Mistério: fitas da novela “Canoa do Bagre” (1997) estão sumidas. À época, Tim Maia acusou Record de censura em música


“Canoa do Bagre”, primeira novela da estreia da Record sob o comando por Edir Macedo, e protagonismo de Carmo Dalla Vecchia, tornou-se objeto de investigação por ter sido parcialmente apagada do acervo da emissora. Pesquisadores de teledramaturgia sustentam que a obra foi parcialmente apagada. Exibida em meio a orçamento reduzido e precariedade técnica, marcou apenas 2 pontos no Ibope e foi considerada “um fiasco” . A produção também ganhou notoriedade após Tim Maia (1942-1998) afirmar que Macedo censurou a música que compôs para a trilha. Entre improvisos, erros de crédito e uma cidade cenográfica montada em Bertioga, a novela acabou rapidamente substituída por “Estrela de Fogo”.

*por Rodrigo Otavio

Canoa do Bagre“, novela que quase ninguém viu, mas que deixou marcas simbólicas — o protagonismo papel de Carmo Dalla Vecchia, o último de Rômulo Arantes (1957-2000) e a estreia da Record sob a gestão Edir Macedo — voltou a circular entre pesquisadores da teledramaturgia. O grupo sustenta que a obra foi parcialmente apagada do acervo da emissora. Em 1997, ano de exibição, a Record ainda não tinha um padrão de arquivamento e teria perdido boa parte do material. Entre as fontes consultadas, embora não haja clareza sobre o que de fato se preservou, estima-se que apenas o primeiro e o último capítulo tenham resistido. Procurada entre setembro e novembro, a emissora não respondeu aos nossos contatos.

No centro das polêmicas da estreia, uma acusação de Tim Maia (1942-1998). O cantor afirmava que Edir Macedo censurara uma de suas composições. Segundo ele, o fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário da Record vetou a letra que integraria a trilha de “Canoa do Bagre”. Tim relatava que Atílio Riccó, diretor da trama, encomendara uma música para a novela. O músico aceitou o convite e compôs “Do Fundo do Coração”. “Ele (Riccó) disse que o tema era sobre pescadores que não podem pescar na época da desova e ficam sem condições de comer”, contou o cantor à época. “Fiz a música e eles gostaram, falaram até que ia ser abertura da novela”. O acordo, porém, teria sido desfeito quando Macedo leu a letra, que questionava como é possível viver na miséria. Segundo Tim Maia, o bispo não aprovara alguns versos. A Igreja Universal prega que o ser humano é capaz de viver com quase nada. No lugar da canção, a Record optou por “Jangada”, de Dorival Caymmi (1914-2008).

Paulo de Almeida e Carmo Dalla Vecchia em bastidores de “Canoa do Bagre” (Foto: Reprodução/Facebook/Recuperada por iA)

“Canoa do Bagre”  tratava-se da primeira novela da Record após 20 anos fora da dramaturgia — desde O Espantalho (1977) — numa fase de orçamento mínimo e ambições modestas. A partir dali, a emissora terceirizou suas produções até retornar definitivamente ao setor em 2000, com “Marcas da Paixão”, e, só depois, na grande reformulação de 2004, consolidar seu núcleo de teledramaturgia. Claro, havia merchandising religioso: personagens frequentavam cultos da Universal, conduzidos pelo pastor Luiz, vivido por Fernando Kojin. O ator interpretava um líder jovem e obediente, espécie de extensão ficcional da doutrina da casa.

A precariedade dos bastidores era proporcional ao entusiasmo missionário. Reportagem no Jornal do Brasil registrou que algumas atrizes aceitaram trabalhar de graça. Outro detalhe fica por conta de que Nico Puig passou a assinar seu nome de batismo, Nicolau. As gravações aconteciam em Bertioga.

Para enfatizar a pobreza como linguagem estética, a fictícia Canoa do Bagre, aldeia de pescadores que nomeava a novela, não tinha luz; no enredo, todos eram pescadores. Cada capítulo custava cerca de R$ 25 mil, e a produção completa foi orçada em R$ 2 milhões. Entre os achados recuperados pelo site Heloisa Tolipan, mais uma música que compôs a trama:  “Lindeza”, cantada por Gal Costa (1945-2022), somada a “Jangada”, de Dorival Caymmi, tema de abertura.

O projeto tampouco nasceu novela. A ideia original era produzir uma “Série Verdade”, formato híbrido entre docudrama e ficção de baixo orçamento, que a Record vislumbrava como alternativa barata para ocupar sua faixa noturna. Carmo Dalla Vecchia, ainda um desconhecido na praça, chegou a ser creditado como “Carmem Dalla Vechia” pelo jornal A Tribuna, de Santos. Depois, o rótulo da trama mudou para minissérie, até que, por conveniência do cronograma, a produção ganhou o status de novela.

Paulo de Almeida, Edson Fieschi, Carmo Dalla Vecchia e elenco de “Canoa do Bagre” (Foto: Reprodução/Facebook/Recuperada por iA)

A emissora foi além: construiu uma cidade cenográfica na praia de Itaguaré, em Bertioga, no litoral norte paulista. Com texto de Ronaldo Ciambroni e direção de Attílio Riccó, “Canoa do Bagre” reunia um elenco que misturava novatos e veteranos de peso, entre eles Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006), Othon Bastos e Lolita Rodrigues (1929-2023). Nada disso impediu o desfecho constrangedor: a produção acabou substituída por “Estrela de Fogo” alguns meses depois, varrida da grade com a mesma discrição com que estreou.

O próprio Jornal O Fluminense classificou a trama como “um fiasco”. A avaliação se apoiava em números difíceis de defender. Segundo o Painel Nacional de Televisão do Ibope, referente a outubro de 1997, Canoa do Bagre marcou 2 pontos de audiência. Para se ter uma medida do desastre, a principal novela da Globo, “A Indomada”, registrou 48 no mesmo período.

“Canoa do Bagre tem o mesmo nível de qualidade de ‘A Filha do Diabo’ e ‘Por Amor e Ódio’, minissérie barata exibida anteriormente. Nem a exuberância das imagens de Bertioga podem surpreender o telespectador.”  – Coluna TV Claquete, O Fluminense, 23/9/97