Cinema & TV

O filme de suspense Motorrad estreia nos cinemas nacionais e de outros 15 países: “Esta história é brasileira, mas também internacional”, afirmou LG Tubaldini Jr

A trama foi filmada em 2016 na Serra da Canastra, em Minas Gerais, e demorava duas horas para chegar à cidade mais perto. " Com o tempo, passei a ter medo das coisas. O local contribuía muito para que as pessoas entrassem nesta paranoia", afirmou o ator Pablo Sanábio. A equipe não quis se aprofundar muito sobre o papel de cada ator, mas, segundo Emílio Dantas, são personagens que exibem alguma característica humana como coragem e responsabilidade

Publicado em 28/02/2018 | Por Ana Clara Xavier

Sangue, suspense e muito terror são os ingredientes de sucesso que compõem a receita do filme Motorrad, de Vicente Amorim. A história é impulsionada pela vontade de Hugo, vivido por Guilherme Prates, em se tornar um motociclista da mesma forma que o irmão mais velho, interpretado por Emílio Dantas. Os dois juntos de um grupo de amigos resolvem treinar o esporte em uma trilha no meio do nada, literalmente. Em meio à diversão, eles cruzam um portal e a partir de então precisarão correr em busca de sobrevivência. O mistério está presente em cada pedacinho do filme e, até mesmo, na fala da equipe que, durante a pré-estreia do longa, preferiu não ir muito a fundo sobre o os dramas pessoais de cada papel. “São personagens que não tem muito conflito e isto faz com que os atores não tenham como se aprofundar tanto neles. Na verdade, acho que os papéis são uma espécie de representatividade de características humanas como o ímpeto e a coragem. Acredito que o meu papel seria a responsabilidade do grupo. Enquanto isso, o Hugo é a coragem, o cara que vai precisar amadurecer lá dentro. Isto torna mais difícil a atuação porque é um tiro no escuro, é preciso reagir àqueles instintos da forma mais honesta possível. Não tem muito para ser dito, é um filme muito mais sensorial”, afirmou Emílio Dantas. A montagem terá muitas cenas sangrentas e muitos irão morrer, a começar pelo papel de Alex Nader, que irá se afastar do grupo logo no início. A trama chega aos cinemas amanhã e será lançada em cerca de quinze países como Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Itália, China, Coréia do Sul, Escandinávia e Canadá. Além disso, participou da mostra principal do Festival de Toronto deste ano. “Esta história é brasileira, mas também internacional. Acredito que seja por isto que conseguiu atravessar fronteiras. Conquistar corações e mentes em outros países é muito bonito e importante para a indústria daqui”, completou o produtor, LG Tubaldini Jr.

Equipe de Motorrad durante a pré-estreia do longa (Foto: AGNEWS)

Apesar do mistério por trás da figura de cada personagem, os atores conseguiram adiantar alguns detalhes sobre a preparação que fizeram para encarar este longa. “É um filme que mostra quem o ser humano pode ser em uma situação limite, em nome da sobrevivência.  O elenco imergiu em um mundo muito selvagem e obscuro, foi um processo desgastante para mente e para o corpo”, contou Carla Salle. O elenco passou quinze dias ensaiando as cenas antes de começar a filmagem, sendo que demorou quase três anos para idealizar, rodar, finalizar e lançar Motorrad.

O resultado final da trama é união de várias inspirações. O pontapé para a feitura deste filme, na verdade, foi a partir do próprio produtor LG Tubaldini Jr. “Sempre pratiquei MotoCross e já tinha praticado por lazer na Serra da Canastra. O filme surgiu a partir de um sonho que tive há alguns anos, onde pensei que poderia sair uma história deste contexto todo. Encontrei o Danilo Beyruth, que é o quadrinista, e ele deu uma ideia. O Vicente, diretor, entrou e a partir daí a coisa engrenou”, contou. Além disso, o enredo possui uma característica sobrenatural, com direito a dobras de espaço e tempo e um cenário difícil de ser identificando, parecido ter sido feito em outro planeta. “Sou muito fã de LOST, então peguei alguns elementos da série. Uma das coisas que eu não fiz é explicar muito as coisas e isto é a cara do seriado, acho que quando se fala demais acho que matamos a dramaturgia. Sempre achei também que tivesse um estilo muito semelhante ao John Carpenter, porque ele consegue fazer terror com uma pegada de storytelling única”, contribuiu o roteirista, L.G. Bayão.

