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Ney Latorraca se prepara para estrear como diretor com a peça “As Cadeiras” e revela ao HT: “Faço um teatro sem leis e sem partidos”

Ator, de 71 anos, segue com novidades no teatro e no cinema com o filme ""Introdução à Música do Sangue": "Está sendo um grande desafio. Eu me sinto como se estivesse saindo da escola de teatro"

Publicado em 11/07/2016 | Por Leonardo Rocha

Ney Latorraca é mesmo uma caixinha de surpresas! Depois de 52 anos de uma carreira de sucesso, 15 peças e diversas novelas em seu currículo, o respeitado ator tomou coragem e estreia, nesta segunda-feira, como diretor no espetáculo “As Cadeiras”, do dramaturgo romeno Eugène Ionesco. Em entrevista exclusiva ao HT, Ney revelou de onde surgiu a ideia de atuar, desta vez, por trás das cortinas. “Eu não tinha a pretensão de dizer que iria dirigir e arrasar, mas é gostoso, porque vejo o outro lado do ator e como é difícil e bom trabalhar as palavras e pausas. Foram dois meses de aprendizado”, revelou ele. A peça fica em cartaz até o mês de agosto, no Teatro Cândido Mendes, em Ipanema, e tem como protagonistas Tássia Camargo e Edi Botelho. Durante os ensaios para o espetáculo, Ney revelou que tudo aconteceu dentro de sua própria casa, no Rio. “Como  o elenco é pequeno e eu tenho um espaço grande, a gente ensaiava ali mesmo, na sala”, disse, aos risos.

Ney Latorraca (Foto: Divulgação)

Ney Latorraca (Foto: Divulgação)

Mas muito se engana quem pensa que o trabalho se trata de uma comédia – como estamos acostumados a ver Ney em ação. O enredo da peça se passa na torre de um farol situado em uma ilha deserta. Lá um casal de idosos vive o último dia de sua existência, preparando-se para a mensagem final que o marido irá transmitir a seus amigos e parentes. Os dois aguardam os convidados que, aos poucos, vão chegando. O detalhe é que a presença deles só é percebida pelos anfitriões, que providenciam muitas cadeiras para acomodar os fantasmas de suas existências. Diálogos cruzados fazem uma espécie de prestação de contas de cada um dos personagens com a vida até um final trágico e surpreendente.

“Eu não tenho nada contra os grandes musicais, mas a gente também tem que acreditar na inteligência do público. Eu gosto muito de resgatar as histórias clássicas como essas”, ponderou o ator, que, apesar de estar estreando como diretor de teatro, já tocou algumas produções durante sua carreira.”Eu dirigi o show do Prêmio Sharp da Música, que homenageou Luiz Gonzaga e também dirigi a Jane Di Castro, no show ‘Passando o Batom’, que voltou agora depois de 30 anos”, disse. “Eu acho ótimo, porque eu estou comemorando 52 anos de carreira dirigindo. Eu me sinto como se estivesse saindo da escola de teatro. Está sedo um grande desafio, pois a gente está sempre aprendendo e, além do mais, eu ainda acabo me aprimorando enquanto ator olhando para eles. Porque é diferente de ser público, você se torna a primeira platéia”, apontou.

Jaqueline Lourrance, Net Latorraca e Miguel Falabella (Foto: Divulgação)

Jaqueline Lourrance, Net Latorraca e Miguel Falabella (Foto: Divulgação)

A todo vapor no auge de seus 71 anos, Ney Latorraca também poderá ser visto nas telonas, a partir de agosto  com o filme “Introdução à Música do Sangue”. O longa faz um paradoxo entre o mundo arcaico e o contemporâneo, onde uma família vive suas angústias numa atmosfera de desejo e repressão. Baseado num argumento de um mestre do romance de introspecção psicológica, o escritor Lúcio Cardoso. “O filme é uma leitura adaptada, que para mim foi um forte exercício enquanto ator. Eu tive que me segurar muito. O personagem é muito contido, enquanto eu tenho essa tendência a extrapolar”, avaliou. A produção filmada no ano de 2014 ainda conta com a participação de Bete Mendes, Armando Babaioff.

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No entanto, questionado sobre os diversos problemas políticos e econômicos vividos pelo país, e, principalmente pela classe artística, Ney é taxativo: “Eu acho que a melhor resposta para uma crise, como a que estamos passando, é você representar as tuas alegrias e trazer o público para perto de você. Essa atitude de abrir novos teatros e espaços é totalmente política. Hoje se fala muito de leis e ministérios, mas eu costumo dizer que faço um teatro sem leis e sem partidos. A Lei Rouanet é fundamental, mas precisa ser aprofundada para não cair de novo em uma CPI. Ela tem que ser levada a sério para termos um bom teatro”, completou.

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