No ar em 2 reprises na TV, Claudia Raia revisita carreira, de símbolo sexual a atriz potente e porta-voz da menopausa


No ar nas reprises de “Terra Nostra” e “Rainha da Sucata”, atriz vive uma fase de reinvenção. Além de produzir a peça “Mães”, e atuar no espetáculo “Cenas da Menopausa”, ela se tornou porta-voz da menopausa e da maternidade real, temas que trata com humor e franqueza. “Existem camadas da maternidade que ainda são difíceis, como o desapego e a culpa”, diz. Já em “Cenas da Menopausa”, ela transformou em arte as dores e libertações da fase. A atriz também celebra sua trajetória de papéis marcantes (de Tancinha a Donatela) e o vínculo com o público LGBTQIA+

No ar em 2 reprises na TV, Claudia Raia revisita carreira, de símbolo sexual a atriz potente e porta-voz da menopausa

*por Vítor Antunes

Antes de todo e qualquer argumento, e antes mesmo de qualquer discussão, Claudia Raia foi uma das primeiras a ensinar o país a “não fugir da raia”. Agora, diante da maturidade, ela permanece firme nessa batalha de conscientização e compreensão sobre o feminino e a mulheridade. Hoje, mais do que uma atriz, Claudia se tornou a porta-voz quando o tema é menopausa. “Comecei a falar sobre menopausa há cerca de oito anos, no meu Instagram, e mais recentemente através do espetáculo ‘Cenas da Menopausa’. Foi profundamente libertador. Por isso, digo que “Cenas da Menopausa” (com estreia em janeiro, em Portugal) não é um espetáculo apenas para mulheres, é também para homens, jovens e famílias inteiras. É fundamental que todos compreendam esse processo, porque ele não afeta só a mulher, mas também o casamento, a rotina, o trabalho e as relações ao redor dela. A informação é sempre a melhor aliada”.

A peça, que mistura humor e confissão, vem rendendo à atriz episódios de comoção ao final das apresentações. “Já tivemos, inclusive, depoimentos muito comoventes, como o de um homem que pediu publicamente desculpas à sua companheira por não ter compreendido o quanto essa fase pode ser difícil. Esses momentos mostram o poder do diálogo e da empatia. Quando o tema é colocado em cena, todos se reconhecem de alguma forma, e isso é transformador”.

A menopausa ainda é um tabu porque toca em um lugar muito íntimo, demoramos a reconhecer que estamos nessa fase e muitas vezes não sabemos como lidar com ela. Tive os primeiros sintomas aos 50: calores insuportáveis, dores nas pernas, insônia, névoa mental, tristeza. Sempre fui uma pessoa alegre e cheia de energia, e, de repente, não me reconhecia mais. O ciclo circadiano enlouquece, tudo muda, os hormônios ficam descompensados, e a medicina ainda fala pouco sobre o quanto essa transição pode ser desafiadora. Muita mulher se sente sozinha – Cláudia Raia

Claudia, que hoje pode ser vista na reprise de “Terra Nostra” — novela exibida originalmente em 1999 —, guarda memórias daquele período. “Terra Nostra” tinha uma grandiosidade épica, mas quando fui chamada, o Benedito Ruy Barbosa me disse que não era um papel do meu tamanho. Mesmo assim aceitei. Só que a personagem não evoluiu muito na história. Ficou grávida por um período enorme, a barriga crescia, diminuía, voltava… Tivemos que ajustar o ritmo das cenas e o figurino. Acabou virando uma novela dentro da novela”. E também voltou à tela na pele de Adriana Ross, “a bailarina da coxa grossa”, na reprise de “Rainha da Sucata”.

Claudia Raia está no ar com duas reprises, na Globo (Foto: Renam Cristofoletti)

NOVIDADEIRA

Ao longo da carreira, Claudia interpretou mulheres solares e expansivas, mas também personagens de sombras e abismos. Quando pensa nas figuras que mais a representam, ela cita três nomes: Donatela (A Favorita), Tancinha (Sassaricando) e Engraçadinha, da minissérie homônima. “Tancinha era uma mulher ingênua naquele corpo de mulherão, falava errado, tinha um jeito desinibido e divertido. No começo da novela, o Silvio de Abreu (autor da novela) me apoiou muito porque ela trazia características muito específicas, mas que tinham muito da minha energia. Tudo isso cativou o público. Vejo nesse personagem um reflexo do meu humor e do meu jeito de encarar a vida”.

Donatela, diz ela, foi o oposto luminoso de Tancinha: “Uma mulher multifacetada, cheia de contradições, que enfrenta dilemas e desafios com intensidade. Ela me permitiu explorar uma faceta mais introspectiva e profunda”. E há, claro, Engraçadinha, de Nelson Rodrigues — “Aos 26 anos, tive que interpretar uma mulher de 50 na minissérie, revelando camadas que exigiam maturidade e sensibilidade. Foi um dos papéis que mais me marcou e me rendeu grande reconhecimento como atriz. Interpretar essa personagem me ensinou a mergulhar em papéis que exigem intensidade, vulnerabilidade e a capacidade de transitar entre drama e paixão”. Essas três personagens, diz Claudia, “me permitiram explorar camadas diversas de emoção, humor e intensidade ao longo da minha carreira, mostrando diferentes facetas da minha própria personalidade — isso só citando algumas personagens”.

