Pedro Ogata e Carlos Takeshi falam de preconceito, yellowface e da ausência de protagonismo amarelo na TV


Historicamente, personagens orientais foram interpretados por atores brancos em yellowface ou relegados a papéis secundários e caricatos. Carlos Takeshi e Pedro Ogata relatam desafios, como testes excludentes e hipossexualização dos homens amarelos. Takeshi relembra que, por décadas, só recebeu papéis estereotipados -“É como se fossemos cenário ou cota”-, enquanto Ogata observa mudanças recentes impulsionadas pela cultura pop asiática. Apesar do avanço, ainda há falta de protagonistas amarelos em papéis diversos. Ambos acreditam em um futuro mais inclusivo, onde atores amarelos possam fazer personagens em qualquer produção audiovisual, sem precisar justificar sua etnia

*por Vítor Antunes

Estamos fazendo um teste para atores homens, não para japoneses“. A frase, ainda que possa parecer um tanto incoerente – afinal, ser “ator” implica necessariamente em ser homem – não é exatamente incomum. Historicamente foram poucos os atores a fazerem papéis de televisão em personagens orientais quando estes são disponíveis. Em muitas ocasiões há a repetição de estereótipos de pessoas orientais, ou ainda o yellowface, quando atores brancos interpretam, lançando mão de muita maquiagem, personagens orientais. Por esta razão convidamos dois atores – Pedro Ogata,19 anos e Carlos Takeshi, 64 para analisar o atual cenário. Ogata diz que “nos testes, quando eles procuram homens e mulheres amarelas, é sempre muito específico, sempre dentro de um estereótipo. E aí, quando abrem testes para um homem de 20 anos, nós nunca somos o perfil que eles procuram. Parece que convidam só para dizer que estão atentos à diversidade. Mas nunca de fato para algo concreto”, aponta Pedro Ogata. Algo reiterado por Takeshi. “A televisão só nos dá pontinhas, uma ou duas cenas. Uma novela que se passa em São Paulo, tem que ter algum japonês, porque é São Paulo, quase uma forma de estabelecer cota. Mas cadê o personagem? Cadê a profundidade,  a trama, o conflito? Não tem. Durante muitos anos, a gente foi tratado como se fosse um cenário. Para ter uma família japonesa, para que que você precisa ficar reforçando todas as cenas, sempre comendo sushi”, lamenta.

Uma das primeiras novelas a trazer um homem amarelo como protagonista foi “Yoshico, um Poema de Amor“, de 1968. O papel feminino coube à Rosa Miyake, uma mulher de ascendência japonesa. Porém, o papel masculino coube a Edney Giovenazzi, um homem de origem italiana. E a inadequação permaneceu por mais alguns anos, já que Edney viria a interpretar japoneses em pelo menos mais duas ocasiões. Uma delas em “A Próxima Atração”, da Globo, e “A Viagem“, da Tupi. Somente em 1994, o personagem seria vivido por um ator genuinamente amarelo, o próprio Takeshi.

Eu só fui dar o primeiro beijo em novela em 1994, mesmo atuando em tramas desde 1980. Depois, só em 2006, quando fui par da Cláudia Raia em “Belíssima”. Demorei 14 anos para fazer a primeira cena de beijo, e ,depois, 12 para a segunda – Carlos Takeshi

Pedro Ogata em “Tô Nessa” (Foto: Reprodução/Globo)

Reflexo dos novos tempos, Ogata teve a oportunidade de já ter um par romântico em seu primeiro trabalho na TV, a série “Tô Nessa“, recentemente exibida na Globo. “Foi uma grande oportunidade estar ali lidando com um gênero tão difícil que é a comédia. Eu sempre ia gravar com um sorriso enorme. As pessoas gostaram muito do meu personagem,  da relação que eu tive com a personagem da Valentina Bandeira. Na montagem, eu cantei uma música e tive a oportunidade de mostrar o meu lado cantor e teve, finalmente, o beijo do casal”. Com uma audiência baixa, o “Tô Nessa” ainda não teve sua segunda temporada confirmada.

