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Romulo Estrela, de ‘Novo Mundo’, conta os desafios de viver trama de época e compara o Brasil atual com o país do século XIX: “nossos problemas são os mesmos”

Romulo Estrela vive o melhor amigo de Dom Pedro I na trama da nova novela das 6. O artista fala de seu personagem e da carreira no jiu-jitsu que abandonou há alguns anos para atuar nas telinhas

Publicado em 08/05/2017 | Por Ana Clara Xavier

A trama de ‘Novo Mundo’ começa no início do século XIX, depois que a família imperial havia chegado ao Brasil fugindo da tática de guerra expansionista de Napoleão, na época da Revolução Francesa. O primeiro imperador recebeu a coroa muito jovem de seu pai Dom João que, por algumas questões políticas, voltou a Portugal antes que o filho completasse a maioridade. Na nova novela das 6, são ilustradas as façanhas e aventuras de Dom Pedro I, interpretado por Caio Castro. Mas ele não tomava as decisões sozinho, ao seu lado o melhor amigo Chalaça é vivido por Romulo Estrela. Ele é um funcionário real dedicado com alguns envolvimentos políticos. A amizade dos dois é tão grande que o personagem acaba ajudando e acobertando o rei com assuntos extraoficiais. É o terceiro trabalho consecutivo de época do ator, ele participou dos sucessos ‘Além do tempo’ e ‘Liberdade, Liberdade’. “Nunca escolhi fazer novelas antigas e atuar nesse gênero é interessante. Gosto muito porque me tira do meu lugar comum, da minha zona de conforto. São realidades distantes do nosso dia a dia que obrigam a gente a se aproximar daqueles costumes que eu não vivi”, conta Romulo para o site HT.

(Foto: Ricardo Penna)

Para o ator, a melhor parte de fazer um papel que se passa em outro tempo é a grande fonte de informação que ele acaba recebendo e se aprofundando. “Acabo conhecendo uma parte do Brasil que eu não conhecia tanto como, por exemplo, a chegada da Leopoldina no Brasil. Na escola, a gente acaba vendo isso muito rápido e é uma história linda. Me deixa muito feliz poder fazer parte dessa equipe. Além disso, é um assunto distante, mas, ao mesmo tempo, próximo da nossa realidade. Porque também foi um momento delicado para o país”, acredita.

Atualmente, o Brasil está enfrentando uma crise política e social. Os investidores que surgiram na época das Olimpíadas tiraram seus recursos. É visto como uma país duvidoso para se investir. “ O cenário atual é muito parecido com o daquela época. Gravei uma cena em que o Chalaça trabalha assessorando o dom Pedro, depois que Dom João volta para Portugal. Nesse momento, leva com ele todas as riquezas, deixando o país à beira da falência, como nos encontramos hoje”, sugeriu. Para o ator, continuamos sendo o mesmo Estado daquela época. “O que a gente vive hoje é reflexo da chegada dos portugueses há duzentos anos. Se levarmos isso para o lúdico, vemos que os nossos problemas são os mesmos. Ainda temos déficits na economia, no saneamento básico e na educação. Me pergunto se estamos estagnados”, questiona.

(foto: Divulgação)

Simultaneamente, muitas pessoas estão indo para as ruas reivindicar o que acreditam estar errado no país. “Acho importante a novela mostre esse lado do Brasil, para levantar ainda mais o debate. Não deixa te ter uma história de amor no meio, mas de pano de fundo mostramos o reflexo da nossa história atual”, acredita Romulo. A função de Vinicius Coimbra como diretor é saber como abordar tais questionamentos. “Admiro muito ele, é muito carinhoso, dedicado e entende essas questões. Acho que conduz a equipe de uma maneira muito positiva. Na novela, falamos de racismo e preconceitos e, apesar de passar em um horário que possui algumas limitações, o diretor conseguiu elencar todas as questões”, informa.

O ator decidiu passa uma semana em Portugal para entender mais os gestos do povo já que seu personagem veio das terras lusitanas. Para entrar no personagem, o diretor sugeriu que Romulo tivesse um sotaque do local. “ Comprei o desafio de cara, mas foi a coisa mais difícil que precisei fazer pelo meu personagem. Não tinha ideia de como falar esse português mais rebuscado. Foi um longo trabalho com a fonoaudióloga da Globo”, relembra. Era importante que ficasse claro para que os brasileiros pudessem entender, mas, ao mesmo tempo, a novela pode passar em outros países. A equipe precisava ter algo realista. “Além disso, descobrimos que a língua daqui também era uma mistura de Moçambique e das tribos, Guarani e Tupi, ou seja, ninguém entendia”, informa o ator. Apesar de passar quase dois meses treinando a fala, Romulo gostou de interpretar usando uma língua diferente da portuguesa coloquial. Ele afirmou que adora distanciar ao máximo seus personagens da sua realidade e essa diferença facilitou.

(Foto: Ricardo Penna)

Este ano, Romulo vai entrar em cartaz no circuito nacional com o seu terceiro longa ‘A costureira e o cangaceiro’. Rodado em Pernambuco, ele precisou em um curto período de tempo sair do sotaque nordestino para o português. A data de estreia ainda não foi definida, mas acredita que deve sair na segunda metade do ano. No papel, contracenou pela primeira vez com Marjorie Estiano e Nanda Costa.  “Fiz um personagem que tenho muito carinho. Ele passou por conflitos na década de 30 pela sociedade ser tão retrógada. Naquela época, as pessoas tinham medo de ser quem eram. A história fala de duas irmãs que tomaram caminhos diferentes”, conta. Para o ator, foi importante gravar uma trama que fale de problemas sociais. Alguns deles, inclusive, se cruzam com os abordados em ‘Novo Mundo’. “Acho que hoje estamos levantando muitas bandeiras, mas precisamos fazer isso com respeito e amor. Por estar no meio artístico, me sinto responsável por levantar debates”, conta.

Pouca gente sabe, mas Romulo representou o Brasil no PanAmericano de 2002, na Califórnia, EUA. O ator já foi um grande atleta campeão de jiu-jitsu, antes de seguir a carreira na televisão. Dos 13 aos 21 anos, se dedicou exclusivamente aos esportes. “Treinava seis horas por dia e achava que ia viver disso. Queria fazer alguma faculdade na área da saúde. Tive até uma academia própria por oito meses”, lembra. Mas quando entrou para a faculdade de Publicidade, sentiu a necessidade de fazer teatro para crescer na profissão. Entrou para um curso em São Luís, sua cidade natal. “Naquele momento, vi que queria atuar para sempre. Mudei para o Rio e comecei a lutar por isso. Agora estava fazendo cinema na Estácio, mas tranquei”, conta.

(Foto: Ricardo Penna)

Segundo Romulo, ser ator e atleta são mundos muito próximos. Há um feedback muito grande, as pessoas sempre elogiam ou criticam o trabalho em ambas as carreiras. “Eu utilizo muitas técnicas que conheci por causa do jiu-jitsu na minha profissão. Acho que a chave para o sucesso é o que você cultiva, meu comprometimento e dedicação influenciaram. O esporte é base para formação de caráter”, afirma.

Atualmente, o ator sempre tenta treinar nos horários vagos. Pretende ensinar a modalidade que ama para o pequeno Théo, seu filho que tem quase um ano. “Quero mostrar esse esporte para meu filho, uma modalidade que eu admiro muito. Agradeço todos os dias por ter o meu filho, ele é um bebe muito simpático e alegre”, sonha o ator.

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