*por Vítor Antunes
Com boa repercussão na televisão portuguesa, o ator brasileiro Vitor Hugo acaba de dar um novo passo na Europa: estreou no palco como um dos nomes centrais da superprodução “Dona Flor e Seus Dois Maridos”. Em cartaz no Casino Lisboa, o carioca interpreta Teodoro, personagem da obra de Jorge Amado (1912-2001). Ao mesmo tempo, segue no ar como Marcos, antagonista da novela “Terra Forte”, dirigida por Edgard Miranda, ex-Record, com desempenho sólido tanto na TVI quanto no catálogo português da Amazon Prime. Na trama, Marcos concentra o pior de si: “É um machista, vai à falência e todo o seu mau-caratismo vem à tona. Ele ameaça os filhos quando bêbado, sequestra a mulher para forjar a morte dela e dar golpe no seguro de vida para fugir com a amante e deixar os filhos na m… Um exemplo do que não se deve ser. E tem sido aí um bom desafio, um personagem com muita incidência na trama e que causa um certo asco no público porque, realmente, o texto dele, as coisas que diz, são muito fora da caixa”, descreve o ator, que chega à sua nona novela na emissora portuguesa.
A relação com o país virou vínculo duradouro. “Portugal e a TVI me acolheram com imenso carinho. Com a TVI já gravei por toda Portugal, e em países tais como México, Espanha, Tunísia, Escócia, Angola”, afirma Vitor, hoje com 49 anos e vivendo há quase uma década no país, onde mantém contrato fixo há nove anos. Voltar ao Brasil não está no radar imediato, mas o mercado segue aberto. “Eu tenho refeito os contatos no Brasil, em especial, no streaming, porque são obras mais curtas, é algo que não desestrutura os caminhos. Sendo assim, é completamente viável”, diz, sinalizando disposição para novos convites.

Vitor Hugo consolidou sua carreira em Portugal (Foto: Divulgação)
O trabalho nos palcos portugueses também carrega um certo senso de circularidade. Nos anos 1990, ainda adolescente, Vitor estreou no teatro com “Capitães da Areia”, também de Jorge Amado, no Rio de Janeiro — montagem que lhe rendeu o prêmio Coca-Cola de Teatro como ator revelação, pelo papel de Sem Pernas. Agora, retorna ao autor em outro momento da vida. “Estreei no teatro no Brasil em ‘Capitães da Areia‘, de Jorge Amado. E estreio nos palcos de Portugal com ‘Dona Flor’, de Jorge Amado. Na peça ‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’, sou o que representa o amor mais puro, fidedigno, virtuoso. Exemplo de cuidados e zelo. Músico de orquestra e marido exemplar’”, conta. A montagem, adaptada por Vitor Rocha, reúne nomes conhecidos do público local e vem registrando casas cheias desde a estreia, em fevereiro. A temporada em Lisboa segue até maio, com circulação prevista por outras cidades ao longo de 2026.
Na televisão, a trajetória em Portugal se consolidou desde a chegada, em 2017, quando integrou o elenco principal de “A Herdeira”. Vieram depois trabalhos em “A Teia, Prisioneira e Bem-me-quer”, sempre em posições de destaque. Paralelamente, assumiu a direção de atores em duas produções: “Amar Demais” (2020), indicada a prêmios nacionais, e “Quero é Viver” (2021), lembrada em premiações internacionais. Mais recentemente, esteve em “A Fazenda” (2025) e em “Cacau” (2024), novela de ampla circulação internacional.

“Dona Flor”, encenada em Portugal (Foto: Divulgação)
Antes da mudança para a Europa, construiu carreira consistente na televisão brasileira, com passagens por produções da Globo, como “O Profeta”, “Cabocla”, “Corpo Dourado”, “Sex Appeal e Perigosas Peruas”, além de títulos da Record, entre eles “Os Dez Mandamentos”, “O Rico e Lázaro”, “José do Egito”, “Rei Davi”, “A História de Ester” e “Chamas da Vida”. Também fez uma participação recente na série “Travessia”, exibida em Portugal, interpretando o presidente Epitácio Pessoa (1865-1942).
Vitor também transitou pelo teatro em múltiplas frentes: atuou, produziu e dirigiu mais de uma dezena de montagens. Entre elas, “Capitães da Areia”, de Jorge Amado, ocupa lugar central. Foi com esse espetáculo que, aos 15 anos, recebeu o Prêmio Coca-Cola de Teatro de Melhor Ator Revelação, na encenação de 1992. Iniciado ainda muito cedo no ofício, o ator não vê nisso qualquer efeito colateral. Ao contrário. “Trabalhar desde então foi incrível e ajudou a fazer de uma certeza, algo que eu já tinha. Tudo foi acontecendo de forma natural. É simbólico até eu ter estreado no teatro com um personagem que tinha problemas na perna, e que isso o batizava – como Sem Perna. Eu também tive um problema neste membro quando eu era criança, o que poderia te-las deixado uma mais curta que a outra ou me deixado manco”, afirma.

Vítor Hugo conviveu com uma doença rara, passou por ela e virou um ator de sucesso (Foto: Divulgação)
A coincidência entre vida e personagem não é apenas retórica. Aos cinco anos, Vitor Hugo foi diagnosticado com a doença de Legg-Perthes, condição rara que, à época, exigia imobilização total como forma de tratamento. “Fui um dos primeiros a ser operado por uma nova técnica e passei um ano com o gesso, mas sem poder forçar as pernas por outros seis. Só andei de bicicleta e brinquei de pique aos 11”, relatou, em 2012, ao Globo.
O teatro seguiu me ensinando isso. Me ensinou a ser altruista e a ter mais possibilidades de ser compassivo e gentil, ou generoso. Trabalhar sendo criança ou adolescente foi um encontro verdadeiro, para mim. Uma escola – Vítor Hugo
Entre palcos e estúdios, o percurso de Vitor Hugo parece menos uma linha reta e mais um movimento contínuo de retorno e reinvenção. Do menino que atravessou a infância imobilizado ao ator que hoje circula entre países, personagens e formatos, há uma coerência silenciosa: a de quem transformou limite em linguagem e ofício em permanência. Em Lisboa, diante de plateias cheias, ele atualiza esse trajeto sem alarde — como quem apenas segue trabalhando, cena após cena, fiel àquilo que começou ainda cedo e nunca deixou de reconhecer como casa.
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