Os estereótipos sempre 

Por muito tempo, os atores amarelos ficaram relegados a papéis secundários ou a serem o fecho da piada, que, na maior parte das vezes, tinha alguma referência a eles. As mulheres orientais, sob algum aspecto, ainda acabavam fazendo um trabalho ou outro e aparecendo. Mas e os homens? Numa consulta rápida, o leitor saberá pensar no nome de um personagem marcante de um ator amarelo na TV? Ou ainda um personagem que não fosse estereotipado ou que tivesse um nome à japonesa – ou com um trocadilho infame? Definitivamente, é algo difícil. O primeiro protagonista amarelo na Globo, ainda assim, um segundo destaque, foi Jui Huang, ator taiwanês que esteve à frente da novela “Negócio da China“, trama hoje problematizada pela música de abertura e pela campanha de lançamento, vistas como xenofóbicas. Nesta, os atores brancos puxavam os olhos com os dedos, deixando-os mais orientalizados.

Segundo Pedro Ogata, “os papéis vividos por nós, amarelos, são sempre muito padronizados, principalmente para os homens. Agora, com a influência dos doramas, tem aparecido um perfil um pouco mais novo, mas ainda assim com alguma estereotipação. Acredito que a influência das produções amarelas, como os doramas, tem sido muito grande, já que, junto a eles, há também a música, os influenciadores asiáticos, coreanos, japoneses”.

O povo brasileiro, em sua maioria, não estava acostumado a ver pessoas amarelas em outros papéis além dos estereótipos que a televisão brasileira sempre mostrou. Essa influência dos doramas mostra que existe, sim, uma versatilidade, e eu acho isso muito importante. Na verdade, isso deveria ter começado no nosso próprio audiovisual, no Brasil, mas acredito que essa influência ao menos traz um questionamento sobre explorar novas possibilidades” – Pedro Ogata.

Carlos Takeshi relembra que, no começo de sua carreira, ele era um dos poucos amarelos a estar no mercado de trabalho. “Há tempos atrás, não havia muitos atores amarelos. Existia alguma visibilidade, especialmente para os comerciais, mas era sempre aquela coisa estereotipada que o pessoal da colônia japonesa odiava, mas era o que a propaganda queria. Logo que eu comecei a fazer teatro, entrei para o cinema, e os primeiros a fazer TV não eram personagens normais, como qualquer brasileiro. Com o tempo, foram chegando as comédias e as porcarias. Chegou uma hora que eu não aceitava mais e pedia o texto antes para poder dar o ok para a minha participação. Agora, as pessoas estão ouvindo mais. Se o personagem tem que ser japonês, então tem que haver um respeito pelo personagem japonês e não ficar fazendo piadinha boba com o nome, sabe? Não ficar fazendo piadinha dessas que não caem mais, é muito velho, é uma coisa ultrapassada, sabe? O próprio nome do personagem vira uma piada, vira uma troça”.

Carlos Takeshi e Iris Bruzzi em “Belíssima” (foto: Reprodução/Globo)

É importante relembrar que, em pelo menos duas ocasiões na TV, o nome do personagem era uma brincadeira, uma piada. No caso de “Bebê a Bordo“, Cristina Sano, visivelmente japonesa, interpretava uma personagem chamada Grega. Renata Sayuri participou de um episódio do programa “Toma Lá Dá Cá“, e o nome de sua personagem pautava-se em um trocadilho malicioso: chamava-se “Furiko”.

Precisamos sempre convencer, através do tempo, que não somos japoneses, mas brasileiros. Japonês é quem vem do Japão, então. Eu nasci aqui e sou brasileiro, ora. Não é usual pontuarem alguém com ascendência italiana dizendo que ele é italiano. Agora, quem tem a cara oriental – todos os amarelos, chineses, coreanos, japoneses – fica num limbo: nasce no Brasil, mas não é brasileiro” – Carlos Takeshi.

