*por Vítor Antunes
A atriz Francisca Queiroz acumula décadas de experiência no teatro, no cinema e na televisão brasileira. Ao longo da carreira construiu uma trajetória sólida, marcada por personagens intensos e por uma presença cênica que sempre chamou atenção do público e da crítica. Agora, encara um novo desafio: leva aos palcos a sua primeira montagem autoral, assinada por ela própria e dirigida por Ernesto Piccolo. Trata-se de “Ela e Algumas Histórias”, espetáculo que mergulha nas múltiplas camadas das experiências femininas. A peça se propõe a discutir questões que vão além de estereótipos e discursos prontos — um olhar íntimo e crítico sobre o que significa ser mulher na contemporaneidade. “Abordamos essencialmente a alma feminina. Tem coisas que só as mulheres conhecem; um homem pode supor o que seja. São temas que nos são urgentes, que nos são caros, que precisam ser mudados, que não podem mais estar do jeito que estão”, reflete a atriz, que assina também o texto.
Atualmente no ar em “A Vida de Jó”, minissérie bíblica da Record e da plataforma UniverVideo, Francisca Queiroz tem se debruçado sobre um desafio artístico e histórico: dar vida a personagens femininas em um contexto no qual, por séculos, as mulheres foram invisibilizadas. A superprodução bíblica, segundo a atriz, reflete a evolução técnica e estrutural da emissora nos últimos anos. “Eu acho que as novelas bíblicas avançaram muito. Vejo outras produções procurarem a Record para poder rodar filmes. Então isso é muito bacana”, comenta.
Eu acho que os assuntos femininos, eles ainda são muito embrionários. A gente começou a falar sobre eles, mas eles ainda, na sua maioria, estão no discurso. A prática, a execução ainda não acompanham a força do discurso. Hoje tem muito discurso sobre o empoderamento, sobre a sororidade, sobre o etarismo. Todos eles estão em pauta. Só que nem todos — e pouquíssimos — a gente conseguiu realmente ter avanços. Na vivência, a gente está apanhando muito. Então tem um caminho a percorrer ainda” – Francisca Queiroz
Essa estrutura, porém, contrasta fortemente com os primórdios da teledramaturgia da emissora — período do qual Francisca foi testemunha direta. A atriz integrou o elenco de “Metamorphoses”, novela lembrada até hoje como um dos projetos mais problemáticos da Record. “Nesta, o princípio do entretenimento se perdeu por conta da pobreza mesmo, da falta de administração, da falta de foco para aquilo que se estava propondo. Muita coisa se perdeu. A novela tinha um projeto com bons atores, como Joanna Fomm, Paulo Betti, Myriam Muniz, Gianfrancesco Guarnieri. Era um projeto muito ambicioso. Mas que degringolou, foi um filme de terror”, recorda.
Ao colocar lado a lado “Metamorphoses” e “Máscaras” — outra produção da emissora que não obteve o sucesso esperado —, Francisca observa que, embora os problemas tenham sido distintos, ambos exigiram dela maturidade e posicionamento. “Foram problemas diferentes, mas situações ruins que vivi. Com o tempo a gente vai se desapegando dos fracassos. Em ambas foram situações difíceis, mas de muito aprendizado, onde eu tive que me colocar bastante e muito jovem. E isso me deu um estofo. “Metamorphoses” foi uma loucura, um estresse. Colocaram um elenco inteiro num flat, e sempre tinham pessoas estranhas circulando entre nós. Houve um momento em que todo mundo – direção, autores e técnicos foram mandados embora. E a dona da Casablanca, a produtora, começou a escrever”, afirma.
Em “Máscaras”, inclusive, Francisca protagonizou um episódio marcante ao recusar uma cena por considerar que a sequência tinha caráter apelativo. “Houve uma cena que eu me neguei a fazer. Eu não tenho problema em fazer cenas de sexo — já fiz um monte —, mas me neguei a ser usada como recurso para levantar uma audiência. Nesta novela começaram a chegar cenas mais apelativas, a ponto de eu ter ido reclamar com o diretor e de ter acabado deixando a novela. Cenas dessa natureza, quando têm a ver, quando contribui para a narrativa, para entender aquela paixão, aquilo tudo, acho justo. Mas quando é gratuito, é horrível. E não é uma coisa muito incomum a gente ver o uso do corpo da mulher como moeda de troca para audiência”, conclui.