Nos anos 1980, Claudia Raia impactou com sua presença forte na TV. Alta, atlética, com potência de palco, destoava do padrão então em voga. “Nos anos 80, já me destacava por ser alta, ter corpo de dançarina e presença de palco, desafiando a estética da TV que valorizava mulheres magras e delicadas. Logo fui chamada de ‘símbolo sexual’, mas o “TV Pirata” me deu a chance de quebrar estereótipos e mostrar que eu podia fazer comédia. Foi uma grande oportunidade para me reinventar como atriz. Essa ousadia se refletiu em personagens que romperam padrões e revelaram diferentes facetas femininas. Em “Sassaricando”, Tancinha tinha aquele sotaque italiano, um jeito único de se vestir, roupas que buscamos na feira mesmo, e conquistava o público com sua espontaneidade”.

Cada papel me permitiu explorar camadas de humor, drama e ousadia. Acho que nunca me limitei a padrões, seja na estética, na idade ou nos desafios emocionais das personagens que interpretei. Sempre fui muito livre, aberta a novidades, sou novidadeira por natureza e construí muitas mulheres, cada uma com suas loucuras – Claudia Raia

MATERNIDADE

Claudia Raia descobriu, nos bastidores, um novo palco. Pela primeira vez, ela produz uma peça sem atuar: “Mães”. A atriz define o espetáculo como “uma comédia inteligente e sensível que toca a todos”. A motivação, conta ela, nasceu da própria vida. “Existem camadas da maternidade que ainda são difíceis, como o desapego, a culpa e o eterno malabarismo de tentar equilibrar tudo. Mas foi justamente isso que me moveu a produzir “Mães”. A motivação para o espetáculo nasceu da minha própria experiência: viver a maternidade de meu terceiro filho de forma tardia, aos 56 anos, despertou em mim uma vontade profunda de falar sobre esse universo com leveza, humor e, acima de tudo, verdade.”

No palco, “Mães” parte de um princípio simples — a maternidade real, desidealizada, às vezes dura, sempre humana. “’Mães’ fala da maternidade real que tem sido escancarada, uma discussão necessária, que nos faz repensar e entender que existem muitas formas de maternar. São muitas escolhas que podem ou precisam ser feitas, mas não há regras. E, se não há regras, também não pode haver julgamentos. O espetáculo é, acima de tudo, uma celebração da vida real daquelas mulheres que encaram os desafios da maternidade com amor, exaustão e, claro, uma boa dose de riso. É sobre acolhimento, sobre reconexão, é sobre entender que ser mãe é, antes de tudo, ser humana.”

Aos 57 anos, mãe de três filhos em idades e fases completamente distintas – Sophia, Enzo e Luca -, Claudia se define como uma mulher em constante aprendizado. “Ter três filhos de idades tão diferentes exige muita criatividade e visão de mundo plural. Tenho uma natureza muito curiosa, gosto de novidades, de estar antenada com o mundo — acho que isso me mantém atualizada. Fazendo o “Maternidelas”, por exemplo, descobri uma forma muito diferente de enxergar a maternidade.”

Claudia Raia: “Eu sou novidadeira” (Foto: Renam Cristofoletti)

O nascimento de Luca, em 2023, reabriu um ciclo que ela julgava concluído. “O Luca nasceu quando completei 56 anos, em uma fase em que eu já estava na menopausa, e foi como estrear novamente nesta peça maravilhosa que é a maternidade. Mesmo já tendo criado o Enzo e a Sophia, muita coisa mudou: o mundo mudou, eu mudei. Hoje vivo a maternidade com mais leveza, escuta e presença”.

Para Claudia, educar é um ato político. “Educar é um ato revolucionário. Sempre ensinei aos meus filhos sobre respeito, empatia e igualdade. Com a Sophia, entendi mais profundamente o que é ser mulher num mundo machista, e fiz questão de mostrar que liberdade e força são inegociáveis. Já com os meninos, a missão é fazê-los entender que o feminismo também é sobre eles. Aqui em casa, a gente conversa sobre tudo, sempre foi assim”. A atriz não idealiza o papel: “A maternidade me desconstrói todos os dias: errar, duvidar, sentir culpa, mas também amar profundamente. Com o Enzo e a Sophia, mesmo crescidos, continuo muito próxima. Temos liberdade, diálogo e muita troca. Criei filhos muito legais pro mundo, isso eu posso garantir”.

Nos últimos meses, Claudia também trocou o palco pelo estúdio: foi jurada do Drag Race Brasil, reality que celebra a arte drag e suas múltiplas expressões. “Ser jurada do Drag Race Brasil foi uma das experiências mais emocionantes da minha carreira. Sempre fui muito próxima da comunidade LGBTQIA+, sempre estive em contato com essa energia criativa, libertária e cheia de humor. No programa, vivi uma explosão de arte, coragem e autenticidade. Eu aprendi demais ali. Fiquei ainda mais orgulhosa de ser considerada um ícone gay — é um título que carrego com muito amor”. Entre o palco e a maternidade, o corpo e a voz, Claudia Raia segue movida pela mesma energia que sempre a impulsionou: a de transformar o que é íntimo em cena pública — e, com sorte, libertadora.