Carlos Takeshi em “O Rei do Gado” (foto: reprodução/Globo)

Quando começou na carreira, a referência de ator amarelo para Ogata era o personagem Kokimoto (Mateus Ueta), de “Carrossel“. “Um personagem extremamente estereotipado, que andava com uma bandeira do Japão na testa e ainda por cima era ruivo. Foi com isso que eu cresci. Eu sempre tive o sonho de ser ator, de estar onde estou hoje, e olhava para aquele personagem e me questionava: será que não tem espaço? Será que, se eu tentar, eu não vou conseguir? Será que, se houver espaço, eu vou ser caçoado? Eu cresci com esse pensamento. Tinha muito medo de sofrer bullying porque minha etnia era vista como uma sátira, uma grande brincadeira de mau gosto. (…) Eu nunca fiz personagens caricatos. Sempre tive muito claro que, se fosse algo que faltasse com respeito comigo ou com a comunidade amarela, eu não aceitaria. Claro que existem estereótipos dos quais não conseguimos fugir, mas isso foge ao nosso alcance”.

“Meu primeiro papel no audiovisual foi um personagem que nem tinha um nome oriental. Para mim, foi um grande impacto viver um rapaz cujo sobrenome era Souza, e não Ota ou Hashimoto. Mas isso nem era o foco, e achei muito bacana. Recentemente, fiz outro filme em que meu personagem se chamava Tavinho, e a história dele não girava em torno da sua etnia” – Pedro Ogata

Já Takeshi vem de outra formação e com outra vivência. “Na época em que eu comecei, as únicas referências eram duas pessoas que faziam comerciais e que já eram mais velhas que eu. Um era o Paulo Watanabe, e o outro era o Ken Kaneko. Esse continua até hoje, artista plástico e tal. Ele fez muita coisa boa como ator, mas também era sempre chamado para conversar com estereótipos – japonês falando com sotaque, já que ele é japonês mesmo. As referências que eu tinha, não de seguir, mas de conhecer, eram essas. Quando comecei a fazer teatro, eu comecei a descobrir vários atores que já existiam, como o Celso Saiki, falecido em 1992. Ele e eu sempre éramos chamados para fazer o teste para o mesmo papel, já que tínhamos o mesmo perfil”.

Edney Giovenazzi era um japonês em “Yoshico” (Foto: Reprodução)

ENTRE A HIPER E A HIPOSSEXUALIZAÇÃO

Não é incomum que os amarelos apontem: as mulheres são hiperssexualizadas e fetichizadas, diferentemente dos homens, vistos como pouco viris. “Sobre hipossexualização dos homens, isso nunca aconteceu comigo, mas reconheço que existe”, diz Ogata. Já Carlos Takeshi argumenta que “todos os personagens, quando aparecem em relações amorosas, a mulher tem esse lado erotizado, enquanto o homem é fraco, dominado, apaziguador. O último trabalho que eu fiz foi em ‘Malhação’, que foi ótimo, mas a personagem da Mitsuko (Lina Agifu) era vilãzona, malvada e preconceituosa, ao passo que meu personagem era todo certinho. Nada acontecia com ele. Segundo a produção, era para formar um contraponto com a esposa. Ou seja, é uma coisa que já está entranhada”.

“Comecei a minha carreira em 1980 e só na ‘Malhação’ (2017) consegui ter uma família completa. Nos outros trabalhos, eu tinha família, mas a família não aparecia. No máximo, aparecia um filho ou aparecia a mulher, mas não apareciam os filhos. ‘Malhação’ foi um marco” – Carlos Takeshi

Ana Hikari em “Malhação”. A primeira protagonista oriental da Globo (Foto: Sergio Zalis/TV Globo)

