*por Rodrigo Otávio
Há algo de melancólico em “Aberto ao Público”, novo programa de humor da Globo. Não por falta de talento – o elenco é formado por quatro dos comediantes mais populares da última década: Maurício Meirelles, Bruna Louise, Thiago Ventura e Murilo Couto. Todos vieram de uma linhagem de stand-up e internet, onde a graça nasce do improviso, do descontrole e da naturalidade. Mas o que se vê no ar é o oposto disso: um programa que parece datado já na estreia, um humor embalado a vácuo, de formato previsível e espírito domesticado.
O carro-chefe do programa – “invadir” o WhatsApp de um famoso e mandar mensagens talvez fosse um achado em 2012, quando a fronteira entre o público e o privado na internet ainda era terreno fértil para o riso. Mas em 2025 soa apenas como uma lembrança de uma era de memes envelhecidos. Meirelles ressuscita a principal ideia de seu antigo show, “Webbullying”, e a leva para dentro da Globo, que tenta transformar um formato de nicho em produto de massa. O resultado é o mesmo de outras tentativas recentes da emissora: um programa que nasce velho, apático e sem identidade própria. A audiência não respondeu. Em praças como a de Vitória, o “Aberto ao Público” chegou a dar traço de audiência (menos de 1 ponto). Na última terça, “A Fazenda” venceu por 0,1 ponto – Um empate técnico. Na última semana de outubro, o “Aberto” também perdeu.

Nicolas Prattes foi o primeiro convidado da segunda temporada de ‘Aberto ao Público’. (Foto: Divulgação/Globo)
A Globo tem uma relação peculiar com o humor. Desde os anos 2000, quando o Casseta & Planeta se esvaziou e o Zorra Total se tornou uma paródia de si mesmo, a emissora parece procurar um substituto que una popularidade e inteligência, espontaneidade e controle. Mas o humor é um animal indomável – não sobrevive em cativeiro. Quando domesticado, perde o faro, o instinto e a ferocidade. Aberto ao Público é, nesse sentido: Ventura, Bruna e Murilo, todos com trajetória marcada por autenticidade e irreverência, são transformados em peças de um formato rígido, excessivamente editado e sem fôlego.
A edição é, talvez, o maior vilão. Em nome da fluidez, destrói o timing – o elemento vital da comédia. O programa é picotado como se tivesse medo do silêncio, medo do improviso, medo de ser, simplesmente, engraçado. É irônico: a Globo, que durante décadas foi sinônimo de precisão técnica, parece agora prisioneira da própria engenharia. Enquanto tenta produzir o riso com o mesmo método com que produz uma novela das nove, esquece que a graça depende da falha, do erro, do imprevisto – tudo o que o padrão Globo de qualidade aprendeu a eliminar.

A atriz Isadora Cruz ao lado dos humoristas Tiago Ventura, Maurício Meirelles, Bruna Louise e Murilo Couto, na segunda temporada de ‘Aberto ao Público’ (Foto: Divulgação/Globo)
Murilo Couto, que despontou na própria emissora em Malhação, poderia ter aqui um reencontro simbólico, depois de passar pelo SBT. Mas, como tantos outros comediantes vindos de fora – Adnet, Dani Calabresa, os Barbixas -, termina engolido pela máquina. A “síndrome MTV”, que assombra ex-integrantes da emissora musical desde os anos 1990, reaparece: humoristas que florescem no caos não sobrevivem ao jardim milimetricamente podado da Globo. Zeca Camargo e Tatá Werneck foram exceções. O resto virou estatística.
Essa pasteurização da espontaneidade é um traço antigo. O próprio Faustão é talvez o exemplo mais emblemático dessa transformação: o apresentador anárquico de Perdidos na Noite, que improvisava com desconhecidos e fazia piada com o caos da TV ao vivo, tornou-se o condutor polido e domesticado do Domingão do Faustão. A distância entre os dois programas é a mesma que separa o humor da Globo de sua própria origem – uma história de perda progressiva de liberdade em nome do formato.
A exibição tardia, às terças-feiras, reforça o desencaixe. O horário, espremido entre a primeira linha de shows e o Jornal da Globo, não conversa com o público jovem que o programa supostamente mira. Ao mesmo tempo, a proposta – “fazer humor digital na TV” – já nasce anacrônica. A internet de hoje não é mais aquela de 2016, quando o Pânico na Band fazia piadas semelhantes. O público que vive online consome humor em fragmentos, não em programas. Em Aberto ao Público, a Globo tenta capturar uma audiência que já se dispersou.

Isadora Cruz participou da última edição do programa, exibida na terça, 11 (Foto: Divulgação/Globo)
Desde o fim de Zorra, extinto após o escândalo que envolveu Marcius Melhem, a emissora não reencontrou seu tom cômico. Tentou o humor leve de Tá no Ar, o esquete político de Fora de Hora, o improviso de Tomara Que Caia – e em todos tropeçou na mesma pedra: o medo do risco. A cada fracasso, a emissora redobra o controle; e quanto mais controla, menos engraçada se torna.
O caso de Aberto ao Público é sintomático de algo maior. A Globo tenta reinventar o humor sem permitir que ele se reinvente por si. Há no programa um desconforto estrutural: como conciliar a liberdade criativa de artistas formados no YouTube com a engrenagem industrial da televisão? A resposta, até aqui, parece ser: não concilia. O que sobra é um produto que tenta ser digital, mas soa institucional; tenta ser moderno, mas parece nostálgico; tenta ser engraçado, mas tem medo de rir alto demais. Além disso, o programa antecipar o “Profissão Repórter” é um desprestígio ao jornalístico – que poderia ser encaixado em outro dia.
Talvez o verdadeiro humor da Globo tenha morrido junto com o improviso de Os Trapalhões, com a insolência de Bussunda, com a anarquia do TV Pirata. O resto é tentativa de embalar a lembrança. Aberto ao Público não é um desastre, mas é um sintoma: o riso domesticado, o talento engaiolado, a comédia sem alma. No fim, resta a sensação de que a Globo continua perseguindo uma fórmula que ela mesma ajudou a esgotar. O problema não é falta de humoristas. É falta de coragem para deixá-los serem engraçados.
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