*por Vítor Antunes
A segunda fase de Quem Ama Cuida, novela das 21h da Globo, vem ampliando as discussões propostas pela trama. Mais do que acompanhar a jornada de vingança de Adriana (Leticia Colin), a história passou a abordar, com ainda mais força nesta nova etapa, questões que transcendem o conflito central e convidam o público à reflexão. Especialmente no núcleo da protagonista, um dos temas que tem conduzido boa parte das ações dramáticas é a homossexualidade de Mau-Mau, personagem de João Victor Gonçalves, e sua relação com o homofóbico Otoniel, vivido por Tony Ramos. Tanto João Victor quanto o veterano ator vêm sendo amplamente elogiados por seus trabalhos, especialmente pela delicadeza e intensidade com que conduzem um embate marcado por preconceitos ainda presentes na sociedade brasileira.
Para o jovem intérprete, o assunto segue merecendo espaço e debate, ainda que a homossexualidade e a homofobia já tenham sido abordadas em diferentes momentos pela teledramaturgia brasileira. “O Brasil e o mundo são profundamente influenciados pela mídia. Muito do que sabemos, acreditamos e fazemos é guiado por ela, seja pelo jornalismo, seja pelo audiovisual, por meio das novelas, dos filmes ou das séries. Poder mostrar essa diversidade de diferentes formas dentro do audiovisual significa dar oportunidade para que outras pessoas se identifiquem e deixem de ser invisíveis. Durante muito tempo, essas pessoas foram invisibilizadas e, quando apareciam, muitas vezes eram retratadas como chacota, estereótipos ou motivo de piada. Quando falamos do audiovisual no streaming, atingimos um público que, em geral, já tem mais acesso à informação. Se esse público não aprende, muitas vezes é porque não quer. Já a novela alcança tanto quem tem acesso quanto quem não tem”.
Hoje, falar sobre identidade de gênero e sexualidade, para mim, para os meus amigos e para as pessoas com quem convivo, é algo muito simples, porque são pessoas que tiveram oportunidades e acesso à informação. Mas, para quem vive no interior do Brasil, onde esses temas muitas vezes não fazem parte da realidade cotidiana, a televisão cria uma oportunidade única. Ela permite que pessoas de diferentes classes sociais tenham contato com esse letramento e possam compreender melhor o que tudo isso significa – João Victor Gonçalves

Personagem de João Victor, Mau mau debate a homofobia familiar (Foto: Ieda Ribeiro)
Para o ator, o comportamento homofóbico de Otoniel, personagem que, em paralelo, se mostra sensível e paternal, traduz uma contradição típica da geração à qual ele pertence.
“Essa homofobia que o personagem apresenta, na verdade, não parte de alguém que é homofóbico por maldade ou que sabe que está agindo de forma problemática e, ainda assim, escolhe agir dessa maneira. Trata-se, sobretudo, de uma falta de letramento. É uma pessoa de outra geração, que ama o neto, mas que reproduz falas e comportamentos problemáticos justamente por não ter tido acesso a esse aprendizado.”
Viver Mau-Mau tem representado uma verdadeira virada na trajetória de João Victor Gonçalves, que define a experiência como um divisor de águas em sua carreira. “Está sendo uma grande loucura, mas uma loucura maravilhosa. É realmente uma transformação na minha carreira e até na forma como passei a enxergar o meu trabalho. Uma novela das nove já tem um peso muito grande por si só. E, sendo uma novela das nove de Walcyr Carrasco e Cláudia Souto, esse peso aumenta ainda mais. Todos os dias são muitas informações e muitas coisas acontecendo. Enfim, está sendo uma experiência maravilhosa.”
João destaca ainda que a convivência com Tony Ramos tem sido uma das experiências mais enriquecedoras da produção. Mais do que dividir cenas, os dois construíram uma relação de cumplicidade que ultrapassa o ambiente de trabalho. “O aprendizado com ele tem sido enorme. O Tony é um ser humano incrível, e nós dois construímos uma troca muito bonita desde o começo. Eu tenho uma característica: quando gosto de alguém, não sou de fazer cerimônia ou manter distância. A gente se aproximou muito rapidamente. O Tony é gente como a gente, e isso é maravilhoso. Ele é uma pessoa incrível. Às vezes eu brinco: ‘Tony, você é como meu avô aqui.’ E ele, inclusive, pede que eu o ajude com o celular. É quase como admirar alguém da própria família.”
O ator conta, inclusive, que Tony Ramos costuma incentivar todo o elenco a refletir sobre a importância da novela como um gênero de enorme alcance popular e de profunda conexão com o público. Um conselho recebido logo nas primeiras semanas de gravação segue ecoando em sua memória. “Logo nas primeiras semanas de gravação, o Tony Ramos me disse uma coisa que nunca esqueci: ‘Esse trabalho que a gente faz não é para a gente. É para o outro. É para a forma como o outro nos recebe dentro da casa dele todas as noites.'”

