*por Luísa Giraldo
O prazer feminino ainda é um tabu para a sociedade brasileira. Até hoje, momentos reservados para a sexualidade da mulher na TV aberta geram incômodo, surpresa, discussões e, é claro, engajamento. Recém-formado casal no remake de “Vale Tudo”, Carolina Dieckmann e Alexandre Nero protagonizaram uma cena sensível sobre o desenvolvimento sexual de Leila. Após a transa, a personagem revela ao executivo Marco Aurélio que havia tido um orgasmo pela primeira vez. Envergonhada, ela descreve finalmente ter descoberto a diferença entre “sentir prazer” e atingir o clímax, declaração que emocionou o namorado e acabou em um beijo apaixonado. O momento sexy arrancou suspiros e viralizou nas redes sociais.
A sexóloga Clariana Leal ressalta “a importância de narrativas que exploram a sexualidade feminina” para a identificação do público e, também, para a transformação do olhar da sociedade para as relações sexuais. Como consultora sexual, ela avalia que a produção da cena “pareceu muito cuidadosa e sensível”.
A cena romântica despertou debates e comentários online até agora. A repercussão foi tanta que, no dia seguinte da exibição, Nero entrou na onda. Nas redes, o ator compartilhou uma série de memes sobre a transa de Leila com o vilão, transformado em galã aos olhos do público. “Marco Aurélio foi o último dos ‘cinco bons imperadores’, adquiriu a reputação de rei-filósofo ainda em vida”, escreveu na legenda da publicação. “O reinado de Marco Aurélio teria sido o último momento de uma Roma feliz”, brincou ele, citando a Wikipédia.

Cena de sexo entre Carolina Dieckmann e Alexandre Nero em “Vale Tudo” viraliza nas redes por sensibilidade e abordagem do prazer feminino (Reprodução/TV Globo)
São praticamente 29,4 mil comentários no corte da cena, publicada pelo perfil do Gshow e compartilhada pelos atores no Instagram. O vídeo conta com quase 20 milhões de visualizações. As opiniões são mistas: há elogios à sensibilidade do roteiro, críticas ao desempenho dos parceiros anteriores de Leila – Ivan, que é pai de seus dois filhos (Renato Góes) e Renato (João Vicente de Castro), com quem não conseguiu firmar um relacionamento sério – e centenas de relatos de mulheres de suas respectivas experiências sexuais.
“Ter essa cena na novela tão bem representada, por esses dois ícones da TV Globo, faz com que muitas mulheres deixem de pensar que o problema é só com elas”, opinou uma internauta. Emocionada, outra confessou: “Chorei! Lembrei do meu primeiro orgasmo”.

Comentários sobre a cena em que Leila diz a Marco Aurélio que teve o primeiro orgasmo, no remake de “Vale Tudo” (Reprodução/Instagram)
Com a potência dos incontáveis relatos nos comentários, uma usuária abriu o coração: “Conheci com 40 anos e que é o orgasmo, me assustei e não sabia dizer o que era. Sei que isso acontece com muitas mulheres”. Concordando, uma internauta escreveu que “só quem viveu isso aos 40 anos, mesmo após outros parceiros, sabe o que significa essa cena”.

Comentários sobre a cena em que Leila diz a Marco Aurélio que teve o primeiro orgasmo, no remake de “Vale Tudo” (Reprodução/Instagram)
“Quem diz que a televisão morreu não entende o tamanho dela para a maioria da população no Brasil. A TV mudou bastante com a internet e os streamings, mas ainda é muito potente para alcançar lugares que eles não acessam. Quando assisti essa cena, pensei na quantidade de mulheres que estavam tendo acesso a essa conversa pela primeira vez na vida, e naquelas que sempre acharam normal não sentir prazer ou não ter orgasmos em uma relação”, emociona-se.
As telespectadoras se depararem com essa cena, com uma mulher passando pela mesma coisa que elas passam e acessando novos lugares pela primeira vez é de uma potência gigantesca. Esse é um tipo de trabalho que vai impactar em lugares que vamos demorar a entender. A gente não sabe como essas conversas [sobre sexo, sexualidade e prazer feminino] vão se dar daqui para frente, mas acredito piamente que podem melhorar com cenas e diálogos como esses – Clariana Leal.

