Na época, o horário das 18h era dedicado às adaptações literárias. Muitas já haviam sido exibidas, como “O Noviço” (1975), “Helena” (1975) e “Senhora” – a primeira novela das 18h a cores, também de 1975, cuja protagonista, vivida por Norma Blum chamava Aurélia. Inclusive, esta última foi substituída por “A Moreninha“. Em um artigo assinado por Arthur da Távola de 08/02/76, destacou a irregularidade do elenco, mencionando que alguns atores não estavam à altura da produção. Távola afirmava que Haroldo de Oliveira (1942-2003) “merecia destaque”. Ele também apontava que Haroldo era “o maior nome da novela”, enquanto observava que Nívea Maria “talvez não fosse a mais indicada, em razão da sua idade”. A trama ainda marcou o retorno de Magalhães Graça (1928-1989) às novelas, um nome de peso da dublagem da época. Jaime Barcelos (1930-1980), que interpretava um dos personagens centrais, também foi criticado por Távola, que o considerou “excessivamente teatralizado”.

Natália do Valle em “A Moreninha” (Foto: Divulgação/Globo)
Em outro artigo, Távola criticou a falta de unidade na interpretação do elenco, mas, posteriormente, fez elogios à adaptação: “um dos melhores trabalhos de adaptação que jamais vi no Brasil”, destacando especialmente a fusão entre “A Moreninha” e “Memórias da Rua do Ouvidor“, ambas de Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882). Em julho de 1975, quando foi oficializado que A Moreninha seria a próxima novela das 18h, chegou a ser anunciado que Sonia Braga viveria a protagonista Carolina. No entanto, o papel acabou ficando com Nívea Maria. A observação de Távola sobre a idade da atriz não era irrelevante: afinal, Nívea tinha 28 anos e interpretava uma adolescente.
Só tenho feito papéis ingênuos, jovens, o que me deixa muito inibida. Ser estrela é uma ilusão” – Nívea Maria, em 1975 (O Globo)
Foi a primeira parceria de Nívea com o diretor Herval Rossano, com quem trabalharia em várias novelas do horário das seis na Globo, entre 1976 e 1982: “O Feijão e o Sonho”, “Dona Xepa”, “Maria Maria”, “Olhai os Lírios do Campo” e “Terras do Sem Fim”. Herval planejava adaptar diversas obras literárias para o horário, mas nem todas foram ao ar. Algumas, inclusive, mudaram de autor. “Olhai os Lírios do Campo”, por exemplo, seria feita por Gilberto Braga, mas acabou nas mãos de Geraldo Vietri. Já “Sinhazinha”, que teria Sonia Braga como protagonista, e “A Pata da Gazela”, que seria adaptada por Braga, nunca saíram do papel. As adaptações seguintes de Gilberto Braga foram “Escrava Isaura” e “Dona Xepa”, ambas dirigidas por Herval Rossano.

Nivea Maria em “A Moreninha”. Remake de 1975 imortalizou-a como a personagem do livro de Joaquim Manuel de Macedo (Foto: Acervo Globo)
A ideia de adaptar A Moreninha veio do desejo de Herval Rossano de trazer para o Brasil um conceito que ele viu no Chile, chamado “A Antologia do Conto“, que aproveitava temas de autores chilenos e latinos. Curiosamente, na semana em que esta matéria foi escrita, Marcos Rey, se estivesse vivo, completaria 100 anos. O papel masculino principal de “A Moreninha” foi disputado entre Dennis Carvalho, Mário Cardoso e Marcos Paulo, cabendo a Mário Cardoso a interpretação do jovem Felipe.
A primeira versão televisiva da história foi produzida pela TV Tupi do Rio de Janeiro, em 1956, exibida às terças e quintas-feiras, às 20h, com Yoná Magalhães (1935-2015) e Paulo Porto (1917-1999) nos papéis principais. Durante a semana de 20 a 24/10/1975, os atores Marco Nanini e Nívea Maria puderam ser vistos em duas produções da Globo simultaneamente: na primeira semana de exibição de “A Moreninha”, interpretando Felipe e Carolina, e na última semana da novela das dez, “Gabriela”, na qual viviam o Professor Josué e Jerusa. O bom desempenho de Eduardo Tornaghi em A Moreninha lhe garantiu o papel de protagonista da novela seguinte, “Vejo a Lua no Céu”. Outras versões televisivas da obra foram produzidas: em 1959, pela TV Tupi de São Paulo, com adaptação de Tatiana Belinky (1919-2013) e direção de Júlio Gouveia; em 1961, pela TV Itacolomi de Belo Horizonte, adaptada por Léa Delba.
A “Moreninha” foi reprisada em duas ocasiões no início da tarde: entre 23/08 e 10/12/1976, quando a faixa Vale a Pena Ver de Novo ainda não tinha esse nome, e entre 04/10 e 31/12/1982, já como Vale a Pena Ver de Novo.