João Victor Gonçalves foi incentivado por Tony Ramos: “A novela é para o público” (Foto: Ieda Ribeiro)
A repercussão do núcleo e da abordagem da homofobia dentro da família também tem sido percebida por João, sobretudo nas redes sociais, onde recebe relatos de pessoas que se reconhecem na trajetória de Mau-Mau. “O retorno tem acontecido principalmente pelas redes sociais. Nas ruas é mais difícil, porque a minha rotina é muito corrida, praticamente de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Mas recebo muitas mensagens de pessoas dizendo que se identificaram com o personagem, que se veem na história dele, compartilhando experiências pessoais e elogiando o trabalho. Isso me deixa muito feliz. Esse reconhecimento mostra que estamos cumprindo o nosso papel, porque é exatamente para isso que fazemos o nosso trabalho. Ler essas mensagens é maravilhoso, porque me faz entender que estou fazendo o meu trabalho da maneira certa.”
“Meu trabalho não é para a novela em si. Ela não é para o crítico de cinema, não é para o Festival de Cannes. Ela é para gente como a gente. É para a pessoa que passa o dia inteiro trabalhando, chega em casa sem companhia, liga a televisão, e a gente faz companhia para ela. É para a pessoa que quer se apaixonar.” — João Victor Gonçalves
STRIKE A POSE
Na semana em que esta entrevista foi realizada, Madonna voltava ao centro das atenções com o lançamento de seu novo álbum, Confessions II, sequência conceitual de Confessions on a Dance Floor (2005). Ao mesmo tempo, a cantora americana também voltava a dominar o imaginário da cultura pop graças à repercussão renovada de O Diabo Veste Prada, impulsionada pelo sucesso da canção Vogue, um dos grandes símbolos de sua carreira.
Coincidentemente, o figurino de Quem Ama Cuida também vinha despertando elogios pela criatividade e pela construção visual de seus personagens. Para João Victor Gonçalves, a moda nunca foi apenas estética: é uma linguagem por meio da qual ele também se expressa. “Sempre fui muito conectado a esse universo da moda. Sempre gostei, embora não entendesse tanto do assunto. Em 2020, decidi começar a desenhar roupas e costurar. Eu adoro costurar. Comecei a criar alguns looks para mim e a mostrar esse processo. Fazia tanto roupas para uso pessoal quanto figurinos para peças de teatro. Também produzia figurinos para amigos e costurava várias peças. Sempre acompanhei tendências, gosto de coisas diferentes e não gosto de passar despercebido. Também acho importante que, além do nosso trabalho como ator, a gente construa uma identidade. É importante mostrar às pessoas como queremos ser vistos. Na segunda fase do Mau-Mau, o personagem ficou muito mais parecido comigo, principalmente no estilo das roupas. O figurino dessa fase conversa mais com a minha forma de me vestir. É bem diferente da primeira fase porque, naquele momento da história, ele perde tudo. As roupas eram mais simples, e isso fazia parte da construção do personagem. Agora houve mais espaço para essa troca de ideias.”