Francisca Queiroz fala sobre mulheridade em nova peça (Foto: Nana Moraes)
No ar, em “A Vida de Jó”, minissérie bíblica da Record e da plataforma UniverVideo, Francisca reflete com profundidade sobre o processo de atuação em uma produção de época, que exige tanto rigor técnico quanto sensibilidade para recuperar vozes silenciadas.
“Eu acho que fazer novela bíblica é realmente muito difícil. É trazer uma verdade para dentro de todo o contexto. Eu acho que essas mulheres fortes, no decorrer da história, foram silenciadas, mas tiveram importâncias. Acontece que não se conta — a história é contada pela perspectiva do vencedor, que é sempre um homem. Então esse lugar das mulheres, das histórias, das suas obras, dos seus escritos, dos seus pensamentos, esses todos não foram registrados, foram silenciados. Eu acho que esse é o grande movimento que a gente vai ter para frente: deixar um legado para as mulheres – das conquistas que antes foram apagadas”, afirma.
A ESCRITORA QUE NASCEU DA ATRIZ
Antes de se lançar como autora teatral, Francisca passou por um período de transição. Depois de anos conciliando a atuação com estudos acadêmicos, decidiu dedicar-se com mais afinco à escrita. “Há uns 15 anos atrás, eu já fiquei com uma vontade de começar a passear por outros departamentos, no sentido de querer fazer outras coisas. Fui fazer faculdade de Letras, depois estudar roteiro em Los Angeles, entre uma novela e outra. Até que me senti preparada e com vontade de fazer coisas que tivessem a minha voz”, relembra.
Segundo a atriz, a escrita surgiu como uma necessidade pessoal de expressão autoral. “Como atriz, você faz muito trabalho do autor, ainda que isso seja algo maravilhoso. Mas você co-cria — a voz é dele. Eu fiquei com vontade de passar a minha perspectiva do mundo, o que eu tenho para dizer também. Eu não tinha essa experiência de escrever teatro, então o diretor Ernesto Piccolo, realmente, me deu a mão e me ajudou. Ele conhece tudo de comédia, tudo. A comunicação precisa ser mais precisa. Ela é uma escolha também, tem uma série de fatores. Mas eu acho que foi importante. Foi um processo amoroso”.
Os próximos passos já estão traçados: “Iremos para o Nordeste, já recebeu convite de Salvador. O investimento de tempo e financeiro é muito grande. Eu quero que a peça tenha uma vida mais longa. É um projeto assinado por mim”, projeta.

Francisca Queiroz afirma que montagem surge da necessidade de pensar o feminino (Foto: Nana Moraes)
MATERNIDADE SEM CULPA
Em um meio no qual mulheres frequentemente enfrentam cobranças para conciliar carreira e maternidade, Francisca fala com franqueza sobre sua relação com os filhos — e sobre não carregar culpas que costumam acompanhar muitas profissionais. “Eu não sinto culpa. Eu vejo hoje muitos discursos das mulheres falando sobre culpa, e eu não tenho. Especialmente por ter uma consciência mais que absoluta de que eu dou para os meus filhos o que eu tenho de melhor. Eles são realmente uns amores. A coisa mais acertada da minha vida, que eu tenho mais certeza, é o experimentar um amor que não existe. Mas eles sabem que eu preciso trabalhar. Eu gosto que os meus filhos vejam a mãe trabalhando, a mãe produzindo, a mãe sendo criativa”, afirma.
A atriz faz questão de equilibrar os tempos de trabalho e de afeto, sem idealizações. “Eu não sou nenhuma doente, no sentido de ser workaholic. Eu sei quando estou com eles, e eu sei quando estou trabalhando. O que eu fico é atenta: às vezes, quando o ritmo de trabalho acelera muito, eu vou ficando atenta em casa para saber qual deles tá precisando mais e o que eu tenho que fazer. Mas não chega a ser culpa. Chega a ser, assim, atenção e alerta”, define.
Francisca também reflete sobre sua postura diante da carreira e da indústria televisiva. Longe de alimentar deslumbramentos, ela valoriza o exercício contínuo do ofício de atriz, independentemente do tamanho da emissora ou do projeto. “Eu nunca fui uma pessoa que ficou num certo deslumbramento, no sentido de ‘ai, eu quero ser uma estrela, eu quero ficar ali atrás da Globo’. Eu sou muito pé no chão. Eu preciso viver do que eu faço”, diz.

Francisca Queiroz: “Eu sou muito pé no chão. Eu preciso viver do que eu faço” (Foto: Nana Moraes)
Com mais de duas décadas de carreira, ela observa os bastidores com a serenidade de quem já viu ciclos se repetirem. “Eu vi muitos, na minha carreira — que já tem mais de 20 anos —, às vezes as pessoas declinando convites porque ficam na espera de alguma coisa, na espera de ser chamada, na espera de estar num tal lugar”.
Entre palcos, câmeras e páginas em branco, Francisca Queiroz segue trilhando um caminho que é, antes de tudo, de autoria própria. Sua trajetória é a de uma mulher que aprendeu a habitar muitos espaços sem pedir licença: da atriz intensa que enfrentou bastidores turbulentos à autora que reivindica a palavra como instrumento de transformação. Ao falar de maternidade sem culpa, de personagens femininas silenciadas pela história e de uma carreira conduzida com os pés firmes no chão, Francisca reafirma que a arte — quando feita com verdade — não se curva a modismos nem a ilusões passageiras. Ela escreve, atua e pensa com a mesma precisão de quem sabe que deixar um legado é, também, devolver voz a quem tantas vezes foi calada.
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