No ar, em ‘Nobreza do Amor”, Nikolly Fernandes celebra o avanço histórico da representação negra na televisão


A atriz comemora o sucesso de Kênia em “A Nobreza do Amor”, novela que vem conquistando público e audiência nas tardes da Globo. Ela destaca o caráter histórico da trama ao colocar um núcleo negro africano no centro da narrativa, com personagens complexos e longe de estereótipos. Avalia que a produção representa um avanço na diversidade da dramaturgia brasileira e na representação de pessoas negras na TV aberta. Fora das telas, relembra a criação do coletivo Contraste, exalta o carnaval como espaço de liberdade e critica a hipersexualização das mulheres negras

*por Vítor Antunes

A atriz — e por que não dizer, a personagem — está florescendo às 18h! Nikolly Fernandes e a sua Kenia são um dos destaques de “A Nobreza do Amor“, novela que vem tendo excelente recepção tanto do público quanto na audiência. “Estou muito envolvida com a novela. Tenho conversado na Globo sobre vários projetos, tudo em prol de “A Nobreza do Amor”.  A atriz celebra o fato de que a novela é, momentaneamente, uma das poucas a ter um núcleo inteiro situado na África negra — “O Clone” se passava no Marrocos, e há tramas da Record ambientadas na região do antigo Egito. Para Nikolly, trata-se de um avanço social da televisão. “Acho que é um momento de transformação. E é histórico. O que acontece para além d’A Nobreza é esse olhar para a diversidade na dramaturgia brasileira.”

Nikolly ressalta que “por muito tempo a gente teve que se agarrar às mínimas produções que existiam, que carregavam antagonismo, porque a gente não se via no dia a dia em um canal aberto, na TV Globo. Era muito difícil. E acho que agora é muito importante não só a gente se enxergar, mas, para além disso, ter personagens cujas histórias não dialogam com a fragilidade o tempo todo, com a tristeza, com o sofrimento e racismo. Hoje em dia faço uma personagem que é africana, de 1920, e feliz. Uma mulher feliz, uma mulher que pode sonhar, que tem sonhos, que pode se mostrar como é, que não tem medo de mostrar o que quer e de correr atrás do que quer”.

Nikolly é Kênia em “A Nobreza do Amor” (Foto: Divulgação)

Para a atriz, é fundamental que haja na TV aberta uma personagem feminina que não reforce estereótipos — sobre as mulheres nem sobre os negros. “A TV Globo se comunica todos os dias com os mais diversos públicos do país. É muito bonito ver a gente chegando nesses espaços — e as meninas como eu, como a Duda Santos, com as pessoas se identificando de alguma forma com aquela princesa, com aquela personagem. É muito bonito, sim.”

O fato de a novela se passar numa África imaginária que traz vilões negros, heróis negros e que retira da África esse lugar idílico e impoluto — tornando-a um lugar real, com gente má, interesseira e perversa — humaniza a região sem perder de vista que se trata de um folhetim. “A novela é uma fábula desde sempre. Mas entendo, claro, que tudo se conecta com a história do mundo. Quando comecei a assistir e percebi que a trama principal, a densidade da novela, estava no núcleo negro, achei isso maravilhoso. Há muito tempo não vejo numa novela o núcleo negro carregando a trama principal. Muitas vezes a gente vê a trama principal com algum envolvimento de um personagem negro, mas eles estão sempre num lugar de humor, num lugar diferente”.

Nikolly Fernandes acredita que a diversidade está encontrando seu espaço na TV (Foto: Divulgação)

A interação geracional entre ela e atores mais experientes, como Lázaro Ramos, faz toda a diferença. “Está sendo muito rica, de verdade. Sou muito feliz e grata por ter conquistado esse papel e estar tendo essa troca com Lázaro Ramos. Brinco que estou sendo paga para estudar a atuação do Lázaro. Então, trago isso para a minha atuação, para que a gente tenha olhares parecidos, gestos parecidos. Gosto de assistir aos ensaios, ver os impulsos que ele está tendo — de alguma forma, isso me alimenta muito”.

CONTRASTE E CARNAVAL

Quando era aluna do ensino médio, Nikolly juntou-se a alguns amigos e fundou um coletivo de modelos que valorizava a diversidade de corpos: a Contraste. “Estudava na Faetec-RJ — Fundação de Apoio à Escola Técnica —, no curso de publicidade. Ali conheci muitos artistas que, assim como eu, ainda estavam no ensino médio. Eu e mais três colegas tivemos a ideia de abrir esse coletivo de modelos. Queríamos colocar no mercado corpos e pessoas que não seriam escolhidos por uma agência famosa — ou que demorariam muito para isso, ou que teriam que se transformar muito para chegar lá. Olhávamos para a nossa própria comunidade no Rio”.

Nikolly é cria do carnaval (Foto: Divulgação)

Amante do carnaval, Nikolly já desfilou em diversas escolas — especialmente quando criança. Para ela, o carnaval é um lugar de expressão e expressividade. “Na minha cabeça, o carnaval sempre foi a melhor das terapias — era onde eu deixava tudo, e até hoje é onde deposito todos os sentimentos que carrego. Um lugar de liberdade, onde posso ser o que quiser. Sou cria do carnaval. Desfilei na Filhos da Águia, da Portela, onde comecei nas escolas mirins como porta-bandeira. Depois, na Tijuquinha do Borel, primeiro na ala da comunidade, depois como passista. Durante muito tempo integrei a comissão de frente dos Aprendizes do Sangueiro — foi assim que tudo começou”. A atriz aponta que a hipersexualização da mulher é algo que ainda acontece no carnaval, mas também latente na sociedade.

O olhar sexual não está só no carnaval — existe em qualquer lugar do mundo. Há uma hipersexualização da mulher e, principalmente, da mulher negra. Isso vem do racismo e do machismo estrutural da nossa sociedade. Sinceramente, não acredito que exista um movimento que a gente, do carnaval, possa fazer sozinha para mudar esse lugar — a não ser a conscientização dos nossos homens que também estão no carnaval, para que o olhar deles seja de compreensão daquele espaço que estamos ocupando e, mais do que isso, de proteção das mulheres que estão ali naquele momento – Nikolly Fernandes

Para Nikolly, a hipersexualização do corpo da mulher acontece para além do carnaval (Foto: Divulgação)

Embora esteja trabalhando diretamente com Lázaro Ramos, ele e Taís Araújo são referências para a atriz. A montagem em que Taís está atuando, “Mudando de Pele”, é transformadora em sua vida. “Se eu for falar sobre algo que me tem imbuída de verdade, não seria uma frase — seria uma peça. A peça da Taís Araújo, em todas as camadas. A personagem mostra a atriz despida de tudo, se questionando de várias maneiras sobre a nossa existência, a nossa vida até aqui enquanto mulher negra — todos os tipos de situações que a gente pode enfrentar tanto no trabalho quanto na vida pessoal. Acho muito bonito essa troca de pele que acontece no palco.”

Como Kenia, Nikolly Fernandes ocupa a tela; como artista, amplia horizontes. Entre a força simbólica de uma África que se permite ser complexa, a vivência forjada no carnaval e a admiração por referências que abriram caminhos antes dela, a atriz parece viver um raro encontro entre trajetória e personagem. Em um momento em que a dramaturgia brasileira revisita seus próprios espelhos, Nikolly floresce junto com sua Kenia — levando para o horário das seis não apenas uma protagonista de sonhos e desejos, mas também a certeza de que novas histórias, novos rostos e novos olhares já não pedem passagem: eles chegaram para ficar.