Mel Lisboa investiga mortes de presidentes no cinema e vive Rita Lee nos palcos: ‘Me desafia e vou com medo mesmo’


Enquanto reflete sobre os riscos, medos e a exposição inerentes à profissão, Mel Lisboa fala do impacto de mergulhar em um período marcado por censura e apagamentos, traça paralelos com o Brasil atual ao alertar para a força da desinformação e da “pós-mentira”, e ainda revela o desejo de voltar às novelas: “Adoraria, aceito convites”. Ele está no longa-metragem ‘A Conspiração Condor’ como uma jornalista que investiga as mortes de Juscelino Kubitschek e João Goulart nos anos 1970, em um thriller político que revisita feridas ainda abertas da história do país. Em paralelo, a atriz segue em cartaz com ‘Rita Lee, Uma Autobiografia Musical’, e com o show “Mel Lisboa Canta Rita Lee”

*Por Brunna Condini

Com estreia marcada para hoje, 9 de abril, o thriller político ‘A Conspiração Condor’, dirigido por André Sturm, leva às telas um Brasil atravessado por sombras ainda pouco resolvidas da história, e encontra em Mel Lisboa uma protagonista à altura desse mergulho. No longa, ela vive a jornalista Silvana, que investiga as mortes de Juscelino Kubitschek (1902-1976) e João Goulart (1919-1976) em plena década de 1970, colocando a própria vida em risco em nome da verdade. “É uma personagem muito corajosa, embora no início tenha bastante ingenuidade. Vai atrás da verdade sem saber os riscos que está correndo, mas, à medida que avança, percebe as consequências e o tamanho do buraco em que está se metendo”, conta.

Fora das telas, porém, a atriz atravessa outro tipo de exposição: segue em cartaz com seu celebrado encontro com Rita Lee (1947–2023) nos palcos e em shows — ‘Rita Lee, Uma Autobiografia Musical’, que retorna ao Teatro Porto, em São Paulo, em 18 de abril, após turnê nacional que passou por 24 cidades em 19 estados; e o show/espetáculo ‘Mel Lisboa Canta Rita Lee’, que segue em circuito Sesc até 15 de abril. Uma experiência que, segundo ela, carrega responsabilidade, medo e insegurança, mas também profundas alegrias. “Todo dia tento fazer melhor, mas ainda me sinto a Mel usando uma peruca e fingindo que é a Rita Lee. É muita responsabilidade. Ao mesmo tempo, é muito gratificante”, revela. E completa, sobre o risco inerente à profissão: “Gosto de coisas que me desafiem, de sentir que tudo pode dar errado, e eu vou mesmo com medo”.

Em meio a esse momento intenso no teatro, no cinema e nos palcos, Mel não descarta um retorno à TV, ao contrário, demonstra vontade clara de voltar. “Adoro fazer novela, a última que fiz foi em 2022 (‘Cara e Coragem‘). Acho um exercício extraordinário para o ator. Adoraria fazer novamente. Aceito convites”, afirma, explicando que a dificuldade, hoje, está em conciliar a rotina das gravações com a dedicação integral ao teatro. Entre personagens que investigam o passado do país e outras que atravessam a memória afetiva do público, a atriz segue movida pelo desafio, e pela coragem de se expor, dentro e fora da ficção. E sobre viver Rita Lee há dois anos nos palcos, ela ainda elabora:

Mel Lisboa entre a coragem da ficção e o risco da arte: no cinema, investiga feridas do país; nos palcos, vive Rita Lee: “Vou mesmo com medo” (Foto: Rafa Marques)

Mel Lisboa entre a coragem da ficção e o risco da arte: no cinema, investiga feridas do país; nos palcos, vive Rita Lee: “Vou mesmo com medo” (Foto: Rafa Marques)

Rita era uma figura muito magnética, muito encantadora, muito carismática. E hoje percebo isso em mim um pouco quando estou nesses lugares que não são confortáveis, sabe? Porque nunca é confortável. Mesmo fazendo há um tempo essa peça, não posso dizer que quando abre aquela cortina é confortável. Não é. Não é confortável você abrir a cortina e dizer que você é Rita Lee. Isso nunca vai ser confortável. Pra isso, você tem que ter uma atriz muito cara de pau na frente – Mel Lisboa

E é justamente nesse lugar de desconforto, que ela reconhece, nomeia e ainda assim atravessa, que Mel também construiu sua Silvana em ‘A Conspiração Condor’. A atriz estrela o filme ao lado de Dan Stulbach, Pedro Bial e Maria Manoella, em um roteiro que aborda acontecimentos marcantes do Brasil dos anos 1970 e levanta questionamentos sobre fatos obscuros da nossa história, como: quem matou Juscelino Kubitschek? Quem matou João Goulart? Na trama, diante da morte misteriosa dos dois ex-presidentes no mesmo ano, uma jornalista (Mel), decide investigar. Se, nos palcos, o risco é o da exposição, no cinema ele ganha outra dimensão: a de revisitar um passado ainda presente.“Acho que voltamos ao passado porque é preciso, porque é preciso resgatar, falar sobre a nossa história para entender o presente e vislumbrar um futuro diferente”, reflete.

