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No Festival de Cannes, Michael Caine manda na lata: “Faço filme há 50 anos, mas para uma geração sou só o mordomo do Batman”

Ao lado de Harvey Keitel e Jane Fonda, ator estrela "Youth" que, como em “A grande beleza” – obra anterior de Paolo Sorrentino – lança o olhar de compaixão sobre os seres humanos, sejam velhos ou jovens

Publicado em 22/05/2015 | Por Alexandre Schnabl

*Por Flávio Di Cola, diretamente de Cannes

De uns quinze anos para cá, os críticos de cinema e da cultura em geral têm notado uma presença cada vez mais forte de dois temas na produção artística mundial: memória e corpo. Ou seja, a milenar preocupação dos seres humanos pela salvação da alma através de um percurso de vida pautado no cultivo de virtudes que consagravam os conceitos de Deus, família e pátria foi decididamente abandonada. Ao invés disso, as pessoas hoje estão muito mais preocupadas em como lidar com as perdas decorrentes de uma vida cada vez mais longa e – já que estamos vivendo praticamente o dobro do tempo em relação aos nossos antepassados – como fazer com que o nosso corpo continue razoavelmente competitivo na corrida pela sobrevivência. Perdas, envelhecimento e morte sempre foram árduas questões para a raça humana, mas não da forma particularmente angustiante como elas estão sendo encaradas no presente. E é exatamente sobre essa angústia que Paolo Sorrentino debruça no seu sétimo longa-metragem para o cinema, terceiro e último concorrente da Itália à Palma de Ouro a ser apresentado no Festival de Cannes.

"Youth", nova empreitada cinematográfica de Paolo Sorrentino, vencedor dos Oscar de 'Melhor Filme Estrangeiro' em 2014, por "A grande beleza" (Foto: Divulgação)

“Youth”, nova empreitada cinematográfica de Paolo Sorrentino, vencedor dos Oscar de ‘Melhor Filme Estrangeiro’ em 2014, por “A grande beleza” (Foto: Divulgação)

Não há propriamente uma trama em “Youth” (ou La giovinezza, como insistem alguns críticos escandalizados com o abandono da língua italiana neste e no filme de Matteo Garrone, também no páreo pelo prêmio máximo do festival) e sim um encadeamento de pequenos incidentes vividos nos limites de um SPA exclusivíssimo nos Alpes suíços por um grupo heterogêneo de clientes em tratamento, como um monge budista, um célebre e fanfarrão jogador do futebol de certo país do cone sul-americano deformado pelo excesso de peso, e até mesmo a Miss Universo que ganhou uma semana de tratamento na badalada clínica.

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Entre eles estão dois velhos (no sentido lato e literal) amigos: Fred (Michael Caine, sublime), famoso maestro aposentado e insistentemente assediado por um enviado da Rainha da Inglaterra com o convite para reger um último (e fútil) concerto beneficente, e Mick (Harvey Keitel), típico diretor de cinema de Hollywood que perdeu o último bonde da indústria, mas que acalenta o projeto de realizar um filme de “virada” para o qual convidou sua antiga estrela Brenda Morel (Jane Fonda, que atua numa única e magistral cena parecendo uma Dolly Parton que foi retirada de um barril de picles).

Confira abaixo o trailer oficial (Divulgação):

Há também Lena (Rachel Weisz), a filha e assistente de Fred que está vivendo uma separação matrimonial e uma séria crise de auto-estima, mas que acaba reencontrando o élan da vida nos braços de um tímido alpinista. Para completar o quadro, a clínica ainda abriga um jovem astro do cinema (Paul Dano) que deve a sua fama nas telas ao patético personagem de um herói-robô, mas que agora investe na pesquisa de um novo e surpreendente personagem retirado da história da humanidade (não se preocupe, não há spoiler).

Maturidade com conteúdo ou juventude vazia? No apapel de um jovem astro que faz papel de super-herói em Hollywood, Paul Dano dá o contraponto aos personagens de Caine e Keitel, expoentes da terceira idade em "Youth" e na Sétima Arte (Foto: Divulgação)

Maturidade com conteúdo ou juventude vazia? No papel de um jovem astro que faz papel de super-herói em Hollywood, Paul Dano dá o contraponto no longa a Caine e Keitel, expoentes da terceira idade em “Youth” e na Sétima Arte (Foto: Divulgação)

Dia após dia, no transcurso ameno dos mais cuidadosos tratamentos, Fred e Mike se expõem – numa sucessão de sequências e diálogos tão irônicos como deliciosos – numa espécie de inventário sobre a vida que tiveram, calculam prejuízos e ganhos, destilam fracassos e frustrações, e invejam a juventude que se foi e que desfila escandalosamente na frente deles, como na magnífica cena que pode ser considerada a emblemática de “Youth”: diante da espetacular chegada à piscina térmica de Miss Universo (a modelo italiana Madalina Ghenea) completamente nua, Fred – com o queixo caído – pergunta a Mike que “aparição” fabulosa era aquela, ao que o amigo simplesmente responde – “Deus”.

