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Matheus Nachtergaele: em defesa de Dilma, contra a vaidade dos atores e os dogmas: “Tenho medo das religiões e de todas as igrejas”

Em entrevista exclusiva ao HT, Matheus disse que não se acha um grande ator e ainda conversou sobre política: "o PT ter cometido atos corruptos é o pior dos mundos". Tudo antes de ser homenageado na 22ª edição do Festival de Cinema de Vitória

Publicado em 15/09/2015 | Por Lucas Rezende

(Fotos: Débora Benaim)

(Fotos: Débora Benaim)

Matheus Nachtergaele é meio indígena. Diz ele que, assim como os primeiros habitantes do Brasil, não sabe separar o cotidiano do trabalho como artista. “As memórias que eu tenho de cada cena, filme e peça são memórias iguais que eu tenho da minha vida. É tão forte o último beijo que eu dei na minha avó antes dela falecer, quanto um tapa no rosto que vi na peça ‘Da Gaivota’ [dirigida por Daniela Thomas]”. E o entrelaço vai além. Perturba até seu sono. “Meus sonhos vão desde os meus familiares aos meus personagens. Às vezes o meu pai está jantando com o Chicó [seu personagem em ‘O Auto da Comparecida’ de Guel Arraes]”, ri. A explicação para essa confusão? “O ator não deixa de ser, mesmo na televisão, que é o mais industrial dos meios, um tipo contador da história de todos nós. E para isso você tem que usar do material disponível: é você, sua voz, seu corpo, sua idade, suas memórias, seu estado de ser nessa vida e, talvez, principalmente, a maneira como você enxergou a vida”.

O ator, portanto, é uma pessoa que tende entender a vida por muitos lados? “Do ponto de vida mais neurótico. É um xamã cuja função é expor dramas e comédias humanas para que a gente juntos, através de uma catarse qualquer, possa se limpar, se entender, se questionar”, pontua Matheus. Talvez por isso tamanha vaidade da classe. “Porque estão sempre lidando com seu material pessoal, com um embate com a vida. A gente vai pegando essa carona e tentando se entender, se divertindo como um moleque sem responsabilidade nenhuma”, tenta explicar. Opa, opa! Sem responsabilidade? E os paparazzi? E a imprensa? E a caretice do mundo? “É tipo: ‘se comporta aí estrela, que a gente quer matéria para a revista de fofoca e umas fotos de você bem arrumadinho’. Eu acho que a nossa função é outra: é balançar, é mexer, é virar de ponta cabeça, vomitar, gargalhar, e incomodar porque está incomodado”.

Matheus busca função para seu ofício no mesmo passo que admite que não há de se encontrar um coeficiente exato para essa equação. Mesmo se precisasse, fácil não seria. Ele é como um peixe fora d’água num mundo onde se vende para revistas o direito de fotografar o chá de bebê do filho e se negocia para qual coluna revelará o nome do novo namorado. “Me nego um pouco a ser carregado para esse tipo de vivência da arte como se ela fosse um entretenimento puro e simples e ser uma pessoa que fica alimentando um certo mercado de notícias vulgares”, critica. Ele, que já expôs “lados tristes e medonhos” no cinema, no teatro e na TV, por não saber desvincular o trabalho de sua vida como um todo, se nega a tirar férias, por exemplo. “Férias de que, cara pálida, se tudo é coisa só? Se o seu oficio é o que você é? Vai perder alguém querido para aprender o que é o luto! Vai ficar com raiva das discussões políticas! Vai viver!”, retruca.

Matheus Nachtergaele 1

Nosso encontro com Matheus Nachtergaele é numa tarde chuvosa e fria na Ilha de Vitória, capital do Espírito Santo, horas antes dele subir ao palco do Theatro Carlos Gomes, no centro da cidade, para receber o Troféu Vitória das mãos das colegas Lu Grimaldi e Bel Kutner, e uma joia exclusiva assinada por Carla Buaiz. A cerimônia é parte do 22ª Festival de Cinema de Vitória que homenageia anualmente um grande nome para a sétima arte brasileira. A ocasião serve para revelar um novo projeto de Matheus: vem aí um novo filme cujo argumento data 2008 e se chama “Furo no muro”. “Eu não entreguei ainda o material. Estou segurando um pouco porque no cinema envolve muita gente, dinheiro, trabalho dos outros. Eu, por enquanto, quero ficar sozinho. Em algum momento, não muito distante desse, eu vou soltar”, antecipa.

A designer de joias Carla Buaiz, que criou o escapulário em homenagem ao Matheus Nachtergaele, Lu Grimaldi, Matheus Nachtergaele e Bel Kutner no 22º Festival de Cinema de Vitória

A designer de joias Carla Buaiz, que criou o escapulário em homenagem ao Matheus Nachtergaele, Lu Grimaldi, Matheus Nachtergaele e Bel Kutner no 22º Festival de Cinema de Vitória