Diante desse quadro cinzento sobre os amarelos na TV, ambos os atores se mostram esperançosos. “Na novela das 19h já tem um ator fazendo uma participação, num núcleo de dorama, o Allan Jeon. Acho que para o futuro aí a gente tenha um novo protagonista de novela japonês, coreano ou chinês, sim”, diz Takeshi. Já Ogata sonha em, ele próprio, chegar a esse patamar. “Projetar-me nesse espaço é um sonho, não só para minha carreira, mas também para influenciar novos atores e atrizes. Não acredito que uma novela precise ser ambientada no Japão ou focar incessantemente na cultura japonesa para ter um protagonista amarelo. Posso protagonizar uma novela falando sobre outros assuntos. Orgulho-me da minha cultura e história, mas questiono a necessidade de escalar um ator amarelo apenas para tratar desse tema. Posso interpretar um empresário, um mocinho, um galã ou um vilão sem que isso esteja vinculado à minha etnia. Tenho certeza de que posso entregar uma boa atuação, independentemente desse fator. Ainda não participei de nenhuma novela, mas projeto que um dia poderei protagonizar uma sem precisar reforçar minha origem a todo momento, sem precisar dizer: ‘Olha, eu sou japonês, minha cultura é essa, vim de lá e sou assim’. Não há necessidade de trazer isso como um traço exótico”.

FUTURO

Artista multifacetado, Pedro quer, também, investir na música. Inclusive, ele já participou do The Voice. “O The Voice sempre foi um sonho para mim. Cresci assistindo às edições brasileira e americana ao lado da minha mãe, professora de música e preparadora vocal, analisando as apresentações. Para mim, o programa não era apenas uma competição, mas a oportunidade de subir ao palco e ser reconhecido como cantor. Além da visibilidade nacional, a experiência proporcionou aprendizado e amizades, criando um ambiente de troca e crescimento entre os participantes. O programa me trouxe um senso de responsabilidade, mostrando que cantar não era apenas um hobby, mas algo que poderia ser profissionalizado. Apesar da minha experiência com teatro musical e peças profissionais, foi no The Voice que compreendi a importância da técnica e do comprometimento com a música.

“Acredito que, para se destacar como ator, é essencial ser autêntico. Primeiro, é necessário fazer um estudo e entender quais são os seus pontos mais fortes. Estudar sempre, estar em movimento, porque, por melhor ator que alguém seja, se parar de estudar, sempre haverá novidades que não conseguirá absorver e acabará ficando para trás. Se conheço minhas habilidades e as aprimoro constantemente, isso me ajuda a me destacar” – Pedro Ogata

Takeshi está com três produções em desenvolvimento, incluindo uma para a TV. Entre os projetos já conhecidos, estão “Atração de Risco”, disponível no streaming, “A Babá – Operação Game Over|”, de Lucas Neto, e “O Rei da Feira”, de Leandro Hassum. Em A Babá – Operação Game Over, Takeshi interpreta um dos protagonistas. “O personagem é bem grande mesmo. Ele é um empresário bem-sucedido, ainda que meio maluco, e abandona o filho. Ele vai para o Japão para fazer negócios lá. Antes de viajar, ele faz um concurso para escolher uma babá para o filho. É um cara excêntrico, mas não faz o estereótipo do japonês, tanto que me inspirei no carnavalesco Milton Cunha. Foi muito divertido fazer”.

A história da representação amarela na televisão brasileira é um espelho das contradições de um país que se vê diverso, mas nem sempre se enxerga por inteiro. Durante décadas, atores amarelos foram relegados ao papel de cenário, limitados a estereótipos ou reduzidos a piadas. Mas a arte, assim como a identidade, não pode ser confinada. Ela resiste, desafia, transforma. Carlos Takeshi e Pedro Ogata são testemunhas e protagonistas dessa mudança, reivindicando espaços que deveriam ser naturais. A televisão brasileira ainda tem um longo caminho a percorrer para que seus elencos reflitam verdadeiramente as ruas do Brasil, onde amarelos são médicos, advogados, poetas, amantes, heróis e vilões. Mas, se no passado essa luta parecia um grito solitário, hoje ela ecoa mais forte, embalada pelo desejo de um futuro onde a pele e os traços não sejam limitações, mas sim parte da riqueza de contar histórias que pertencem a todos.