A top italiana Madalina Ghenea interpreta uma Miss Universo que ganhou uma temporada no spa dos Alpes e é fruto da atenção dos personagens de Caine e Keitel (Foto: Reprodução)

A top italiana Madalina Ghenea interpreta uma Miss Universo que ganhou uma temporada no spa dos Alpes e é fruto da atenção dos personagens de Caine e Keitel (Foto: Reprodução)

A perda da juventude e as trágicas consequências para aqueles que querem recuperá-la a todo custo são temas presentes no espírito humano desde as mais remotas mitologias. O cinema não ficou atrás e criou estudos fascinantes sobre o assunto:

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Aliás, o forte apelo visual – qualidade já constante da filmografia do diretor Paolo Sorrentino – tem se manifestado nos seus dois filmes mais recentes – “A grande beleza” (La grande bellezza, 2013) e agora em “Youth” – através de um sentido de beleza plástica que beira a perfeição, mas que parece revelar – paradoxalmente – uma nostalgia e também uma crítica feroz ao mundo das aparências. Esse poderoso aspecto estilístico das obras de Sorrentino deve ser creditado à câmera elegante do seu colaborador habitual desde “As consequências do amor” (Le conseguenze dell’amore, 2004), Luca Bigazzi.

Trailer oficial de “A grande beleza” (Divulgação)

Portanto, quem assistiu e gostou de “A grande beleza” não vai se decepcionar com este novo filme do diretor, embora talvez se ressinta do ritmo um pouco mais lento de “Youth” em relação à obra anterior que consagrou Sorrentino mundo afora a ponto de tornar-lhe possível reunir um elenco tão ilustre formado pela trinca Caine-Keitel-Fonda cujos desempenhos constituem um espetáculo à parte. Mas neste novo longa encontramos, como sempre, as marcas reconhecidas dos mestres do cinema italiano que marcaram a formação de Paolo Sorrentino, como Francesco Rossi (a quem é dedicada a obra), Luchino Visconti e, principalmente, Federico Fellini.

Sorrentino comemora a vitória de seu "A grande beleza" no Oscar 2014, quando arrebatou o prêmio de 'Melhor Filme Estrangeiro" (Foto: Divulgação)

Sorrentino comemora a vitória de seu “A grande beleza” no Oscar 2014, quando arrebatou o prêmio de ‘Melhor Filme Estrangeiro” (Foto: Divulgação)

Se em “A grande beleza” o cineasta estabeleceu uma ponte conceitual e estilística com “A doce vida” (La dolce vita, 1960), desta vez, ele recorre ao filme-chave do universo felliniano (e da história da Sétima Arte) “Fellini 8 ½” (Idem, 1963) para discutir com indisfarçável sarcasmo o “futuro” do cinema – agora confundido com o da própria TV ou dependente de ridículos super-heróis), a inutilidade da fama quando desacompanhada da juventude, a perda da memória que leva junto pedaços inteiros da existência, a solidão que só aumenta com o passar dos anos, as culpas adormecidas que voltam para assombrar e o insuportável fardo reservado aos velhos para se manterem “em forma”, entre tantos outros assuntos com que já nos defrontamos ou nos defrontaremos.

Assista abaixo ao trailer de “Fellini 8 ½”, obra-prima de Federico Fellini que tem ligação com a nova produção dirigida por Sorrentino e que também inspirou o musical “Nine” (Reprodução): 

Mas, apesar da pauta de questões sombrias levantada em “Youth”, Sorrentino tem insistido nas entrevistas que vem dando em Cannes de que seu filme é otimista: “O tempo que passa é também aquele que nos resta. O tempo que vai sobrando nos dá uma sensação de liberdade, e esta nos confere uma espécie de juventude. ‘Youth’ é, sim, otimista. Fiz esse filme para exorcizar alguns dos nossos medos”, declarou.

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Michael Caine, que veio a Cannes especialmente para defender o filme por que adorou fazê-lo, também se manteve no mesmo tom de positividade e humor em relação às questões incômodas como a velhice e a decadência física, além de brincar com a longevidade da sua própria carreira: “Estou no cinema há cinqüenta anos, mas para uma nova geração de espectadores eu sou apenas o mordomo do Batman”. E diante de uma impertinente e jovem jornalista que lhe perguntou – durante a entrevista coletiva que a equipe de “Youth” concedeu logo após a projeção – se ele não se incomodou com as tomadas em close up, respondeu: “Minha filha, eu pouco me importo. Este é o único corpo que tenho e seu aspecto atual é daquele que chegou a uma idade avançada. E isso logo vai acontecer com você também”.

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*Flávio Di Cola é publicitário, jornalista e professor, mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ e ex-coordenador do Curso de Cinema da Universidade Estácio de Sá. Apaixonado pela sétima arte em geral, não chega a se encantar com blockbusters, mas é inveterado fã de Liz Taylor – talvez o maior do Cone Sul –, capaz de ter em sua cabeceira um porta-retratos com fotografia autografada pela própria 

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