*por Vítor Antunes
A Record, em parceria com a Seriella, prepara para este ano um novo projeto que deriva do filão religioso que a emissora consolidou nos últimos anos — mas com uma inflexão relevante. Trata-se de Ben-Hur, adaptação do romance “Ben-Hur: Uma História dos Tempos de Cristo”, de Lew Wallace, que já havia servido de base para o clássico hollywoodiano de 1959. Pela primeira vez, a emissora se afasta de narrativas diretamente ancoradas em personagens bíblicos ou figuras históricas: a trama acompanha um protagonista ficcional, um nobre judeu consumido pelo desejo de vingança contra um antigo amigo romano, até encontrar redenção a partir do encontro com Jesus Cristo. Setenta anos depois da consagração do épico no cinema, a história retorna agora em formato seriado, num movimento que aproxima a televisão aberta brasileira de uma tradição narrativa mais associada a Hollywood do que às novelas locais. Ainda que atravesse o universo religioso, Ben-Hur não é propriamente uma narrativa bíblica — e essa distinção parece orientar o tratamento dado ao projeto.
Na adaptação, Matheus Costa interpreta Elad, um personagem de contornos ambíguos. “As gravações de Ben-Hur já começaram. Está sendo divertidíssimo. Meu personagem é muito interessante, e tem sido bem legal construir alguém tão diferente de tudo o que já fiz. Não posso dizer se ele é bom ou mau, até porque acho que nem ele sabe. É um homem amargurado, não só com a vida, mas também com a família e com a própria religião”. O ator destaca ainda o esforço de adaptação da linguagem: “Há um trabalho de naturalização da fala, de encontrar um tom que faça sentido tanto para o personagem quanto para a época.” Segundo ele, o projeto vem sendo conduzido com uma lógica mais próxima à de série do que à de novela tradicional. “Existe um cuidado maior, um tratamento diferente. O que mais tenho percebido nas gravações é esse naturalismo. A atuação está mais contida, sem abrir mão do tom épico, que também é uma marca da emissora. Mas há um equilíbrio novo, e isso torna o processo interessante — quase uma experiência inédita.”

Matheus Costa em novo projeto da Record: Uma adaptação de um clássico (Foto:Ieda Ribeiro)
No início do ano, Matheus também participou do lançamento de Juntas e Separadas, produção original do Globoplay em que vive um personagem inserido numa situação pouco convencional: a mãe se envolve com seu melhor amigo. O ator afirma que nunca passou por algo semelhante fora da ficção. “Ainda bem que isso nunca aconteceu comigo. Pelo que vivi durante as gravações, não saberia como reagir. Não é uma situação confortável. A nossa maior preocupação era não tornar os personagens desagradáveis nem dramatizar em excesso.”
A saúde mental aparece como uma linha contínua na trajetória recente do ator. Em “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente”, da HBO Max, ambientada no auge da epidemia de HIV no Brasil — quando o compartilhamento de seringas ajudava a acelerar o contágio —, o ator vive um personagem que contrai o vírus e, mais adiante, comete suicídio. A série se ancora menos no choque e mais no contexto: desinformação, estigma e isolamento. “O trabalho da equipe de preparação foi essencial para o conjunto da série”, diz. “Há uma fala do personagem que é particularmente difícil: o medo de que pensem que ele é homossexual. Por mais absurda que pareça hoje, era uma ideia recorrente naquela geração.” Para o ator, a frase condensa um ambiente em que a ignorância produzia consequências concretas. “É grave quando alguém passa a ser visto como um caso perdido. O suicídio tem múltiplas causas, mas, no caso do personagem — como no de tantas pessoas —, a falta de informação é determinante.”

O personagem de Matheus em série da HBO provocou suicídio (Foto: Ieda Ribeiro)
Fora da ficção, ele defende o acompanhamento psicológico como prática regular, ainda que reconheça a resistência inicial. “Levei tempo para confiar no processo. Durante muito tempo, achei que terapia não era para mim — um sentimento comum, e em parte atravessado por preconceito. Em análise, ouvi algo que me marcou: eu me entendi como ator antes de me entender como pessoa.”
O contato com temas delicados vem de antes. Em seu primeiro trabalho na televisão, América (2005), interpretou uma criança vítima de abuso. À época, não tinha dimensão completa do que estava encenando. “Gravei cenas em que meu personagem conversava com um pedófilo pela internet sem compreender plenamente a situação. Eu ainda estava aprendendo a ler e a escrever. Aprendi muito com isso”.
CRIANÇAS NO SET
Em um de seus trabalhos mais recentes, Juntas e Separadas, Matheus Costa contracenou com Natália Lage, que, assim como ele, iniciou a carreira ainda na infância. O encontro, mais do que uma coincidência biográfica, acabou se refletindo no processo de criação. “A preparação foi um trabalho muito consistente. Desde o primeiro encontro, me chamou a atenção a inteligência dela, não apenas como atriz, mas na forma como constrói a personagem. Em muitos momentos, a minha própria composição partiu do que ela propunha em cena.”

Maheus estreou na TV ainda criança (Foto: Ieda Ribeiro)
O passado em comum, no entanto, não surgiu de imediato. Só foi abordado já durante as gravações, de maneira quase casual. “Estávamos no cenário pela primeira vez, olhando algumas fotos, quando comecei a comentar que já trabalhava desde criança. Foi então que percebemos esse ponto em comum e conversamos sobre isso.”
“Existe uma linha tênue entre valorizar os trabalhos antigos e não conseguir dissociar essa imagem. É fácil cair em um lugar de frustração quando não se é visto como adulto. Há um tipo de estigmatização. Não sou mais um ex-ator mirim, nem um ex-ator. Sou ator – Matheus Costa
O que se impõe não é a grandiosidade dos cenários nem o peso das histórias, mas a forma como Matheus Costa atravessa todas elas: com personagens que carregam dúvidas, contradições e zonas de silêncio. Do épico religioso ao drama íntimo, há uma coerência discreta em seu percurso, como se cada papel fosse menos uma afirmação e mais uma tentativa de entendimento. Longe da imagem cristalizada da infância, ele avança sem alarde, sustentando uma presença que não busca respostas fáceis — apenas a permanência, paciente, de quem ainda está em processo.
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