*por Vítor Antunes
Uma boa notícia movimenta os fãs de Xuxa Meneghel e os entusiastas do cinema nacional: os rolos originais de “Super Xuxa contra o Baixo Astral”, longa de 1988 dirigido por Anna Penido e David Sonnenschein, até então considerados perdidos, teriam sido localizados. O material no momento, passa por um processo de escaneamento para avaliação técnica do seu estado de conservação. A informação foi confirmada ao site por uma fonte com conhecimento do caso, que preferiu não se identificar. “Não sei se a cópia vai poder ser utilizada ou não. Porém, o colecionador enviou para o laboratório para análise, para o Scan”, declarou.
Com status de cult ao longo dos anos, “Super Xuxa contra o Baixo Astral” foi a terceira maior bilheteria do cinema nacional em 1988 e se tornou um símbolo pop dos anos 80. Para muitos jovens que não viveram a época de lançamento, o filme carrega hoje um forte valor afetivo, estético e histórico.
O rolo original do filme estaria sob responsabilidade do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), instituição que, em determinado momento, teria enfrentado um extravio parcial do material, segundo o jornalista Sandro Nascimento. Procurado, o MAM disse que os negativos do filme Super Xuxa Contra o Baixo Astral foram transferidos para o Arquivo Nacional em 2002. “Apesar da transferência ter acontecido há 23 anos, a Cinemateca do MAM, como parte de seu amplo compromisso com a preservação do patrimônio audiovisual brasileiro, tem colaborado com os esforços de recuperação deste título. Recentemente, a Cinemateca foi responsável por obter uma cópia cedida pela produtora Ponto Filmes. Este material segue em processo de análise técnica e somente após a devida verificação será possível afirmar se vai viabilizar a digitalização da obra”.
O paradeiro da fita original gerou discussões, especialmente depois de “Sonho de Verão“, protagonizado pelas Paquitas e exibido em 1990, ter sido remasterizado e exibido em 4k pelo Canal Brasil, a partir das fitas originais – algo do qual “Super Xuxa” não pôde passar. Atualmente, uma versão em 4:3 – possivelmente oriunda de um DVD – pode ser assistida no Globoplay.

Super Xuxa foi um dos maiores sucessos de 1988 (Foto: Divulgação)
Guilherme de Melo, 20 anos, morador de Croatá, no interior do Ceará – a 334 km de Fortaleza -, comemora a possível recuperação da obra. “Eu acho que é uma grande conquista – não só para os fãs da Xuxa, mas para o cinema nacional e a cultura pop também. Quando eu fiz o post no Twitter sobre o rolo do filme ter sido encontrado e ele viralizou, eu vi o quanto esse filme é querido pelos apreciadores do cinema brasileiro em geral. Esse resgate é importante porque reconhece o valor histórico e cultural da Xuxa dentro do audiovisual brasileiro. É um filme que faz parte de uma geração inteira, foi a terceira maior bilheteria da época e tem uma estética única dos anos 80. Trazer isso em 4K é dar o valor que o nosso cinema também merece”.

Longa foi o primeiro grande sucesso solo de Xuxa no cinema (Foto: Divulgação)
O FILME
De acordo com artigo acadêmico publicado na revista NAMID/UFPB, vinculada ao Núcleo de Arte, Mídia e Informação Digital da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o filme teve um orçamento de 1,5 milhão de dólares. Considerando a inflação da moeda norte-americana até janeiro de 2020, esse valor corresponderia a aproximadamente 14,7 milhões de reais. À época, o investimento posicionava “Super Xuxa contra o Baixo Astral” como a mais cara produção cinematográfica brasileira da década de 1980 – um feito notável num cenário nacional marcado por baixos aportes financeiros no setor audiovisual.

No contexto dos Anos 1980, “Baixo Astral” trouxe os temas inerentes àquele momento de Brasil (Foto: Divulgação)
O lançamento comercial aconteceu em 30 de junho de 1988, data em que o programa “Xou da Xuxa” completava dois anos no ar. O filme estreou simultaneamente em 93 salas de cinema em todo o Brasil. Segundo dados da Agência Nacional do Cinema (ANCINE), o longa alcançou a terceira maior bilheteria do cinema nacional naquele ano, com um público estimado em 2.816.000 espectadores.
Além de seu sucesso popular e apelo infantojuvenil, o filme passou a ser objeto de estudos acadêmicos que destacam seu conteúdo simbólico e social. Ainda segundo o artigo publicado pela UFPB, assinado por Bruno Oliveira da Silva – doutorando em Turismo e Hotelaria pela Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI) -, “Super Xuxa contra o Baixo Astral” evidencia 18 signos que refletem desigualdades brasileiras estruturais, especialmente aquelas vivenciadas nos anos 1980. No contexto da pesquisa, os signos são entendidos como elementos simbólicos que apontam para críticas sociais, culturais e ambientais presentes na narrativa do filme. Entre eles, estão: Depredação do patrimônio público, Violência urbana, Infraestrutura defasada, Guerra, Sequestro, Corrupção, Criminalidade, Ausência de alimentação, Desmatamento, Reflorestamento, Caça ilegal de animais, Biodiversidade, Desinformação/Analfabetismo, Uso de agrotóxicos, Burocracia, Abuso de autoridade, Falsidade ideológica e Extrema pobreza.
Esses elementos funcionam como camadas interpretativas que, mesmo em um filme voltado ao público infantil, abordam questões centrais da realidade brasileira. Ainda que travestidos de aventura e fantasia, tais signos oferecem uma leitura crítica sobre os desafios sociais, econômicos e políticos enfrentados no Brasil – especialmente durante a transição democrática e o período de estagnação que marcou o fim da década de 1980.
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