*por Rodrigo Otávio
O retorno do “Você Decide”, na Globo, escancara um dilema que há anos acompanha a televisão aberta brasileira: a dificuldade de olhar para o futuro. Em vez de investir na criação de formatos inéditos, capazes de dialogar com novas audiências e com as transformações do consumo audiovisual, a TV segue recorrendo ao próprio passado — um passado, é verdade, glorioso e repleto de acertos, mas que não pode servir eternamente como plano de negócios.
É compreensível que o cenário atual seja muito mais complexo do que aquele enfrentado pelas emissoras nos anos 1990. A concorrência das plataformas de streaming, das redes sociais, dos criadores independentes de conteúdo e a pulverização da audiência transformaram radicalmente o mercado. Soma-se a isso uma realidade financeira bastante diferente daquela vivida pelas grandes redes em seu auge. Ainda assim, a reutilização de marcas consagradas não pode ser confundida com inovação.

“Você Decide” virou quadro no “Domingão” (Foto: Reprodução)
O episódio de estreia do “Você Decide”, agora reduzido à condição de quadro do “Domingão com Huck”, reforça essa sensação. A nova versão parece ter sido cuidadosamente domesticada para caber dentro dos limites da programação vespertina. Luciano Huck intervém excessivamente no desenrolar da narrativa e, principalmente, na condução da decisão final. Ao solicitar opiniões dos artistas convidados logo após a exibição do primeiro bloco da história, o apresentador acaba direcionando o olhar do público e enfraquecendo a essência do formato, cuja principal força sempre esteve justamente na liberdade de julgamento do telespectador.
O conflito apresentado na estreia era relativamente ingênuo. Embora produza alguma inquietação moral, girava em torno da revelação ou não de uma traição amorosa. O problema não está exatamente no tema, mas na falta de contundência dramática. O “Você Decide” original se tornou um fenômeno porque colocava o público diante de dilemas genuinamente desconfortáveis, capazes de dividir opiniões e provocar debates nacionais.
É difícil imaginar que a atual versão, exibida nas tardes de domingo, tenha espaço para abordar questões semelhantes às que marcaram a fase clássica do programa. Em 1998, por exemplo, um episódio discutia se um homem deveria ou não revelar que sua esposa trabalhava como atendente de um serviço de sexo por telefone — uma situação que, em tempos contemporâneos, poderia facilmente ser adaptada para o universo das plataformas de conteúdo adulto ou das cam girls. Já em 1993, o programa colocou os espectadores diante da escolha sobre cometer ou não um homicídio. No mesmo ano, outro episódio abordava a decisão de interromper ou não uma gravidez resultante de estupro. Eram temas complexos, espinhosos e carregados de implicações éticas, sociais e emocionais.

Susana Werner à frente do Você Decide. Programa foi sucesso nos Anos 90, mas apresentado por Susana, em 2000, fracassou (Foto: Reprodução)
Naturalmente, uma atração exibida no horário vespertino dificilmente terá liberdade para tratar de assuntos dessa natureza. O resultado é um formato que preserva a embalagem do produto original, mas esvazia parte significativa de sua potência dramática.
Outro aspecto que chamou atenção negativamente foi a inserção comercial do iFood na passagem para o segundo bloco. A ação publicitária surgiu de maneira pouco orgânica e sem o cuidado necessário para preservar a fluidez narrativa. Em um produto que tenta recuperar a imersão do público, interrupções comerciais mal integradas acabam funcionando como ruídos desnecessários.
Há ainda uma questão mais grave e recorrente na indústria audiovisual brasileira: a ausência de créditos adequados para todos os profissionais envolvidos na produção. A dramaturgia do atual “Você Decide” é assinada por Nelito Fernandes e Leonardo Lanna, com direção artística de Paulo Silvestrini. Trata-se de uma discussão que mereceria atenção mais firme do Sated, o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões. O problema não é novo. As chamadas “novelinhas verticais” produzidas para plataformas digitais da própria Globo sofreram críticas semelhantes. Em alguns casos, sequer os nomes dos atores eram devidamente exibidos ao público. Houve avanços recentes, mas a questão está longe de ser resolvida.

Diretor artístico da dramaturgia do quadro ‘Você Decide’, Paulo Silvestrini orienta equipe (Foto: Divulgação/Globo)
No fim das contas, o novo “Você Decide” ainda precisa provar sua razão de existir. O episódio inaugural deixou uma sensação estranhamente morna, como se estivéssemos diante de uma reprodução insossa de algo que já funcionou muito melhor em outro contexto histórico. Falta risco. Falta ousadia. Falta a coragem de compreender que nostalgia não substitui criatividade.
A televisão aberta brasileira continua olhando para trás em busca de respostas, mas demonstra pouca disposição para experimentar caminhos inéditos. Recuperar marcas conhecidas pode gerar curiosidade inicial, mas dificilmente será suficiente para formar uma nova geração de espectadores. Afinal, quem assistiu ao “Você Decide” dos anos 1990 já conhece a fórmula. O verdadeiro desafio é conquistar aqueles que nunca tiveram o hábito de ligar a televisão para acompanhar uma história interativa. E, até aqui, essa resposta ainda não apareceu.
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