Personagens tidas como problemáticas de “A Viagem” e “Por Amor” hoje são consideradas ‘mulheres injustiçadas’


Com a internet consolidada como espaço crítico e memória viva das novelas, personagens antes julgadas foram, finalmente, compreendidas. Eduarda, vivida por Gabriela Duarte em Por Amor (1997), foi alvo de um dos primeiros hates virtuais (criada a página na web ‘Eu odeio Eduarda) e depois reavaliada na reprise de 2019. Marcelo (Fábio Assunção), seu par, é quem hoje carrega o estigma de tóxico. Três mulheres, três décadas depois, foram olhadas com empatia. As reprises revelam não só mudanças sociais, mas a reparação de injustiças simbólicas

Personagens tidas como problemáticas de "A Viagem" e "Por Amor" hoje são consideradas 'mulheres injustiçadas'

*por Vítor Antunes

Estamos em 2025 — uma era em que a internet se consolidou como mediadora do debate público e repositório de memória afetiva. Com as reprises televisivas acessíveis a novos públicos e a cultura digital dando voz ao que antes era visto como exagero feminino começa, enfim, a ser lido como resistência. Personagens “problemáticas”, como Dinah (Christiane Torloni), Heloisa (Giulia Gam) em “Mulheres Apaixonadas” e Eduarda (Gabriela Duarte), em “Por Amor” passaram a ser reconsideradas, especialmente pelo público da web. Vamos aos exemplos?

Em 1994, ano em que foi exibida, pela primeira vez, “A Viagem”, de Ivani Ribeiro (1922-1995), a internet mal era uma promessa distante no Brasil, e os discursos dominantes em torno das personagens femininas ainda eram marcadamente misóginos. Dinah, vivida por Christiane Torloni, foi amplamente considerada uma mulher ciumenta, desmedida, “afetada”. Poucos viam o quão tóxico era o comportamento de seu marido, Téo (Maurício Mattar), que, já na primeira semana da trama, marcava um encontro com outra mulher, mesmo ciente da sensibilidade da esposa para o ciúme – e diante dela mentiu dizendo ser uma “namorada do Mauro” (Eduardo Galvão [1962-2020]). Hoje, graças à lente crítica, Dinah é compreendida como vítima de um relacionamento emocionalmente abusivo. Téo, por sua vez, passou a ser rotulado nas redes sociais como o arquétipo do boy lixo. Três décadas foram necessárias para que a dependência emocional fosse, enfim, reconhecida e discutida.

“Téo é uma caçamba de lixo!”
“Ele tava marcando de ir pro cinema com outra, mesmo sendo casado”
Téo é um dos personagens mais insuportáveis da trama. Ele merece cada encostada do [vilão] Alexandre”  – frases de telespectadores de “A Viagem” no X/Twitter

Situação semelhante ocorreu com Eduarda, a personagem de Gabriela Duarte em “Por Amor” (1997). Na época de sua exibição original, a internet ainda era incipiente, mas já o suficiente para marcar o nascimento de um dos primeiros grandes fenômenos de rejeição online a uma personagem de novela: o movimento “Eu Odeio a Eduarda”. A jovem era tachada de mimada, irritante, frágil — tudo porque se colocava no centro de seus próprios afetos e escolhas. No entanto, durante a reprise de 2019, Eduarda foi reavaliada. Marcelo (Fábio Assunção), seu par romântico e anteriormente isento de crítica, foi reinterpretado como o verdadeiro agente tóxico da relação: infiel, manipulador e emocionalmente negligente. A crítica, antes dirigida à mulher, passou a questionar o comportamento naturalizado de homens que desrespeitam vínculos com impunidade.

Gabriela Duarte, intérprete de Eduarda, reitera esta afirmação. “Durante muito tempo, a Maria Eduarda foi muito odiada. E, claro, a personagem tinha suas falhas, como todo mundo. Mas hoje, com outro olhar, fica mais fácil entender o contexto em que ela estava. Se a gente parar para pensar, o Marcelo também era super mimado, inseguro, e ainda tinha um comportamento bem machista e manipulador. Mas isso passava meio batido na época. Ele controlava, colocava as mulheres uma contra a outra, e ainda parecia o protetor. Hoje, com a consciência que temos, esse tipo de postura seria cancelada rapidinho”.