João Victor pensa em moda e sugere caminhos às figurinistas (Foto: Ieda Ribeiro)
O ator conta que sempre buscou construir uma identidade visual própria, ainda que não se considere um estudioso do universo fashion. “Gosto de ter uma identidade, uma assinatura. A moda sempre caminhou junto comigo. Claro que não tenho uma bagagem acadêmica sobre o tema. Não vou dizer que sou uma pessoa que estuda profundamente ou acompanha tudo o que acontece nesse universo. Mas gosto muito de observar tendências, entender o que está em alta e buscar referências, principalmente em influenciadores.”
Formado em Rádio e TV, João acredita que a graduação ampliou sua percepção sobre o fazer artístico e lhe deu uma compreensão mais profunda dos bastidores do audiovisual. Ao mesmo tempo, reconhece que esse conhecimento, em alguns momentos, pode representar um desafio durante a atuação. “A faculdade me ajuda muito, mas, às vezes, também me atrapalha. Entrei no curso para entender melhor os bastidores e como funcionava todo esse processo. Acabei assumindo um lugar muito voltado para a direção em praticamente todos os projetos. Como eu já tinha bastante experiência com teatro, entendia bem de direção de atores, direção de voz e já carregava uma bagagem nessa área. Isso me ajuda porque consigo ler uma cena e imaginar o trabalho que ela vai exigir. Penso, por exemplo: ‘Nossa, essa cena vai exigir cinco planos para conseguir cobrir tudo.’ Consigo estimar o tempo de gravação e entender melhor a dinâmica do set. Ao mesmo tempo, isso pode ser um problema. Às vezes, passo a me observar com um olhar de diretor, quando deveria estar apenas vivendo o personagem. O ator precisa confiar no processo.”

João Victor Gonçalves sonha poder seguir investindo em sua arte (Foto: Ieda Ribeiro)
Observar talvez seja a primeira ferramenta de um ator. É da vida cotidiana que nascem os gestos, os sentimentos e as histórias que, mais tarde, ganham corpo diante das câmeras. João faz desse exercício um hábito permanente. O que mais me inspira é a própria vida. Gosto de estar na rua, observar as pessoas, acompanhar os movimentos culturais e perceber como elas se relacionam. Sempre me interessei muito mais por essa conexão humana do que por ficar isolado em casa. Gosto de ver gente. Nosso trabalho consiste justamente em contar histórias sobre a vida, sob diferentes perspectivas. Mesmo quando fazemos uma obra totalmente ficcional, ela continua falando sobre pessoas e relações humanas. É isso que mais me inspira: o ser humano e as conexões verdadeiras que construímos. A música também tem um papel muito importante. Acho que ela guia um pouco a gente. Muitas vezes coloco os fones de ouvido e deixo a música me conduzir. Enquanto escuto, começo a criar histórias, imaginar cenas e construir personagens. Mas, acima de tudo, o que realmente me inspira são as pessoas e as relações que estabeleço com elas.
Tenho muitas ambições para o futuro, mas procuro não imaginar exatamente como elas vão acontecer. Claro que desejo estar cada vez mais inserido no mercado, continuar fazendo arte, tocar a vida de muitas pessoas e ser reconhecido pelo meu trabalho. Trabalho para isso todos os dias, mas prefiro me surpreender com o caminho. O meu grande sonho é continuar vivendo da minha arte – João Victor Gonçalves

João Victor Gonçalves sonha poder seguir investindo em sua arte (Foto: Ieda Ribeiro)
Um personagem pode nascer da ficção, mas só permanece quando encontra eco na vida de quem o assiste. Ao emprestar sensibilidade a Mau-Mau, João Victor Gonçalves reafirma uma das maiores vocações da telenovela brasileira: transformar entretenimento em diálogo, representatividade e reflexão. Entre os bastidores, a moda, a arte e a observação do cotidiano alimentam um intérprete que encara cada cena como um encontro com o público. Porque, no fim das contas, como ele próprio acredita, a televisão continua sendo uma ponte capaz de aproximar histórias, derrubar preconceitos e lembrar que toda grande narrativa começa — e termina — nas pessoas.
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