Tragando um cigarro – o maço não saiu de sua frente durante todo esse papo – enquanto caminhava para uma conversa mais intimista com HT, Matheus se mostra eufórico. “Foi bom?”, questiona. “Estou adorando isso. Eu gosto de falar”, admite. O homem de 46 anos dá lugar a um menino emocionado e ligado nos 200V por estar revistando sua história e sendo homenageado ainda em vida. Coisas de quem, no Festival de Cinema de Cannes, ficou na porta da sala de exibição de “A festa da menina morta”, sua estreia como diretor, contando quem deixaria o local. Contou seis com os nervos à flor da pele. Mas num total de 600, bom citar. “Eu falava: ‘não acredito que esse filho da puta vai levantar logo agora'”, ri. Ri, mas volta a falar sério logo, logo. Matheus, nos tempos de intolerância religiosa, busca um paralelo nos teatros para tratar da questão. “O teatro é a única cerimonia laica. Eu tenho medo das religiões, dos dogmas religiosos. Tenho medo das igrejas, todas. Eu acho que o sentimento religioso é uma coisa primitiva. Eu gosto do teatro por isso, principalmente, eu acho que é uma cerimonia que reúne gente em volta do fogo, mas para celebrar sem dogma, para fazer uma catarse sem dogmas, sem dar nome aos deuses”, filosofa.

A seguir, a continuação de uma conversa exclusiva com Matheus Nachtergaele, mesmo contra sua vontade, um grande ator.

Matheus Nachtergaele exibe o Troféu Vitória, entregue pelo diretor de cinema e amigo Lirio Ferreira, e o caderno do homenageado produzido pelo Festival

Matheus Nachtergaele exibe o Troféu Vitória, entregue pelo diretor de cinema e amigo Lirio Ferreira, e o caderno do homenageado produzido pelo Festival

HT: Você vai continuar renegando o rótulo de grande ator, como já renegou em ocasiões anteriores, mesmo depois do troféu?

MN: Não me acho um grande ator. Eu sempre invejo muito os outros atores, mesmo os que não são considerados bons. Eu sempre acho no trabalho deles algo que eu não sei fazer. Eu sou um ator, não um grande ator. Eu disse isso provavelmente num momento em que eu estava refletindo as minhas incapacidades. Eu percebi que durante uma década do meu trabalho eu me dediquei tecnicamente durante as construções dos personagens. Eu via meus personagens com uma elaboração profunda de sotaque, corpo, classe social, como se eu tivesse aprendendo a desenhar, para deixar eles quadrimensionais – porque tem a alma junto. Em certo momento em larguei mão disso para me expor muito pessoalmente. E por isso agora eu talvez esteja mais preocupado em ser sincero em cada trabalho, mesmo que os personagens tenham uma construção elaborada de desenho por minha causa, ou por conta da estética do trabalho, do diretor. A minha tentativa nos últimos anos, desde 2008, é a de ser mais sincero e menos tecnicamente perfeito.

HT: De travesti à nordestino mentiroso, por que te entregam tantos personagens socialmente marginalizados?

MN: Acho porque é o que eu desejo e acho que todo grande personagem está sob pressão. Todo grande personagem da dramaturgia mundial é um personagem sob pressão. Eu recebo grandes personagens brasileiros.

HT: Você já disse que todo bom personagem está à beira de um abismo e que esses personagens são você mesmo. Ainda está à beira de abismos?

MN: Eu vou estar sempre no abismo junto com meus personagens. Eu me coloco na posição deles e passo a viver com eles. A gente se mistura. Eu também estou sempre no meu abismo.

Matheus Nachtergaele agradece ao público pela homenagem

Matheus Nachtergaele agradece ao público pela homenagem

HT: Em entrevista à Revista Carta Capital você disse que é “muito esquisito” e que é “difícil de entender o que está acontecendo na política”, principalmente no movimento que pede a cabeça da presidente Dilma Rousseff. Mesmo com a Procuradoria Geral da República pedindo investigações, com os protestos nas metrópoles, com a recessão econômica e com a crise política, ainda fica difícil para você elucidar essa questão?

MN: Eu acho que nós estamos sendo levados num onda que não é exatamente a onda legal. É a onda de se retirar o PT do poder. Na verdade, quando a gente fala em retirar a Dilma, a gente está falando em perverter a democracia, que é uma coisa que a gente tem há pouco tempo. Nós votamos na Dilma, nós temos sim que resolver a corrupção, e sim, o PT ter cometido atos corruptos é o pior dos mundos. É o retrato do pior dos mundos. Mas isso não tem a ver com o retrato da presidente. Vamos sim querer o que nos é de direito. Acho um absurdo o poder brasileiro continuar fazendo roubos e a gente pagar essa conta, acho absurdo as questões básicas do Brasil não serem resolvidas. E isso não importa o governo de quem é. O que me parece é um jogo de interesses e o povo está sendo levado a fazer disso. Vamos, com a Dilma, começar a fazer.

HT: A Lei Rouanet abraça ou exclui mais?

MN: Você veja que depois do [Gilberto] Gil [ministro da cultura em parte da Era Lula], a coisa melhorou muito. a produção cultural se espalhou pelo Brasil todo. A questão é que hoje, nas áreas de maior tradição cultural e onde circula mais grana, acontecem maiores investimentos de dinheiro. Mas eu acho que o Gil deu o primeiro passo e hoje em dia acho que já está melhor e que deveria melhorar cada vez mais. E olha, eu sou uma pessoa que sempre trabalhei com a Lei Rouanet. Eu não sei como seria sem. Não sei se a gente consegue trabalhar sem ela.

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