*por Vítor Antunes
Um sorriso largo no rosto, o humor sempre à frente, o Rio de Janeiro como paisagem íntima e o Salgueiro como território afetivo. Talvez seja por esse conjunto de sinais identifique Eri Johnson. O ator volta ao teatro com “Aluga-se um Namorado”, comédia que estreou em 1992 e o trouxe, ainda jovem, como protagonista. Trinta e poucos anos depois, a peça retorna em nova montagem, no Rio. Apesar de ter o nome profundamente associado às novelas, Eri não demonstra qualquer nostalgia pelo formato. “Eu não tenho mais tempo para isso, não. Eu não me vejo também porque eu fui de uma época em que eu gostei muito de trabalhar em cima de felicidade. Eu quero trabalhar muito com amigos e amigas, porque eu vejo uma parceria muito honesta, muito forte. Eu trabalhei com Paulo Ubiratan (1947-2003), com Roberto Talma (1949-2015), diretores, e Wolf Maya — que me lançou. Hoje eu vejo alguns colegas, amigos, fazendo novela e parece que nada mudou, tudo muito parecido demais”. Sua estreia em novelas volta agora ao circuito da memória: Hipertensão (1987), primeira novela de Eri, está sendo reprisada no canal Globoplay Novelas, o antigo Viva.
Eu não tenho tempo nem interesse em fazer novela, mas sou muito grato – Eri Johnson
Uma de suas marcas mais evidentes, a famosa pinta no rosto, foi alvo de debate logo no início da carreira. Em determinado momento, ela deixou de ser traço e virou obstáculo: “Lá no começo, Carlos Manga (1928-2015) sugeriu tirar para não ficar marcado como ‘aquele ator que tem uma pinta no rosto’. Eu saí da sala dele pensando: ‘Eu quero ser esse ator aí, marcado, que tem a pinta no rosto’.”
Paralelamente ao teatro, Eri também aparece na televisão, agora na Band, como uma espécie de anfitrião do programa “Som dos Oceanos”. Ainda assim, rejeita o rótulo de apresentador. “Eu não me considero apresentador. Eu falo isso porque eu sou um cara que bota papo com os amigos. Seria muita pretensão da minha parte dizer: ‘Eu sou apresentador de um programa’. Não sou. Eu sou um condutor. No “Som dos Oceanos”, eu estou lá no navio, boto papo com amigos, boto papo com Alexandre Pires, com Leonardo, com Gusttavo Lima, com Maiara e Maraisa. São todos amigos. Eu estou fazendo algo muito parecido comigo mesmo, para que o público também possa se identificar comigo e curtir o que eu estou fazendo”.
TEATRO
Em “Aluga-se um Namorado”, Eri surge novamente com destaque. Para ele, o espetáculo vai além da engrenagem cômica azeitada. O centro da peça, diz, está numa discussão que atravessa gerações: o amor. “A gente fala sobre amor, fala sobre respeito, fala sobre família. Eu não esperava que essa peça fosse ter uma repercussão tão gigantesca. Hoje é um clássico da comédia do nosso país. É uma peça muito engraçada, que trata de maneira muito respeitosa a família”.
O grande barato dessa comédia, além de não ter nenhum palavrão — não que eu seja contra palavrão, não; ele bem usado está tudo certo —, é que, no nosso caso, a gente não precisou disso nessa montagem. Eu acho que essa é a grande jogada desse espetáculo – Eri Johnson

Eri Johnson em “Aluga-se um namorado” (Foto: Paula Tonelotto)
Múltiplo, Eri parece sempre um passo adiante do presente. “Eu não paro. Estou pensando numa próxima peça ou programa. Bem como estou pensando num projeto pro Rio de Janeiro, alguma coisa relacionada a uma casa onde você possa jantar e depois, em seguida, ter um show, como era o Plataforma antigamente. Acho que a gente perdeu algumas coisas que eram a nossa cara e, de repente, ninguém recolocou nada no lugar. Isso me incomoda. Peguei essa fase muito boa e eu quero que ela retorne. Estou nesse movimento para abrir o quanto antes.”
Ao longo da carreira na televisão, Eri foi frequentemente associado a personagens de composição marcada, figuras reconhecíveis, muitas vezes cômicas, quase sempre “de tipo”. Ele reconhece o valor desse percurso e não o renega, mas aponta seus limites com a serenidade de quem já fez as pazes com o próprio caminho. “Quando estava na Globo, eu curtia muito a questão da escolha do personagem. Então eram os diretores e autores que escalavam para determinados personagens. Eu entendo que, quando você dá muito certo em determinados tipos de personagens, para não errar eles te chamavam para fazer exatamente aquilo que você vinha fazendo. Mas eu gostaria de exercitar outros personagens, de ter várias outras oportunidades. Eu entendo que nada era tão fácil assim, nada era tão simples assim. Então é normal que, naquela época, a gente fizesse aquilo que falavam para a gente fazer, e está tudo certo. Não é uma crítica, é uma observação.”
TEMPO
Na TV, Eri está em Hipertensão (1987), sua primeira novela e que está sendo reprisada no canal Globoplay Novelas, o antigo Viva. A lembrança da estreia permanece vívida, quase corporal. “Essa novela, a lembrança especial que eu tenho é que a primeira cena que eu gravei foi no Jardim Botânico. A minha primeira cena foi contracenando com Ary Fontoura, Cláudio Corrêa e Castro (1928-2005) e Paulo Gracindo (1911-1995). Imagina um cara chegando, estreando pela primeira vez, abrindo a boca na TV Globo, numa novela, com esses três caras na minha frente, esses três mestres, e eu pensando: ‘Quem mais fala nessa cena sou eu, e falo pouco. Se eu errar, eu vou ficar louco’.”

Eri Johnson quer abrir um empreendimento no Rio (Foto: Paula Tonelotto)
Não era apenas nervosismo de estreia, mas uma espécie de rito de passagem. “Aquele momento, para mim, foi importante para entender que a televisão é um negócio muito sério. Não dá para entrar numa cena pensando: ‘Ah, se errar, tudo bem, volta’. Não existe isso. Não foi feito para a gente errar. A gente até erra, porque somos seres humanos, mas esse papo de ‘se errar, volta’ nunca existiu para mim. Quando eu entrei para a televisão, vi aqueles três caras na minha frente e entendi que a responsabilidade estava muito no meu colo e que a televisão era, e continua sendo, um negócio muito sério, uma arte muito linda, que não comporta esse conceito de que qualquer coisa, se errar, volta. Não volta. Não é para voltar. Não foi feito para errar, foi feito para acertar.”
A imagem pública que Eri construiu ao longo dos anos — a do sujeito expansivo, afetuoso, de riso fácil e identidade carioca sem disfarces — não é, segundo ele, uma persona. É apenas continuidade. “Eu sou esse cara. Esse cara sou eu. Eu sou muito feliz. Eu sou um cara que tem muita fé em Deus e muita gratidão por tudo. Eu tenho 65 anos, sou carioca, nunca precisei sacanear ninguém, nunca precisei prejudicar ninguém para chegar aonde eu cheguei e aonde eu vou chegar. Isso, para mim, é motivo de muito orgulho. Aquele garotinho que saiu de São Cristóvão, que sou eu, tem muito orgulho do que eu me tornei. Eu acho que esse é o grande barato. Eu sou feliz porque eu tenho uma relação com Deus que independe de religião. Eu tenho uma relação com Deus que me deixa desse jeito: feliz, para cima e honrado. No palco é que eu me sinto mais próximo de Deus.”
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