*por Vítor Antunes (com pesquisa de Tião Uellington)
“Nina”, personagem-título da novela com Regina Duarte e que retornou ao Globoplay, traz de volta às telas o Brasil do café e o Brasil da industrialização. A trama exibida nos 70, revisita o país em transformação nos anos 1920, os chamados “anos loucos”, período de intensas mudanças sociais e culturais. A personagem vivida por Regina Duarte está no centro dessas transformações. Em sua exibição original, “Nina” surgiu após a censura de “Despedida de Casado”, também escrita por Walter George Durst, que teve sua estreia barrada às vésperas da exibição. Na última semana, o canal Baudoraffamg, no YouTube, resgatou o que seria o primeiro capítulo de “Despedida”. (Veja abaixo)
Com a censura da novela, todo o elenco foi realocado para “Nina”, que estreou em junho de 1977. Esta foi a primeira novela de Antonio Fagundes e de Fábio Junior, na Globo. Walter George Durst (1922-1997) escrevia cerca de 25 páginas por dia da trama e concebeu a novela como uma homenagem ao escritor Galeão Coutinho, com quem trabalhou no Jornal de Notícias. Para isso, utilizou como base duas obras do autor: “Vovô Morungaba” e “Memórias de Simão, o Caolho”. A novela teve 133 capítulos originalmente escritos que, por serem longos, precisaram ser divididos, totalizando 142 capítulos exibidos. Desses, apenas nove estão disponíveis atualmente no Globoplay. Estima-se que entre eles estejam os de número 1, 2, 59, 60, 141 e 142 (o último).

Antonio Fagundes em “Nina”. Primeira novela do ator na Globo (Foto: Nelson di Rago/Divulgação Globo/Recuperada e colorida por iA)
A partir do capítulo 73, a novela ganha um novo ato formal, intitulado “À la garçonne”, no qual Nina adota esse corte de cabelo e passa a ser acusada de um crime, marcando uma virada narrativa importante na trama. “Nina não é uma mulher feminista. A palavra parece ridícula e descabida. Feminista, sem trocadilho, deve ser uma mulher cada vez mais feminina e não me parece ser isso que suas ardorosas seguidoras defendem.” A fala do autor da trama, em 1977, não está tão distante da posição atual de Regina Duarte, intérprete da protagonista. Em diversas ocasiões, a atriz se declarou feminina e não feminista.
José Lewgoy (1920-2003) chamou a atenção dos diretores por sua atuação na novela. Dizia-se que ele não levava o papel a sério e, chateado com as críticas, o ator colocou o personagem à disposição. Não custa lembrar que a indolência de Lewgoy era recorrente. Em “O Outro” (1987), ele deixou a novela justamente por indisciplina. O jornal O Globo, porém, apontou que Lewgoy desejava deixar a trama para fazer um filme e, por isso, pediu para sair da novela — pedido que não foi autorizado. Ele continuou contratado pela Globo e oficialmente no elenco, porém sem gravar por longos períodos, fazendo com que seu personagem simplesmente desaparecesse da história. Dizia-se que o ator estava de “castigo”.

Jose Lewgoy em Nina. Ator era um problema (Foto: Nelson di Rago/Divulgação Globo/recuperada por iA)
À Revista Ilusão, Marcos Paulo (1951-2012) — possivelmente em razão de um quadro de burnout, termo que à época ainda não era utilizado — declarou ter recebido sua escalação para a novela com cansaço. Ele vinha de um acidente ocorrido no ano anterior e ainda estava em recuperação quando foi chamado para substituir Cláudio Marzo (1940-2015), que abandonou a trama. “Piorei com a notícia. Cheguei a sentir calafrios com a notícia só de pensar em voltar a esta roda-viva”, afirmou.
O ator também disse que seu personagem na novela era “mais do mesmo”. “É igual a todos os outros que fiz em meus oito anos de carreira. O que mudou foi o nome do personagem e da novela.” À mesma revista, Marcos Paulo declarou ainda que seu grande sonho era se tornar diretor de televisão — fato que se concretizaria nos anos seguintes. Ainda na década de 1970, trabalhou como assistente de direção e, a partir de 1985, passou a dirigir com mais frequência, tornando-se uma presença cada vez mais esporádica como ator.

Marcos Paulo: Nina era mais do mesmo (Foto: Nelson di Rago/Arquivo Globo/recuperada e colorida por iA)
Elza Gomes (1910-1984) afirmou, ao fim de Nina, que estava adoecendo de cansaço, assim como Regina Duarte, também em decorrência de estafa. O papel de Elza, inclusive, havia sido inicialmente oferecido a Henriette Morineau (1908-1990). Ary Fontoura também reclamou de sua participação na trama. “Meu personagem não foi um dos mais salientes, mas fiz o que pude.” Rosamaria Murtinho, por sua vez, reclamou por duas vezes que a Censura cortou cenas de sua personagem, “cerca de 20 páginas de texto em capítulos alternados”.
Não sendo um grande sucesso de público, Walter Avancini (1935-2001) afirmou que a novela, por se tratar de uma trama experimental — já que o horário das 22h era dedicado a esse tipo de produção —, “Nina cumpriu o seu papel”. A novela era considerada lenta e com poucas ações de impacto, o que pode ter contribuído para seu insucesso. Como chegou a apresentar desempenho melhor junto à Censura do que Espelho Mágico, a novela das 20h, chegou-se a especular uma possível troca de horários entre as produções, o que, evidentemente, não ocorre.
Embora a trama se passasse em São Paulo, as gravações foram realizadas em Santa Teresa, no Centro e no Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro, além de Bananal, no interior do estado paulista.

Nina foi a primeira novela de Fábio JR (Foto: Nelson di Rago/Arquivo Globo/ tratada por IA)
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