Mel Lisboa estrela o thriller político 'A Conspiração Condor', que estreia nos cinemas em 9 de abril (Foto: Divulgação)

Mel Lisboa estrela o thriller político ‘A Conspiração Condor’, que estreia nos cinemas em 9 de abril (Foto: Divulgação)

Para Mel, o filme toca em uma ferida histórica que permanece aberta não apenas pela violência do período, mas também pelo apagamento. “Havia censura, havia controle da informação, então fica tudo muito nebuloso mesmo. É importante fazer um filme que ative esse lugar da memória”. Para construir a personagem, ela conta que se debruçou sobre o contexto histórico e sobre o próprio papel da imprensa, tema central da narrativa. “A gente tenta entender o que representa essa profissão, a importância da imprensa, a responsabilidade que ela tem. Hoje é um trabalho super complexo, porque existe uma urgência, mas também uma responsabilidade enorme sobre o que se comunica”. E reforça:

O papel da imprensa segue sendo fundamental, talvez até mais, diante de tanta produção de notícias feitas por pessoas que não têm formação e muitas vezes querem manipular – Mel Lisboa

Mel Lisboa em cena no longa 'A Conspiração Condor' (Foto: Divulgação)

Mel Lisboa em cena no longa ‘A Conspiração Condor’ (Foto: Divulgação)

Ao traçar paralelos entre o Brasil dos anos 1970 e o atual, Mel não hesita em apontar semelhanças inquietantes. “Mais do que a pós-verdade, eu acho que a gente está vivendo um período da pós-mentira. As pessoas preferem acreditar naquilo que querem ouvir. Isso é muito grave, porque a gente está sendo manipulado o tempo inteiro e acha que está formando a própria opinião”. E destaca, que se antes a manipulação exigia estruturas explícitas de censura e repressão, hoje ela se infiltra de forma mais difusa, e justamente por isso, mais difícil de identificar. “É muito difícil não ser manipulado em algum lugar.”

Mel Lisboa estrela 'A Conspiração Condor': "É importante fazer um filme que ative esse lugar da memória” (Foto: Divulgação)

Mel Lisboa estrela ‘A Conspiração Condor’: “É importante fazer um filme que ative esse lugar da memória” (Foto: Divulgação)

Após o sucesso de filmes como ‘Ainda Estou Aqui’ e ‘O Agente Secreto’, que também revisitam recortes desse período, a expectativa da atriz para o público não está na conclusão, mas no incômodo. “Espero que as pessoas saiam refletindo, incomodadas, provocadas. Que queiram pesquisar, entender mais. Acho que o mais importante é a provocação”. Em um tempo marcado por disputas de narrativa e pela fragilidade da memória coletiva, Mel aposta no cinema como um espaço de ativação crítica, ainda mais em um ano de eleições presidenciais. “A gente acabou de passar por uma tentativa de golpe. E, quando não há responsabilização, você permite que isso aconteça de novo. Por isso é tão importante aprender com a história.” Ao refletir sobre os ecos entre passado e presente, a artista também chama atenção para os perigos contemporâneos da desinformação:

As fake news podem ser tão devastadoras quanto a repressão direta. Podem ter consequências gravíssimas – Mel Lisboa

O encontro contínuo com Rita Lee

Dois anos após a estreia do espetáculo, viver Rita Lee segue sendo, para Mel Lisboa, uma experiência em constante elaboração; atravessada por admiração, responsabilidade e, sobretudo, consciência de lugar. A atriz evita comparações diretas, reconhecendo a dimensão única da artista que interpreta. “Acho que é difícil falar isso, porque não gosto muito de me comparar à Rita. Ela está em um outro patamar mesmo, sabe? É uma artista única, muito peculiar, uma mulher, um ser humano muito especial. Então eu tenho dificuldade de me colocar nesse lugar”.

Mel Lisboa vive Rita Lee em musical e em shows pelo Brasil há dois anos (Foto: Divulgação)

Mel Lisboa vive Rita Lee em musical e em shows pelo Brasil há dois anos (Foto: Divulgação)

Mais do que uma cantora, Mel identifica em Rita uma força cênica que dialoga diretamente com sua própria formação. “A Rita, que fez muitos trabalhos atuando, era uma grande atriz também. E ela colocava a atriz dela em muitos lugares. Quando você começa a estudar a Rita bastante, você percebe isso. Ela colocava a atriz cantando, colocava a atriz falando. Ela tinha uma atriz que colocava muito à frente das coisas. E eu acho que faço muito isso o tempo inteiro. É minha profissão.”

É nesse cruzamento entre atuação e música que ela encontra seu próprio caminho no palco:

Toda vez que eu subo pra cantar a Rita, nos shows, é a atriz que está ali na frente, antes de tudo. As pessoas têm dificuldade de me auto-intitular cantora, eu também tenho, porque eu não acho que eu cante bem. Mas a atriz canta. E a atriz tem um domínio de palco, uma forma de conseguir trazer a atenção da plateia que funciona – Mel Lisboa

"Rita foi uma artista única, muito peculiar, uma mulher, um ser humano muito especial. Então eu tenho dificuldade de me colocar nesse lugar" (Foto: Divulgação)

“Rita foi uma artista única, muito peculiar, uma mulher, um ser humano muito especial. Então eu tenho dificuldade de me colocar nesse lugar” (Foto: Divulgação)