L.G. Bayão é o roteirista do longa, responsável por trazer uma história inspirada em LOST (Foto: AGNEWS)

Umas das maiores dificuldades que houve durante a feitura do filme foi a própria locação que eles selecionaram. O local em questão era na Serra da Canastra, em Minas Gerais. A cidade mais próxima ficava distante duas horas e as necessidades mais simples como banheiro e comida representavam uma dificuldade. “Foi uma experiência para a vida, porque fiquei muito mergulhado naquele universo. Com o tempo, passei a ter medo das coisas. O local contribuía muito para que as pessoas entrassem nesta paranoia. Comecei a pensar se não seria verdade o que estávamos contando, porque o elenco entrou no giro daqueles personagens. Vivenciávamos a história diariamente, pois ao mesmo tempo que a Serra é linda visualmente, existe uma aridez”, confessou o ator Pablo Sanábio. A equipe passou seis semanas no meio do nada, rodeada por uma vegetação selvagem e densa. O fato da paisagem ser muito parecida também representava um percalço. “Quando se escreve é possível fazer uma quebra de momentos da trama mudando os atores de lugar, colocando a história para acontecer na praia, na casa de fulano, entre outros. Em Motorrad tudo acontece em uma mesma locação sendo assim é muito difícil diferenciar , explicou o L.G. Bayão.

Carla Salle ao lado de Juliana Lohman, que também faz parte do grupo. Carla é uma das protagonistas e Motorrad representa o seu primeiro longa  (Foto: AGNEWS)

Outro percalço é a verba destinada ao cinema. De acordo com o roteirista, ao escrever é preciso pensar que estamos no Brasil, um país que não possui uma renda de milhões de dólares destinada às artes. “Tenho que criar algo que é eficaz, mas é possível ser feita com o orçamento que temos”, concluiu ele. Segundo a equipe, esta seria a única limitação que impede os cineastas a fazerem cada vez mais loucuras. “Fazer filme de gênero é sempre muito difícil e o local onde gravamos complicou ainda mais as coisas. Mas o que falta para investirmos neste tipo de longa é vontade, porque temos talento, tecnologia e técnicos. Temos que ter produtores que estejam dispostos a arriscar. E quanto mais gravarmos mais serão feitos. Não pode virar um paradoxo no sentido de não tem porque ninguém vê, na verdade a oferta irá criar a demanda”, afirmou o diretor, Vicente Amorim.

Emílio Dantas interpreta é um dos protagonistas e irmão do personagem Hugo (Foto: AGNEWS)

As dificuldades existem, mas o que podemos ver no cinema atual são vários diretores e produtores apostando neste tipo de filme mais segmentado. “O que está acontecendo é uma virada tecnológica que está dando a possibilidade dos cineastas poderem brigar com novos tipos de estilos. O cinema no meio da crise cresceu 220% na sua produção, muito por conta da praticidade das ferramentas.  Isto faz com que seja um produto mais acessível a todos. O mercado também não está muito bom o que faz com que a galera se junte para fazer o novo”, sugeriu Emílio Dantas. Apesar de toda a equipe do longa concordar que Motorrad é um terror, o ator não considera. Segundo ele, a história se parece mais com um quadrinho de aventura e ação. “É um longa de aventura com um pezinho no slasher”, completou.

Apesar do recente interesse neste tipo de gênero de muitos nomes da indústria cinematográfica nacional, o produto estrangeiro ainda é uma referência quando o assunto é terror e suspense. Para completar, este tipo de linguagem cresceu lá fora, sendo assim o produto do exterior acaba representando uma inspiração. Mesmo com esta forte referência, o elenco garante que é possível identificar traços de brasilidade. “Sou brasileiro, o roteirista e o produtor também, os personagens falam português e toda a história se passa na Serra da Canastra. É um filme nacional. Não tinha porque transformar um filme de terror e ação em um drama nacional, refletindo sobre as mazelas brasileiras. Não é esta a proposta. Queremos levar a galera para se divertir e se assustar e acho que conseguimos”, explicou o diretor.

 

Pesquisas relacionadas