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“Não dá para você discutir feminismo sem olhar para as religiões”, diz Carla Camurati sobre novo documentário

Homenageada com o Troféu Eduardo Abelin no Festival de Cinema de Gramado, a diretora, produtora e atriz contou em entrevista exclusiva ao site HT que espera lançar até final do ano o novo filme "História de um tempo presente" sobre o processo de redemocratização do Brasil e está mergulhando no papel das mulheres na religião para um doc. A ideia é traçar uma linha do tempo histórica e social baseada nas cinco principais religiões do mundo a fim de entender como chegamos ao momento atual da mulher na sociedade

Publicado em 24/08/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Com Thaissa Barzellai

Seja como atriz, diretora, produtora ou distribuidora, Carla Camurati sempre foi um nome que nos orgulha na cena artística. Na frente da câmera, em “O Olho Mágico do Amor” (José Antônio Garcia e Ícaro Martins), seu primeiro filme no qual interpretou uma jovem que vai em busca de uma vida em São Paulo, chamou a atenção pela forte presença e conquistou um Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante em 1981. Outros filmes como “Cidade Oculta” (Chico Botelho) e “Eternamente Pagu” (Norma Bengell) que rendeu um Kikito de Melhor Atriz – também alçaram Carla ao estrelato da indústria cinematográfica. Sempre em busca de novos caminhos, Carla Camurati não se permitia ficar dentro de uma possível caixinha de personagens. “Não gosto da ideia de me repetir. Gosto de aprendizado constante. Quando você lida com algo que você não domina e precisa alcançar é muito mais interessante”, afirma.

Carla Camurati em cena no longa-metragem “O Olho Mágico do Amor”, que lhe rendeu um Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante

Ela queria mais e assim foi. Decidiu que era hora de arriscar atrás das câmeras e conquistar um outro espaço para expor suas visões. Como diretora, Carla ganhou uma magnitude em meio ao Cinema Brasileiro que nem ela mesma fazia ideia. “Carlota Joaquina – Princesa do Brasil”, uma obra satírica lançada em 1995, foi o símbolo da retomada do cinema nacional que abriu as portas para um período de crescente produção audiovisual. Depois vieram “Irma Vap – O Retorno”, “Copacabana” e “Madame Butterfly”, e tantos outros que estão em um currículo que hoje serve de inspiração e referências para jovens cineastas, principalmente mulheres.

É com essa e por essa bagagem que Carla Camurati se tornou nesta 47ª edição do Festival de Cinema de Gramado uma chancela no hall dos homenageados com o Troféu Eduardo Abelin. Para ela, como cineasta, foi uma honra poder subir ao palco do Palácio dos Festivais para celebrar todos os anos de fazer arte. “Gramado é um festival muito único no Brasil. É um festival que acompanhou o crescimento do cinema brasileiro e conseguiu passar por todas as curvas. São 47 anos de arte e de emoção, trazendo, acompanhando e iluminando o nosso cinema”, diz.

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Em um ano no qual a ausência de mulheres diretoras na Mostra Competitiva para longas-metragens foi latente, a homenagem a Carla Camurati foi muito expressiva. Em seu discurso de agradecimento, ela, que por muitos anos foi um dos poucos nomes femininos à frente da indústria cinematográfica brasileira, fez questão de dedicar o prêmio a todas as companheiras de profissão. “Eu queria dedicar esse prêmio a todas as mulheres que fizeram e fazem o cinema brasileiro”, frisou. Hoje, de acordo com pesquisa divulgada pela Ancine, 17% são diretoras 41% são produtoras, 32% diretores de fotografia, entre outras funções que mostram também uma disparidade entre mulheres brancas e negras. A presença de mulheres na indústria conversa diretamente com o conteúdo de produções, que cada vez mais, mesmo que lentamente, tem trazido o olhar delas não só para questões voltadas especificamente para o universo feminino como sobre as problemáticas do mundo atual.

Carla Camurati, por exemplo, tem se dedicado no-stop – “eu trabalho compulsivamente porque eu gosto” -, a diversos projetos ligados a temas contemporâneos, sendo dois deles em torno do universo feminino e talvez um pouco feminista. Para o cinema, Carla está mergulhando no papel das mulheres na religião em um novo documentário. A ideia é traçar uma linha do tempo histórica e social baseada nas cinco principais religiões do mundo a fim de entender como chegamos ao momento atual da mulher na sociedade. “Não dá para você discutir feminismo sem olhar para as religiões. Esse assunto é realmente uma coisa que eu acho que falta para as mulheres como conhecimento, até porque nós temos uma história escrita por homens e para homens. Para entender qual foi o processo da humanidade com relação a mulher que tem tudo a ver com a religião e para entender o recorte do feminismo temos que olhar para isso”, explica Carla.

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A favor das novas e diferentes plataformas, como o streaming, para divulgação de trabalhos, sejam eles cinematográficos ou não, a cineasta tem acompanhado toda a evolução tecnológica e pretende ocupar mais um espaço também com um projeto voltado para mulheres: o MulheresMix já no ar na internet. “Esse projeto é um exercício para olhar para as mulheres de diferentes idades”, comenta. Inspirada pela onda de documentários políticos, que inclusive tem sido liderada por mulheres, vide os trabalhos de diretoras como Maria Augusta Ramos e Petra Costa, Carla Camurati também entra para esse time de elite ao abordar a redemocratização do país. Mas não pense que será algo que você já tenha visto.

Enquanto as diretoras citadas acima seguiram um caminho de um recorte específico, Carla Camurati trabalhou com imagens de arquivo para que o documentário “Histórias de um Tempo Presente”, cuja previsão de estreia é para esse ano, seja não apenas uma parcela, mas um retrato completo de toda a trajetória política do país, começando nas Diretas Já até o momento da posse do atual governo. “Estou procurando um recorte dos fatos e da emoção. Eu acho que para contar a nossa história política nós temos que entender antes de tudo os fatos. Não os pontos de vistas relatados”, diz. Para ela, o Brasil vive um momento no qual é necessário expandir e aprofundar os ideias. “Eu procurei ver o que aconteceu a todos nós sem elipse de tempo”, explica a cineasta que deixou bem claro que quando o assunto é política prefere seguir o lema do “menos briga, mais ação” ao invés de ficar “reativo e cair em cada arapuca”.

Com tantas obras e olhares diversificados, interessantes e importantes para discussões no Brasil, Carla Camurati acredita que a indústria cinematográfica brasileira sempre será a maior parceria de sua vida. “O Brasil é tão rico e eu tenho tanto orgulho. Eu nunca quis sair do Brasil, eu sempre quis conquistá-lo e poder trabalhar para que a vida aqui melhorasse e para que as pessoas possam sempre ir ao cinema. A sétima arte é parte da minha vida em todos os sentidos e eu sou feliz. É realmente uma paixão”, declara. E que seja assim sempre!

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