Na Globo, atrizes veteranas estão mais tempo fora do ar do que atores. Veja quem são elas há 40 anos longe das novelas


A ausência de atores veteranos na TV brasileira expõe um desequilíbrio estrutural, especialmente entre mulheres, muitas delas fora do ar há décadas, como Lucélia Santos e Bruna Lombardi. Na Globo, mesmo nomes consagrados enfrentam escassez de convites, enquanto a indústria prioriza o rejuvenescimento de personagens e limita papéis para atrizes maduras. Casos como Christiane Torloni e Maitê Proença evidenciam afastamentos prolongados, ao passo que homens mantêm maior continuidade profissional.
Há ainda a recorrência de estereótipos femininos, com personagens restritas a arquétipos ou à invisibilidade narrativa. O cenário revela um etarismo persistente, em que o reconhecimento histórico não se converte em oportunidades concretas na televisão atual

*por Vítor Antunes

Há muito se cobra que haja mais espaço para atores veteranos na TV. De fato, são muitos os que estão afastados voluntariamente; outros, mesmo reconhecidamente talentosos, não são contemplados há anos com novos trabalhos, apesar de terem figurado entre os grandes nomes de suas gerações. Há atrizes — especialmente elas — que estão há anos fora da TV e sequer são cotadas para novos trabalhos, ainda que reconhecidamente talentosas. Chama atenção, por exemplo, o caso de Lucélia Santos, que não faz uma novela na Globo há 40 anos e, há duas décadas, não atua em uma novela no Brasil. Desconsiderando “Malhação”, sua última trama na emissora foi Sinhá Moça (1986), e a última no país, Cidadão Brasileiro (2006). Não raras vezes, Lucélia declarou não estar recebendo convites.

Outra ausência longa é a de Bruna Lombardi, que não faz uma novela inteira há muitos anos. Sua última novela tradicional foi Roda de Fogo (1986). Em 1996, participou de “O Fim do Mundo”, uma minissérie curta exibida entre duas novelas, como tapa-buraco. Em entrevistas, Bruna afirma não ter interesse em voltar ao formato.

Lúcia Veríssimo também está fora do ar desde 2011, quando esteve em “Amor e Revolução“, no SBT. Ainda que tenha feito participações recentes no streaming, como em “Dona Beja”, não é vista na TV aberta há mais de uma década. Christiane Torloni, com idade próxima à de Lucélia, está afastada há cerca de oito anos. Já Maitê Proença, contemporânea delas, também tem feito aparições esparsas.

Bruna Lombardi em “Roda de Fogo” (Foto: Bazílio Calazans/Globo)

O curioso é perceber que, há bastante tempo, não há renovação nem mesmo dentro do próprio elenco veterano. Algumas atrizes, como Suely Franco, parecem ter sido “recentemente” redescobertas. Suely vinha há muito tempo fazendo personagens pequenos até que, em “Dona de Mim”, conseguiu um papel à sua altura — o que foi fundamental para sua indicação a prêmios e para a consolidação de um novo momento na carreira.

Entre os homens, o quadro existe, mas com outra intensidade. Paulo Gorgulho não é visto em uma novela inteira desde 2018. Diogo Vilela está fora do ar há cerca de 15 anos e já declarou, em entrevistas, o desejo de voltar à televisão.

O que motiva essa ausência?

Ainda que alguns veteranos estejam voltando ao ar, trata-se de um movimento recente de reconquista de espaço. Miguel Falabella, por exemplo, retornou à TV em Três Graças depois de um longo período afastado, com um papel pensado sob medida. Ao mesmo tempo, a televisão parece cada vez mais empenhada em rejuvenescer seus personagens — especialmente os femininos. Um exemplo sintomático: Dira Paes, aos 56 anos, já interpreta uma bisavó, em “Três Graças“. Isso revela um descompasso evidente: se Dira ocupa esse lugar, que papéis restariam para Lucélia Santos, aos 69? Ou para Betty Faria, que chega aos 85? Coube a Débora Bloch, aos 63, encarnar a matriarca Odete Roitman, em “Vale Tudo”.

As mulheres — sobretudo elas — enfrentam um problema estrutural: não lhes é permitido envelhecer. Vale lembrar o episódio envolvendo Betty Faria, que, aos 80 anos, foi fotografada de biquíni na praia e comparada ao corpo que tinha em 1989, quando viveu Tieta. A cobrança atravessa décadas como se o tempo fosse uma falha de caráter.

Betty Faria viveu uma – das várias – personagens de socialites falidas na TV. Lugar que geralmente as atrizes maduras ocupam (Foto: Acervo/Site HT)

Entre os homens, o percurso costuma ser mais contínuo. Atores maduros trabalham mais e ficam menos tempo fora do ar. Contemporâneos de muitas das atrizes citadas, Antônio Fagundes e Tony Ramos mantêm intervalos significativamente menores entre uma novela e outra.

Há também um padrão recorrente nos papéis femininos maduros: aquelas cuja aparência corresponde à idade acabam escaladas como mães ou avós; as que aparentam juventude são frequentemente deslocadas para arquétipos caricaturais — a perua falida e/ou a mulher desconectada da própria realidade. Glória Menezes passou por isso (Em “Rainha da Sucata”, “Deus nos Acuda” e “Senhora do Destino”), assim como Tônia Carrero (1922-2018), em “Água Viva“. Nem Beatriz Segall escapou, em “Anjo Mau”. Vera Fischer, em sua última novela completa na Globo, “Espelho da Vida“, viveu uma atriz decadente e deslocada.

Gloria Menezes como a vilã Laurinha, madrasta de Edu Figueroa (Tony Ramos). Laurinha era falida (Foto: Arquivo/Globo)

É comum, ainda, que essas personagens sejam viúvas, solteironas ou sexualmente inativas — ao contrário dos homens. Personagens masculinos maduros frequentemente se envolvem com mulheres mais jovens e raramente terminam suas trajetórias sozinhos, mesmo quando são homoafetivos. Em “Três Graças”, o personagem de Miguel Falabella é casado com um homem mais jovem. Já a personagem de Lília Cabral em “Garota do Momento” (2024), apesar de sexualmente ativa ao longo da trama, termina morta — assim como Odete Roitman, décadas antes.

Enquanto alguns nomes são repetidos à exaustão, outros permanecem à margem. Atrizes como Selma Egrei e até a controversa Regina Duarte seguem fora do circuito mais visível. E há ausências que já soam quase estruturais: há quanto tempo não vemos Cristiana Oliveira ou Patrícia França na TV? O mesmo vale para Patrícia Pillar – Todas são 60+. No fim, a televisão brasileira parece lidar com seus veteranos — especialmente suas veteranas — como quem folheia um álbum antigo: reconhece o valor, comenta com certo carinho, mas raramente convida de volta para a sala.