteúdo está fragmentado e disperso. “Quando a TV Excelsior chegou ao fim, o acervo dela passou por uma curadoria feita por uma única pessoa, que depois acabou dividindo esse material entre três emissoras. Uma parte está com a TV Cultura, outra com a TV Gazeta (SP) e outra com a TV Globo. A partir daí, tive acesso a esse conteúdo”, explica Gabriel — que, vale destacar, não possui vínculo com nenhuma dessas emissoras.

Logo da novela “Dez Vidas”, última da Excelsior. Pesquisador tem dois capítulos da trama de Ivani Ribeiro (Foto: Reprodução/TV Excelsior/Acervo Gabriel Yudenich)
No último fim de semana, seu canal no YouTube publicou com exclusividade um capítulo da novela “A Muralha”, escrita por Ivani Ribeiro (1922-1995) e exibida originalmente pela Excelsior em 1968. Trata-se do capítulo 130, proveniente do tape original. E esse não é o único material em sua posse: Gabriel também revelou ter o capítulo 129 da mesma novela e ao menos dois episódios de Dez Vidas — os capítulos 119 e 120 —, última telenovela produzida pela emissora antes de sua falência. Ambas as obras são de autoria de Ivani Ribeiro. No início dos Anos 2000, “A Muralha” ganhou uma nova versão, na forma de minissérie, atualizada por Maria Adelaide Amaral. Entre outros materiais resgatados da Excelsior, há ainda a cobertura de uma festa em homenagem a Piracicaba, no programa “Clube do Vovô“.
“A Muralha” destacou-se como uma das primeiras grandes produções da televisão brasileira e um trabalho marcante da TV Excelsior. O projeto teve um orçamento inicial estimado em 200 milhões de cruzeiros mensais — um valor extremamente elevado para os padrões televisivos da época —, e tudo indica que os custos aumentaram à medida que a novela ganhava proporções maiores, segundo conta o Site Teledramaturgia.
De acordo com o Teledramaturgia, “Dez Vidas” enfrentou uma trajetória conturbada. A crise financeira enfrentada pela TV Excelsior levou a um encerramento apressado da trama. Mesmo ainda sendo exibida, a produção evidenciava o momento difícil da emissora: os atores deixavam o elenco, seja por migrarem para outras redes ou pelo não pagamento de salários. Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006) relatou os bastidores dessa fase crítica no livro “Glória in Excelsior” (organizado por Álvaro de Moya): “A gente já estava em crise absoluta, não tinha dinheiro para nada. Nós fizemos uma parada militar com dez pessoas, focando os pés. Os atores corriam por trás da câmera e entravam de novo na fila e a câmera continuava apenas mostrando os pés. Depois fazia alguns closes de rostos, evitando planos gerais e dando a ideia de muitos soldados.”
O ator Peirão de Castro (1930-1989) também revelou que, em função da falta de pagamento, os colegas foram deixando a produção, até que restaram apenas cinco nomes no elenco: Carlos Zara (no papel de Tiradentes) [1930-2002], Fábio Cardoso (1932-2010), Gianfrancesco Guarnieri, Oswaldo Mesquita e o próprio Peirão, que interpretava um carcereiro.
A Excelsior foi pioneira no formato de novelas diárias e responsável por diversos marcos que moldaram a televisão brasileira. Também se destacou como a primeira emissora a funcionar, de fato, como uma rede nacional — conceito que só se consolidaria plenamente anos depois, em 1969, com o surgimento do Jornal Nacional, na Globo. Ainda em 1962, a Excelsior fez transmissões experimentais a cores — inovação que só se tornaria realidade oficialmente em 1972.

Logo de “A Muralha”, novela exibida pela Excelsior (Foto: Reprodução/TV Excelsior/Acervo Gabril Yudenich)
Não há só fitas da Excelsior
O interesse de Gabriel Yudenich não se restringe à Excelsior. Seu acervo pessoal inclui raridades de outras emissoras extintas ou com arquivos incompletos, como a TV Tupi, a própria Manchete e a Band. Entre os destaques, estão teleteatros estrelados por Cacilda Becker (1921–1969), na Bandeirantes, um dos maiores nomes da história do teatro brasileiro e figura bissexta na televisão.

Claquete de “Dez Vidas”. Novela era um patrocínio da Kolynos, uma pasta de dente extinta (Foto: Reprodução/TV Excelsior/Acervo Gabriel Yudenich)
Com relação à TV Globo, o pesquisador também fez descobertas surpreendentes. Um exemplo é a novela “Meu Pedacinho de Chão”, de 1971. Enquanto a própria Globo preserva apenas um capítulo em seu acervo oficial, Gabriel possui ao menos sete episódios, incluindo o primeiro e o último, de número 185, cuja claquete está abaixo ilustrada. A reportagem teve acesso ao primeiro capítulo na íntegra — importante destacar que o episódio que circula pela internet, com quase 28 minutos de duração, está incompleto.
O acervo de Gabriel inclui materiais anteriores a 1971, especialmente programas musicais e trechos pontuais de novelas que, segundo registros da própria Globo, estariam perdidos. Em entrevista inédita concedida ao site Heloisa Tolipan, em 2022, o então diretor de Produtos Digitais e Canais Pagos do Globoplay, Erick Brêtas, afirmou: “A Globo não tem catalogado no acervo nada das novelas dos anos 1960” e que “sua novela mais antiga guardada é Irmãos Coragem (1970)”. No entanto, embora não tenha fornecido detalhes, Gabriel disse ter algum pouco material dessa época consigo. Ele também admitiu que pode haver registros na própria emissora que não foram devidamente catalogados.

