“Marina”: Novela que volta fragmentada no Globoplay teve briga judicial entre autores pela titularidade de obra


A partir da próxima segunda-feira, “Marina” retorna ao Globoplay, quatro décadas após ter passado quase despercebida em 1980. A novela, estrelada por Denise Dumont e Lauro Corona, renasce pelo Projeto Fragmentos, que recupera obras parcialmente perdidas da Globo. A volta reabre a polêmica sobre a autoria do romance “Marina Marina”, de Carlos Heitor Cony e Sulema Mendes, cuja coautoria feminina foi inicialmente omitida. Romancista e advogada, Sulema travou disputas literárias e morais – da defesa ambiental das Sete Quedas à tentativa de censurar novelas e comerciais nos anos 1990. Hoje, como sua obra, ela permanece quase esquecida, entre o resgate e o apagamento

*por Vítor Antunes

A partir da próxima segunda-feira, 10, uma novela que passou em brancas nuvens quando foi exibida originalmente, “Marina”, retorna ao Globoplay. Protagonizada por Denise Dumont e Lauro Corona (1957-1989), a trama volta à cena através do Projeto Fragmentos, iniciativa da emissora para restaurar e disponibilizar obras antigas cujo registro audiovisual sobrevive apenas em partes. Mas o retorno de “Marina” vem cercado de polêmica – e de uma antiga disputa autoral. O folhetim, exibido em 1980, foi baseado no romance infantojuvenil “Marina Marina”, assinado por Carlos Heitor Cony (1926–2018) e Sulema Mendes. O problema é que, quando o livro foi lançado, Sulema não apareceu como coautora: apenas o nome de Cony estampava a capa. Ela entrou na Justiça. Mas, quando a novela foi ao ar, na Globo, a omissão se repetiu — a Globo creditou a adaptação como baseada apenas em obra de Cony, ignorando a participação de Sulema. Novamente, a coautora acionou a Justiça e o seu nome foi incluído nos créditos.

O caso veio à tona em 31 de maio de 1980, numa nota publicada na coluna de Cidinha Campos no jornal O Fluminense. Sem revelar o nome da escritora, a colunista relatou que “uma mulher foi à Globo na última quarta-feira, afirmando ser a autora de ‘Marina’, que está sendo creditada como adaptada da obra de Cony. Ela diz ter provas de que vendeu a obra para ele. (…) Como a Globo já pagou os direitos da obra para ele, isso vai dar o maior buxixo”, escreveu Cidinha.

De fato, nos primeiros capítulos, a novela aparecia nos créditos como “baseada em original de Cony”. Somente depois, a emissora corrigiu a autoria. Anos mais tarde, em uma biografia sobre o escritor, ele disse: “Atualmente, os direitos autorais de ‘Marina, Marina’ pertencem a Sulema Mendes, que fazia parte da equipe das Edições de Ouro e ajudou a desenvolver o texto.”

Alteração do crédito após a reivindicação de Sulema (Foto: Reprodução)

Crédito nos primeiros capítulos de “Marina” (Foto: Reprodução)

Além da disputa literária, Marina guarda outro tipo de lacuna: a da própria imagem. Dos 137 capítulos, apenas seis resistiram à erosão da fita magnética e à desatenção institucional. Foi ali que Edson Celulari fez sua estreia na televisão — e, décadas depois, lamentou o desaparecimento da obra. “Que pena saber disso [que “Marina” foi apagada]. Lembra que há poucos anos o museu pegou fogo. O Brasil tem um certo descuido. Preservar memória custa empenho econômico. Isso é uma memória curta, uma memória pálida. Falar que ‘pegou fogo num museu’ é uma crueldade. Ou que tal novela se perdeu por ser mal acondicionada é uma loucura.”

Marina foi exibida em 1980 e volta no Globoplay (Foto: Divulgação)

QUEM É SULEMA MENDES?

Romancista, diplomada em Direito, advogada, professora. Sulema Mendes é o nome literário de J. Sulema Mendes de Budin, autora que transitou entre o foro e a ficção, entre o pragmatismo das leis e o imaginário da literatura infantojuvenil. Nascida em Palmas (PR), em 20 de outubro, formou-se pela Faculdade Estadual de Direito de Londrina, hoje incorporada à Universidade Estadual de Londrina.

Durante os anos 1970 e 1980, Sulema escreveu para o público jovem e assinou contos e romances editados por casas populares como as Edições de Ouro. Mais tarde, Sulema Mendes deslocou sua militância para o campo ambiental. Passou a escrever artigos e reportagens sobre ecologia, com foco especial nas áreas de energia e seus impactos ambientais. Em 1982, lançou uma campanha intitulada “Vamos Salvar as Sete Quedas”, publicada no Jornal do Brasil. Naquele momento, criticava abertamente a construção da Usina de Itaipu, que, segundo ela, poderia “destruir um dos mais belos patrimônios naturais do planeta”. As Sete Quedas do Iguaçu desapareceriam sob o reservatório da barragem dois anos depois.

Edson Celulari, Glauce Graieb e Norma Blum em “Marina (Foto: Nelson di Rago/Divulgação/Globo)

A escritora também ficou conhecida por sua atuação moralista diante da televisão. Em 1991, duas décadas após Marina, Sulema tentou impedir a exibição de capítulos das novelas “O Dono do Mundo” e “Ana Raio e Zé Trovão”, ambas no ar naquele ano, além de um comercial de motel protagonizado por Antônio Fagundes. “Os valores pregados pela novela são nocivos, (…) e induzem à prostituição (…), assim como o [comercial] de Antônio Fagundes para o Motel Snoob, que induz ao adultério. Em ‘Ana Raio e Zé Trovão’, Dolores Estrada (Tamara Taxman) promove o adultério”, argumentou.

Segundo ela, os pedidos de proibição se baseavam em um artigo do código de ética da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), conforme noticiado por Maurício Mendes em sua coluna no O Fluminense, em 1991. A autora, que um dia lutara por crédito literário, agora travava uma guerra moral contra o que via como “decadência dos costumes” na teledramaturgia.

Depois disso, o rastro de Sulema Mendes praticamente se perdeu. Não há informações recentes sobre sua vida ou sua morte — apenas os fragmentos de uma carreira que começou nas letras, passou pela polêmica, chegou à militância ecológica e terminou, como sua própria novela, envolta em névoa.