Comentários sobre a cena em que Leila diz a Marco Aurélio que teve o primeiro orgasmo, no remake de “Vale Tudo” (Reprodução/Instagram)
Em contrapartida, houve internautas que não entenderam o arco de prazer da personagem de Carolina Dieckmann. “É a primeira vez dela? Mas ela já tem dois filhos”, indagou uma. “Não entendo, a mulher só tem a primeira vez consumada quando sente prazer com um homem?”, criticou outra. Nos comentários, rolaram inúmeras respostas e interpretações da cena. A maioria concordou que Leila já havia sentido prazer, porém ainda não havia alcançado o clímax na relação.
“É tão positivo quando a gente quebra a narrativa limitante da potência do nosso prazer. A mídia está à favor desse movimento. A gente está cada vez mais abordando esse assunto nas novelas e nas séries. Sou 100% à favor”, vibra a educadora sexual Clariana Leal. “Trazer essas conversas para perto da vida dessas mulheres permite que elas, cada vez mais cedo, tenham autonomia sobre o corpo e o prazer”.
Orgasmo ao som de Roberto Carlos
Não é a primeira vez que a TV aberta levanta debates sobre o ápice do prazer feminino. Em 2006, a novela “Páginas da Vida”, de Manoel Carlos, deu espaço a uma iniciativa ousada da TV Globo. Ao final de cada capítulo, era exibido um depoimento anônimo de uma pessoa real, que compartilhava uma história pessoal relacionada a algum tema abordado no episódio. O relato que marcou a televisão brasileira, exibido em 15 de julho, semana de estreia do folhetim, foi de Nelly da Conceição e tratava do orgasmo.
A babá, então com 68 anos e 17 filhos, revelou só ter descoberto o prazer sexual aos 45. Na época, embora houvesse um contexto de liberdade para abordar temas como sexualidade, a história inusitada surpreendeu e divertiu os telespectadores. Nelly confessou não conhecer a sensação do orgasmo até uma noite, quando ouviu uma canção de Roberto Carlos. Além do prazer, ela disse que acordou no dia seguinte “toda babada”.

A babá Nelly da Conceição perdeu o emprego após dar um depoimento sobre seu primeiro orgasmo na televisão (Reprodução/TV Globo)
“Esse negócio das pessoas dizerem que têm que gozar junto, que é isso que faz neném, é tudo mentira, porque fiquei sem gozar dos meus 14 aos 45 anos. Era tudo normal. O homem terminava, e eu também”, pontuou.
“Eu colecionava discos do Roberto Carlos e, aos 45 anos, ganhei um LP. Botei na vitrola a música ‘Côncavo e Convexo’ e fui dormir. Quando acordei, estava com a perna suspensa, a calcinha na mão e toda babada. Comentei com as amigas, elas disseram: ‘Você gozou!’. Aí, é que vim saber o que era gozo. Moral da história: sou uma mulher de 68 anos. Homem não faz falta, eu mesma dou meu jeito”, concluiu.
Embora divertido, o relato destruiu a vida profissional da mulher. O momento repercutiu na internet e levou, até mesmo, Manoel Carlos e o diretor Jayme Monjardim a se desculpar publicamente. Eles reconheceram que certos trechos do depoimento deveriam ter sido cortados. A exposição na mídia fez com que a babá fosse demitida da casa que trabalhava há oito anos. Nelly entrou com um processo contra a emissora pedindo retratação, porém o caso não teve continuidade.
Doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), o roteirista Lucas Martins Néia enfatiza a importância de narrativas sobrea busca e a descoberta do orgasmo por parte de mulheres de classes sociais variadas, um movimento feminino “que existe, de fato”.
“O prazer feminino sempre foi algo que, de alguma forma, interessou as nossas telenovelas. Elas têm também esse lugar de pensar os comportamentos liberalizantes e da independência da mulher. É claro que, muitas vezes, reforçam questões machistas”, avalia.
É sempre interessante trazer a discussão do prazer feminino. Lembro que o comentário da idosa foi uma polêmica na época. Teve repercussão na vida dela, foi discutida em programa de TV. Quando ‘Páginas da Vida’ foi reprisado no canal Viva, e mesmo no Globoplay, não consta o depoimento no final do capítulo. Eles suprimiram por conta de toda essa polêmica – Lucas Martins Néia.
A sociedade mudou?
Quase duas décadas separam o depoimento de Nelly da Conceição e a cena de Leila (Carolina Dieckmann), porém ambas escancaram a mesma realidade: o orgasmo feminino ainda é um território cercado por silêncio, julgamento e desconhecimento. A diferença é que, hoje, há mais espaço para o diálogo, identificação e acolhimento. Se antes um relato real resultava em punição social e perda de emprego, agora, uma cena ficcional é celebrada como avanço.
No tópico “sexualidade feminina”, ainda há muito a ser conquistado, mas a recepção calorosa do público à história da personagem de “Vale Tudo” demonstra que narrativas que colocam o prazer feminino no centro são necessárias e têm poder de transformar. Afinal, reconhecer o prazer como parte da experiência feminina é também reconhecer o direito ao autoconhecimento, ao desejo e à autonomia.
A força dessa cena não se limita à esfera do entretenimento: torna-se um espelho para milhares de mulheres que, assim como Leila, descobriram o orgasmo tardiamente – ou sequer sabiam que nunca o haviam experimentado. Ao tocar com delicadeza e veracidade uma questão feminina tão íntima, a novela abriu espaço para uma conversa urgente, que por muito tempo foi silenciada. Mostrar esse tipo de experiência na TV aberta é mais do que romper um tabu: é validar vivências, quebrar o ciclo de desinformação e afirmar que o prazer da mulher importa, merece ser vivido e contado, concorda a educadora sexual Clariana Leal.
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