Mário Cardoso em “A Moreninha” (Foto: Reprodução/Globo)
A Produção
A cena da Retirada de Laguna foi gravada em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, e contou com o uso de quarenta fuzis de época e um canhão da Guerra do Paraguai. O Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro cedeu quatro fuzis para compor a cena, que foi ao ar no capítulo 44.
A pesquisa de arte na Globo era liderada por Arlindo Rodrigues, que já trabalhava como carnavalesco. Os trabalhos de figurino em “A Moreninha” foram realizados por Marilena Cury, em parceria com outro renomado carnavalesco, Clóvis Bornay. Arlindo Rodrigues reaproveitou figurinos de “Gabriela”, do mesmo ano, e até peças de “Roque Santeiro”, novela censurada na época. A “Moreninha” chegou a marcar 70 pontos de audiência, superando sua antecessora, “Senhora”. A novela apresentava uma linguagem híbrida, mesclando o português do século XIX com o de 1975, tornando-se um dos destaques da teledramaturgia da época.

Haroldo de Oliveira. Destaque de “A Moreninha” (Foto: Reprodução/Globo)
A Moreninha (1965) – Uma das primeiras novelas da Globo
A primeira versão da trama de Joaquim Manuel de Macedo exibida pela Globo é envolta em mistério. Não há absolutamente nenhum material em vídeo preservado, apenas algumas fotos. A emissora praticamente não tem registros de seu primeiro ano no ar, pois a curadoria de seu acervo só começou de maneira mais sistemática em 1985.
O que resta nos jornais de 1965 é muito pouco, já que as novelas ainda não recebiam grande atenção da mídia. As fitas foram reutilizadas – prática comum na época – ou se perderam em um dos incêndios na Globo (1969, 1971 e 1976). A novela estreou em 18 de outubro de 1965, sendo uma das primeiras produções da emissora, que havia sido inaugurada em abril daquele ano.
A “Moreninha” (1965) marcou a estreia das atrizes Cléa Simões e Zezé Macedo em novelas diárias. Zezé Macedo, inclusive, teve uma carreira curta na teledramaturgia, participando de poucas produções, como “Padre Tião” (1965) e “O Primeiro Amor”, sobre a qual também há poucos registros.
Nesta versão, a protagonista foi Marília Pêra e seu par romântico foi Cláudio Marzo, ambos em suas primeiras novelas na Globo. O elenco também contou com a participação de Renato Machado, que mais tarde seguiria carreira como jornalista. Para dar mais autenticidade à ambientação, o autor e diretor Octávio Graça Mello pesquisou músicas do século XIX para compor a trilha sonora da novela. O tema de abertura, no entanto, era contemporâneo: Canção do Rochedo, de autoria do próprio Graça Mello. A novela de 1965 teve 35 capítulos.

Marília Pêra e Cláudio Marzo em “A Moreninha”, de 1965 (Foto: Divulgação/Globo)
Ao revisitar “A Moreninha” e suas múltiplas encarnações televisivas, evidencia-se não apenas a relevância perene da obra de Joaquim Manuel de Macedo, mas também o papel crucial da preservação da memória televisiva brasileira. A trajetória da novela, desde sua versão inaugural em 1965 até seu aguardado retorno ao Globoplay, reflete o contínuo diálogo entre passado e presente na teledramaturgia nacional. A redescoberta dessa produção, que marcou época tanto pelo pioneirismo quanto pelo resgate do romantismo literário, reafirma a necessidade de conservar e valorizar os registros históricos da TV. Afinal, mais do que mero entretenimento, “A Moreninha” simboliza um capítulo significativo da cultura audiovisual do país.