*por Vitor Antunes
Hoje, 6 de abril, é Dia Internacional da Visibilidade Assexual, uma data importante de reconhecimento da luta de pessoas assexuais no combate ao preconceito e inclusão. A novela “Vale Tudo” vem suscitando discussões, especialmente pelos toques de modernidade que propõe – e que precisam acontecer, considerando que a novela original foi exibida há quase 40 anos, em um contexto do começo da abertura após o terror da ditadura. Na nova versão de “Vale Tudo“, um dos temas em pauta é a assexualidade, representada pelo personagem Poliana, vivido por Matheus Nachtergaele. Diferente da versão original, na qual Poliana era um homem heterossexual sensível e discreto, agora ele será um homem assexual, passando intocado pelos envolvimentos amorosos. A própria adaptadora, Manuela Dias, explicou a decisão, à Revista Marie Claire: “Ele tem um romance com a Maria de Fátima [NOTA: Na entrevista, Manuela referencia-se à Maria de Fátima, mas trata-se de um ato falho. A personagem seria Raquel, a quem Poliana teria uma paixão platônica] que nunca progrediu, é muito mais uma coisa de olhar do que de sexo. Eu pensei: ‘Cara, ele é assexual’. Comecei a pesquisar e temos uma comunidade de mais de 4 milhões de assexuais no Brasil”. O nome verdadeiro de Poliana é Audálio, mas ele recebe esse apelido como referência ao romance “Pollyanna”, de Eleanor H. Porter (1868-1920), por seu comportamento otimista e sua capacidade de sempre enxergar “o lado bom das coisas”.
“Vale Tudo“, em sua primeira montagem, trouxe à tona o tema da bissexualidade através de César, que, além de tudo, era um garoto de programa oportunista. No desfecho, ele termina a trama ao lado de um conde – e de Maria de Fátima. Um exemplo de vilão que se dá bem. Ainda na primeira versão da trama, a diversidade foi abordada por meio das personagens Laís e Cecília, interpretadas por Cristina Prochaska e Lala Deheinzelin, respectivamente. A relação das duas gerava discussões sobre herança em uniões homoafetivas, especialmente em um período no qual não havia legislação que garantisse direitos para casais LGBT+ em caso de falecimento de um dos cônjuges. É importante destacar que, apesar dos avanços na legislação atual, ainda há dispositivos legais que enquadram essas uniões como “convivências” ou “amigamentos”, demonstrando que a luta por direitos permanece. Outro aspecto polêmico da versão original foi o fato de Odete Roitman, uma mulher idosa, ser sexualmente ativa, um elemento que adicionava complexidade à sua personalidade e gerava discussão sobre a sexualidade na terceira idade.
A assexualidade é um tema pouquíssimo abordado de forma contundente nas novelas. Além de “Vale Tudo“, só foi tratado em “Travessia” por meio dos personagens Caíque (Thiago Fragoso) e Rudá (Guilherme Cabral). Rudá era um adolescente que não sentia atração sexual ou romântica por outras pessoas, enquanto Caíque, embora sentisse atração, não tinha desejo sexual, sendo caracterizado como demissexual. Na trama, Caíque namorava Leonor (Vanessa Giácomo), o que enfatizava sua vivência demissexual.

Caíque (Thiago Fragoso) e Leonor (Vanessa Giacomo) eram namorados em “Travessia”. Ele era demissexual (Foto: Divulgação/Globo)
É fundamental esclarecer que a assexualidade é diferente do celibato ou da abstinência, pois estas são escolhas comportamentais. Muitos personagens solteiros ou celibatários nas novelas representam essa escolha, enquanto a assexualidade é uma orientação sexual. No caso de Poliana, ainda não é possível determinar a qual espectro da assexualidade ele pertence, pelo menos até o momento.

Guilherme Cabral era Rudá, em “Travessia”. Um adolescente assexual arromântico (Foto: Divulgação/Globo)
O QUE É ASSEXUALIDADE?
A assexualidade é uma orientação sexual na qual a pessoa não sente atração sexual por outras pessoas. Sim, trata-se de uma orientação sexual, tal como a homo, hétero ou bissexualidade. Pessoas assexuais podem ser chamadas de “Ace” ou “Ases”. Dentro desse espectro, há diferentes classificações:
- Greyssexuais (ou da “área cinzenta”): sentem atração em momentos muito específicos.
- Demissexuais: só sentem atração sexual após formarem uma forte conexão emocional.
- Assexuais românticos: podem sentir atração romântica e se dividir em heterorromânticos, homorromânticos e birromânticos.
- Assexuais arromânticos: não sentem atração romântica por ninguém.
Apesar da diversidade de experiências, a assexualidade ainda é alvo de preconceito e incompreensão. O preconceito se mostra na invalidação, como se a assexualidade não existisse, fosse frescura, ou invenção de moda, ou ainda a criação de uma orientação sexual. Há ainda a patologização, a ideia de que a assexualidade seria causada por traumas, disfunção hormonal ou decepção amorosa. Quando surge em conversas, a patologização costuma ser mais uma acusação do que uma pergunta. O interlocutor pensa: ‘se todas as pessoas saudáveis sentem atração sexual, você é doente'”.

Poliana (Matheus Nachtergaele) é assexual, em “Vale Tudo” e melhor amigo de Raquel (Taís Araújo) (Foto: Divulgação/Globo
A assexualidade tornou-se mais conhecida como orientação sexual com a criação da AVEN (Asexual Visibility and Education Network), uma comunidade virtual fundada em 2001 para disseminar informação sobre o tema. No entanto, registros de ativismo assexual são mais antigos. Um dos primeiros registros está no “Manifesto Assexual”, escrito por Lisa Orlando e publicado em 1972 pelo New York Radical Feminists (NYRF). A internet foi fundamental para a construção de uma rede global de apoio e ativismo, impulsionando a visibilidade da comunidade assexual em diversas partes do mundo.
Embora as classificações dentro da assexualidade sejam importantes para fins didáticos, nem todas as pessoas assexuais se identificam com elas. O consenso dentro da comunidade é que essas categorias podem ajudar no entendimento e reconhecimento da diversidade assexual, mas não são essenciais para o autoconhecimento de cada indivíduo.
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