Já não cabe mais esse homem que se esconde atrás da ideia de cuidado pra exercer controle. E aí, quando a gente percebe isso, a Eduarda começa a fazer mais sentido. Ela era uma mulher lidando com um luto enorme de um filho, um relacionamento tóxico e depois um divórcio, tinha também uma relação de dependência emocional com a mãe. Estava sofrendo por diversos fatores. E talvez, na época, a gente não soubesse como acolher esse tipo de dor. Acho que hoje o público poderia olhar para ela com mais empatia. Porque, no fundo, ela estava só tentando sobreviver a tudo aquilo  -Gabriela Duarte

Ao ver da atriz, Eduarda tinha personalidade e isso impactou a leitura dela para com o público. “Desde 1997, muita coisa mudou, ainda bem. Inclusive como a sociedade enxerga o comportamento de uma mulher. Na época em que a novela foi ao ar, muita gente só enxergava na Eduarda uma menina mimada, cheia de vontades e inseguranças. Mas hoje eu vejo diferente. Ela era uma mulher que sabia o que queria. E tinha coragem de bancar as próprias escolhas, mesmo que isso incomodasse. Talvez o problema tenha sido justamente esse: ela não se curvava, ela batia o pé. Se tornou dona dos caminhos dela e isso é admirável, ainda mais para uma mulher tão jovem”

Sobre o hate antes do hate a atriz relembra aquela época e a de hoje, ante à consolidação da internet? “Sim, fui ‘cancelada’ quando ainda nem havia o cancelamento como conhecemos agora. A rejeição é sempre ruim, mesmo que seja em relação a uma personagem. Mas tentei trabalhar isso e não levar para o pessoal, o que acabou funcionando. Ainda bem que a Eduarda teve a sua jornada de redenção e o público conseguiu compreendê-la melhor. Ao mesmo tempo, nem tudo foi rejeição. Quando a novela passou em Portugal, em 1999, eu tive uma surpresa enorme. A reação lá foi completamente diferente. A Eduarda foi recebida com carinho, com compreensão… até criaram um site chamado ‘Eu adoro a Eduarda’! Era curioso ver isso, porque enquanto no Brasil a personagem gerava muita crítica, lá ela despertava empatia. Foi muito forte perceber como o mesmo papel podia provocar reações tão distintas, dependendo do olhar de cada cultura. Mas, de um jeito ou de outro, a Eduarda gerava conversa — e isso sempre me marcou. Amavam ou criticavam, mas ela não passava despercebida. Não passa até hoje, marcou”.

Site “Eu odeio a Eduarda”, de 1997 (Foto: reprodução)

E o mesmo se deu com Heloísa (Giulia Gam), em “Mulheres Apaixonadas” (2003) – igualmente uma novela de Manoel Carlos. Vista na época como “louca de ciúmes”, sua paixão desmedida era usada para justificar o sofrimento que enfrentava. No entanto, revendo a novela, muitos espectadores encontram nela não apenas humanidade, mas coerência: seu marido, Sérgio (Marcello Antony), mesmo sem consumar traições, era flagrantemente desrespeitoso, paquerador, sedutor contumaz — especialmente com mulheres jovens da praia, do prédio, do cotidiano. Heloísa, afinal, não sofria por capricho: sofria porque via, com clareza, aquilo que a narrativa da época tentava silenciar – Ainda que isso não confira validade a muitas das suas ações destemperadas.

Essas três personagens — Diná, Eduarda e Heloísa — atravessam um recorte temporal de apenas nove anos (1994 a 2003), mas, relidas hoje, demonstram o quanto o olhar da sociedade evoluiu. As mulheres não mudaram em sua essência, afinal a novela está gravada e assim permanecerá; o que mudou foi a escuta. O que antes era enquadrado como histeria, hoje é percebido como reação legítima à violência emocional, à negligência afetiva, à omissão masculina.

Giulia Gam na pele de Heloisa em ‘Mulheres Apaixonadas’

A mudança de paradigma é ainda mais evidente quando analisamos o comportamento dos galãs que outrora foram celebrados como protetores ou apaixonados. Na reexibição de “Tieta”, telespectadores se revoltaram com a frequência com que mulheres eram agarradas pelo braço ou silenciadas aos gritos. Em “História de Amor”, o então mocinho Carlos Moretti (José Mayer) foi duramente criticado por ameaçar fisicamente a ex-mulher, Paula (Carolina Ferraz)— algo que, à época, foi exibido sem qualquer problematização. O mesmo Mayer, aliás, teve seu personagem em “Laços de Família”  condenado com veemência nas redes durante a reprise da trama: o que em 2000 foi lido como virilidade e amor selvagem no trato à Cíntia (Helena Ranaldi) hoje foi reconhecido como assédio e violência, inclusive sexual.

As novelas, mais do que simples entretenimento, funcionam como cápsulas do tempo. São crônicas do cotidiano que, ao serem revisitadas, expõem os valores de sua época — e, sobretudo, escancaram o que já conseguimos superar e aquilo que ainda precisamos enfrentar. As reprises se tornam, assim, instrumentos de crítica cultural e reeducação coletiva. É nelas que se revela, com nitidez, a lenta erosão da naturalização da violência simbólica e a ascensão de um novo olhar, mais atento, mais empático, mais justo.

Porque, no fim das contas, essas mulheres não estavam exatamente erradas. Talvez, adiantadas ao seu tempo. E hoje, com a força das redes e o eco da memória, estão sendo, enfim, ouvidas.

Gabriela Duarte em “Por Amor”. Personagem foi compreendida quando da reprise da novela (Foto: Divulgação/Globo)