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Nova temporada de Mister Brau debate sobre a ascensão da mulher, corrupção, guerra de classes e racismo: “Trazer esse continente africano de volta para o Brasil nos fortalece como nação”, disparou Taís Araujo

Nesta quarta temporada, o elenco viajou para Angola como uma forma de homenagear a África e todo o legado e impacto que este continente tem na história brasileira. Além disso, veremos a personagem Michele com uma carreira internacional e poderemos relembrar a icônica personagem Priscila, feita por Lázaro Ramos em 2004

Publicado em 24/04/2018 | Por Ana Clara Xavier

O seriado Mister Brau foi idealizado para ser uma temporada só. Mas o sucesso foi tanto, que o projeto já entra em seu quarto ano. E, quando se trata desta série, os assuntos estão sempre ligados a críticas sociais sobre a realidade brasileira. “A ideia é falar de uma forma humorada sobre assuntos que estão na pauta atual do Brasil. Sinto que está sendo uma vitória poder trazer estas questões e incluir outras pessoas nestas reflexões. Acho que isto explica um pouco o porquê da série ser tão querida. Cada personagem acaba se aprofundando em um tema. George Sauma, Marcelo Flores, Cláudia Missura e Fernanda de Freitas ficam no tema da corrupção e guerra de classes, por exemplo”, afirmou Lázaro Ramos, roteirista e protagonista. A trama ainda vai discutir as dicotomias entre gerações e terá a presença de Fernanda Montenegro no elenco. O resultado das novas aventuras dos Brau pode ser conferido a partir desta terça-feira.

O feminismo é um dos assuntos mais abordados nesta temporada. Dessa vez, a Michele, personagem de Taís Araujo e esposa do protagonista, se torna uma estrela internacional. “Então, tiramos o posto de herói do Brau para poder ver na tela como se dá a reconstrução deste cara que precisa lidar com a ascensão da mulher”, explicou Taís. A partir destas discussões sobre o movimento, a equipe da série resolveu tirar do papel a igualdade feminina. “Ampliamos esta visão de mundo para os bastidores e não só na tela, afinal, não adianta a igualdade ficar somente no discurso. Temos que colocar esta diversidade na criação. A ideia era que Mister Brau é uma experiência que comprova a tese de que diferença é potência. Não é apenas um trabalho de equiparação social. É reconhecer talentos e dar oportunidade para várias vozes serem escutadas no nosso ofício”, completou Lázaro Ramos.

Para representar esta ascensão da carreira de sua personagem, Taís Araujo precisou se dedicar muito às aulas de canto e dança. “Não canto e não danço, tudo o que faço são truques, por isso tento fazer o meu melhor para não dar mais trabalho para a produção. O show, as roupas, a preparação é tudo muito complicado”, comentou. Já a equipe, não concorda com essa modéstia da atriz, e reafirma que o resultado lindo das cenas é fruto de muito talento da mesma. “A Taís se doa muito para a série nestes três meses de trabalho. A dedicação e atuação dela é uma coisa absurda. Ela se enche mais de tarefas do que é pedido. Todos os dias faz aula de dança, se grava uma música e não fica satisfeita volta para o estúdio”, contou Lázaro.

Lázaro Ramos e Taís Araujo interpretam Mister Brau e Michele (Foto: Divulgação)

Desde o início da série, Mister Brau sempre discutiu muito na telinha a falta de representatividade e espaço do negro na sociedade. Coroando este debate, a equipe resolveu fazer uma homenagem ao continente africano nesta temporada. O episódio oito foi gravado em Angola, país que foi escolhido para representar a diversidade do território. “A nossa passagem por lá foi muito linda e interessante. Eles são grandes fãs da série e do Brasil como um todo e por isso resolvemos retribuir o apelo do público. No set de gravações, nós sempre falamos muito sobre a cultura angolana. A África sempre foi a nossa fonte de inspiração”, informou Lázaro. Os angolanos receberam a equipe com muito carinho, sempre lotando os espaços onde a turma iria gravar. “É uma declaração de amor ao continente africano”, afirmou Taís.

Não foi a primeira vez de Taís Araujo no país africano. A atriz já havia passado por ali outras três vezes, desde 1998. De acordo com ela, foi possível acompanhar toda a recuperação do local depois das guerras. Para ela foi muito importante poder gravar naquele território por ser uma forma de relembrar as origens dela mesma. “Pegamos essa identidade negra empoderada através das pesquisas e imprimimos no trabalho. A partir disso, tentamos mostrar o melhor de Angola, contar a história do país da melhor maneira possível com a ajuda deles. Vários artistas apareceram em massa voluntariamente nas nossas gravações para mostrar o melhor conteúdo de lá. Se aprofundar neste conhecimento é tão ou mais importante para gente do que é para eles, porque isso é uma realidade que também é nossa e se perdeu, não teve o reconhecimento merecido. Trazer esse continente africano de volta para o Brasil nos fortalece como nação”, informou.

Dessa vez, Michele terá uma carreira de projeção internacional (Foto: Divulgação)

A importância de debater sobre o racismo no Brasil fica claro dentro do próprio set de filmagens. A partir da pesquisa, os próprios profissionais se chocam com o nível de preconceito que existe no nosso país. “Logo na primeira temporada, teve um momento que vários atores estavam ensaiando e naquele dia especificamente só tinha negros. Eu era a única branca. De repente tive uma sensação de ver uma situação inversa, porque geralmente é ao contrário e nós nunca percebemos isto. Imagina todos os dias se sentir assim. Este despertar me mostrou que nós realmente não sabemos o que é o racismo. Este programa me faz entender muito mais as situações e questões. Nós não temos dimensão nenhuma e por isso devemos calar a boca. Temos que ouvir e aprender. Temos uma dívida sim e nem temos noção do tamanho”, lamentou a atriz Cláudia Missura.

Apesar de conversar sobre temas muito importantes, Mister Brau traz uma leveza para este discurso através do humor e da musicalidade de uma forma que possibilita a conversa com todas as camadas da sociedade, inclusive e principalmente, aquelas que se sentem menos representadas. Tendo noção da importância do discurso proferido pela equipe, Lázaro contou que fica até difícil de escolher o que será abordado.“Tem muita coisa que gostaríamos de falar e, às vezes, o desafio é escolher e eliminar. O Mister Brau é um campo tão novo de possibilidades criativas que pode explorar tanta coisa que o problema não é mais pensar em novidades, mas escolher quais vão aparecer”, informou.

Outra novidade desta temporada é a volta de Priscila, um papel que Lázaro Ramos interpretou em Sexo Frágil, 2004. “Me divirto muito fazendo e, dessa vez, ela terá um par romântico. Tinha até esquecido de como era o papel e por isso assisti vídeos antigos. É um personagem muito importante para mim por ter sido o primeiro de maior duração que fiz aqui na Globo. As pessoas sempre relembram dela com muito carinho. Além disso, achei interessante trazer para os dias de hoje para entender quais assuntos trataria”, comentou.

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