Claquete do último capítulo de “Meu Pedacinho de Chão” (Foto: Reprodução/TV Globo/Acervo Gabriel Yudenich)
Essa ausência de catalogação afeta também outras emissoras. “Na TV Record, por exemplo, ainda existem kinescope antigos de novelas dos anos 1960, que estão fora do acervo principal da emissora. Um deles, inclusive, conta com a participação de Cacilda Becker. Eu tenho esse material de forma parcial”, relata Gabriel. Por kinescope se entende como sendo uma gravação da tela da TV. Como eram ao vivo as produções, gravava-se o que a TV estava transmitindo. Essa ferramenta foi usada de forma experimental, pela Record.
Segundo Gabriel, muito do material encontrado das novelas estava armazenado de forma fragmentada, em blocos. As novelas da Excelsior, por exemplo, foram gravadas em formato quadruplex, tecnologia usada na época. Já outras obras, como “Meu Pedacinho de Chão”, foram armazenadas em película cinematográfica. Parte desse acervo, especialmente o da Excelsior, também foi liberado com exclusividade para o Site Heloisa Tolipan. Gabriel afirma que novos materiais da Excelsior poderão ser disponibilizados no YouTube em breve. Os da Globo, por questão de direito patrimonial da emissora, não serão publicados.

Gianfrancesco Guarnieri e Nathalia Timberg em “A Muralha” (Foto: Reprodução/TV Excelsior/Acervo Gabriel Yudenich)
Tudo que envolve telenovela, principalmente, é tratado com muito descaso. As próprias emissoras não demonstram real interesse em resgatar ou preservar esse material. Acredito que retransmissoras e afiliadas regionais possam guardar cópias de obras consideradas perdidas – Gabriel Yudenich
Gabriel afirma que sua paixão pela pesquisa começou cedo: “Sou pesquisador há muito tempo. Recentemente, trabalhei em um minidocumentário sobre Grande Otelo (1915-1993). Mas minhas pesquisas sempre tiveram uma veia musical, especialmente voltadas para Carmen Miranda (1909-1955). São cerca de dez anos pesquisando sobre ela, desde que eu era criança”.
Importância da Excelsior e do material localizado
A Excelsior foi a criadora do toque de cinco segundos, vinheta sonora que anunciava a próxima atração, e que sinalizava a entrada em rede. A ela coube o pioneirismo do uso de mascotes em vinhetas — como as animações Ritinha e Paulinho, duas crianças que se tornaram ícones da marca. Além do investimento pesado em shows musicais, como o Times Square e as já citadas novelas, quando a Globo ainda era uma TV incipiente.
Com a intensificação do regime militar e dificuldades financeiras crescentes, a emissora enfrentou censura, perseguição e dívidas. Em 1970, um incêndio agravou a crise. Aproveitando-se da situação, o governo cassou a concessão da emissora, que deixou de funcionar oficialmente às 17h56 do dia 30 de setembro daquele ano.
O fim da emissora foi dramático: o apresentador Ferreira Neto interrompeu a transmissão do programa humorístico “Adélia e Suas Trapalhadas” para anunciar, ao vivo, que o governo havia decretado o fechamento da Excelsior. O Ministério das Comunicações estabeleceu um prazo até 15 de dezembro para a quitação de, ao menos, 50% das dívidas. Quando o prazo terminou, menos de 1% havia sido pago — decretando o fim definitivo de uma das maiores emissoras da história da televisão brasileira. Anos mais tarde, o canal que abrigava a Excelsior do Rio deu vez à TV Educativa (TVE) – atual TV Brasil. E a Excelsior de São Paulo deu vez à Rede Manchete, atual Rede TV. Os antigos estúdios da emissora foram ocupados pela TVS/SBT, mais tarde vendidos, e hoje abrigam uma igreja evangélica.

Fachada da TV Excelsior, em São Paulo (Foto: Reprodução)
O trabalho de Gabriel Yudenich, ao resgatar e preservar preciosidades esquecidas da televisão brasileira, vai além da curiosidade de colecionador: ele atua como um verdadeiro guardião da memória audiovisual do país. Em um cenário marcado por perdas irreparáveis e desinteresse institucional, seu esforço preenche lacunas da história, devolvendo ao público fragmentos de uma era pioneira da TV nacional. A redescoberta de obras como “A Muralha”, “Dez Vidas” e “Meu Pedacinho de Chão” não apenas emociona os que viveram aquele tempo, como também oferece aos pesquisadores e novas gerações a chance de conhecer um passado que, por pouco, não desapareceu para sempre. Em tempos em que a preservação cultural ainda é um desafio, iniciativas como a de Gabriel provam que memória também se faz com persistência e responsabilidade histórica.
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