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“Nise – o coração da loucura” presta um tributo à psiquiatra que mudou a história da medicina através da arte

O longa, assinado pelo Roberto Berliner, tem Gloria Pires no papel principal. A atriz mergulhou intensamente no universo da personagem e acredita que o resultado é evidente nas telas

Publicado em 07/10/2015 | Por Karina Kuperman

“Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Vou lhes fazer um pedido: vivam a imaginação, pois ela é nossa realidade mais profunda”. A frase é de Nise da Silveira, uma das primeiras mulheres a se formar em medicina e que revolucionou a história da psiquiatria ao se negar a usar tratamentos agressivos em seus pacientes. Em vez de eletrochoques e lobotomia, a alagoana tratava os distúrbios mentais com arte. Portanto, nada melhor do que a arte para representá-la. O longa “Nise – o coração da loucura” narra de forma sensível a trajetória da médica e estreou no Festival do Rio nessa terça-feira, 6. O diretor Roberto Berliner analisou a participação na mostra competitiva do evento e definiu a história como uma mistura de seus trabalhos. “É uma emoção enorme estar aqui, porque o Rio é minha casa e esse festival também. Esse filme talvez misture tudo que eu tenha feito na vida até agora. Tem um pouco de documentário e loucura também”, disse.

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O diretor Roberto Berliner posa entre Gloria Pires e Fabricio Boliveira durante o Festival do Rio (Foto: AgNews)

A história aborda o momento entre 1942 e 1944, período em que Nise chega ao Rio de Janeiro e, isolada pelos outros médicos, é designada à área de terapia ocupacional. A partir daí, o setor muda e os pacientes começam a se dedicar à jardinagem, dança, música e teatro. As atividades foram tão eficazes, que nota-se uma melhora significativa dos esquizofrênicos. Alguns se transformam em grandes artistas, como foi o caso de Fernando Diniz, interpretado por Fabrício Boliveira. “Ela muda a história da psiquiatria no Brasil e na América Latina, percebe que seu trabalho é o mesmo do Jung e manda para ele, na Áustria. Os dois tem uma parceria e os clientes passam a se desenvolver dentro das dificuldades mentais. É uma história que se conhece pouco, mas motivo de muito orgulho”, declarou Fabrício. Simone Mazzer, que vive a paciente Adelina, declarou que os festivais facilitam a maneira de fazer cinema. “Esse filme já está pronto há alguns anos. Conseguir lançá-lo aqui é um presentão e eu torço para que chegue ao mercado”

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Fabrício Boliveira dá vida ao artista Fernando Diniz, o paciente que ficou por mais tempo com Nise (Foto: AgNews)

As quatro sessões não foram suficientes para acolher tantos convidados interessados em saber mais sobre a vida da psiquiatra vivida por Gloria Pires nas telas. A atriz, que se preparou para o papel com um mergulho profundo na rotina do Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II – hoje Instituto Municipal Nise da Silveira, contou que o laboratório foi muito importante. “Estar lá  foi fundamental para que o filme tivesse todo aquele ambiente. Nós respirarmos tudo e a imersão no universo da Nise foi um processo louco, mas mágico, emocionante e envolvente”, disse ela, que acredita que a vivência nem sempre aparece nas telas. “Foi um momento muito forte e isso é visível para o espectador. Às vezes tem toda a experiência fora e nem sempre ela acontece no cinema, mas nesse caso acho que está bem retratada”, garantiu.

Os três meses de preparação, mais os três anos de processo após as filmagens não esfriaram os ânimos. “O longa está para ser finalizado faz tempo, foi um processo longo, uma gestação bem curtida e desejada. Essa história é densa, sensível e importante para a humanidade. Aliás, o filme é sobre o ser humano. Olhar o próximo foi a mais importante lição que Nise deixou”, afirmou Gloria. Fabrício Boliveira compartilha da mesma opinião: “O festival é um momento muito bom. Ficamos três meses dentro desse trabalho, envolvidos, e, agora, é a hora de mostrar para as pessoas. O cinema é hoje o circo, as enciclopédias, é onde se conhece a cultura a fundo. Vemos o olhar de alguém aprofundado e o conhecimento circulando”, disse, para logo ser complementado por Gloria: “Chegar ao cinema e assistir um filme é ver um mundo novo que se abre cada vez”, declarou.

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Gloria Pires acredita que a emoção da imersão no universo da psiquiatra foi perfeitamente refletida nas telas (Foto: AgNews)

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