Maria Carol Rebello volta às novelas e revela como convive com o luto em consequência da morte trágica de seu irmão


A atriz retorna às novelas em “Êta Mundo Melhor!” e em um momento de transformação pessoal e profissional. Após quase uma década longe das tramas televisivas, ela integra o spin-off de uma produção de sucesso, revisitando uma personagem marcante. Seu retorno coincide com a perda trágica de seu irmão, João Rebello, vítima de um assassinato por engano, e com as lembranças do seu tio, o diretor Jorge Fernando, que morreu em 2019 e a dirigiu em “Êta Mundo Bom!, em 2016. Em meio ao luto, ela encara o trabalho como um presente e reforça a importância da Justiça. Além da TV, dedica-se ao teatro, onde planeja homenagear o tio e abordar temas sociais urgentes

*por Vítor Antunes

Regressar é reunir dois lados e juntar pedaços.” Essa é uma livre adaptação de um dos versos de uma música de Aldir Blanc (1946-2020), tema da novela “Tieta”. Ainda que Maria Carol Rebello não tenha participado dessa produção, a referência à canção serve para ilustrar seu retorno às novelas. Sobrinha do saudoso diretor Jorge Fernando (1955-2019), Maria Carol fez sua última novela sob a direção do tio: “Êta mundo bom!”, em 2016. Agora, em 2025, essa trama ganha um spin-off, marcando seu retorno à televisão. Além disso, este também é seu primeiro trabalho após a brutal morte de seu irmão, João Rebello (1979-2024), assassinado por engano na Bahia. João foi ator mirim e trabalhou em “Vamp” (1991) ao lado da irmã.

“Estou em um momento da minha vida em que recebo esse trabalho em ‘Êta Mundo Melhor’ como um presente, uma forma de continuar a engrenagem da vida, esse mistério absurdo. Recebi o convite para participar da novela na manhã do dia da morte do meu irmão e, à noite, aconteceu a tragédia. O luto é um processo muito pessoal e leva tempo. Ainda é algo recente para mim. Meu irmão não era apenas um irmão; ele era meu melhor amigo e a pessoa por quem eu tinha – e tenho – a maior admiração. Passar por esse processo tem sido muito difícil, um tempo marcado por muita saudade. Há dias particularmente desafiadores, mas não tenho problemas em falar sobre o assunto. Pelo contrário, quero falar quantas vezes for necessário sobre o equívoco terrível que levou a vida dele.”

Maria Carol relata que, logo após a morte de seu irmão, em uma semana, três pessoas foram indiciadas: um como mandante e dois como atiradores. O mandante se apresentou à polícia e permanece preso na Bahia. “Ainda não sabemos qual será sua defesa, pois o caso ainda não se tornou um processo penal, apesar de o inquérito e as investigações terem sido concluídos. Um dos atiradores morreu em confronto com a polícia em Arraial d’Ajuda, enquanto o terceiro, que estava foragido, foi preso dias depois no Espírito Santo. Mas tudo acontece de forma muito lenta. A Justiça que tanto pedimos não era apenas para punir os culpados, mas também para preservar o nome e a honra do meu irmão, para que ele jamais fosse associado a qualquer envolvimento com o crime. Agora, resta aguardar a morosidade do sistema judicial”.

A atriz prossegue dizendo que lidar com o luto é um desafio diário. “Ainda é difícil assimilar, por mais que tentemos nos atualizar e ter clareza sobre os acontecimentos. A revolta é grande e a saudade, imensa. Além disso, algumas coincidências me fazem refletir, como o fato de ter recebido essa oportunidade profissional no mesmo dia da tragédia. Tento encarar tudo isso, assim como os momentos bons que ainda posso viver – uma risada com amigos, um lugar agradável, a companhia de alguém especial – como presentes. A vida é um mistério, e devemos vivê-la e aproveitá-la da melhor forma possível”.

Vivemos uma problemática séria em nosso país com o crime organizado e o uso de armas de fogo. Inúmeras pessoas inocentes perdem a vida por conta dessa realidade. É importante ressaltar que isso não distingue classe social; estamos todos vulneráveis a essa verdadeira guerra civil. E essa não é uma questão apenas do Brasil, mas algo global, um reflexo dos tempos em que vivemos – Maria Carol Rebello

Maria Carol e João Rebello. Ex-ator foi assasinado por engano, em 2024 (Foto: Reprodução)

Como é conviver com o título de ser uma ‘nepobaby’? Carol não problematiza a situação: “Sobre a ideia de ter facilidade para conseguir oportunidades ou se adaptar ao meio artístico, nunca senti isso. Sempre estive na batalha, fazendo testes, buscando meu espaço e produzindo meus próprios espetáculos. Nunca protagonizei grandes produções sem esforço. Enquanto algumas pessoas contam com patrocínios e apoio, eu sigo construindo minha trajetória por mérito próprio. As pessoas sempre vão comentar e problematizar, mas, para mim, a herança artística é algo bonito, algo que corre no meu sangue e que faço por amor, e não por qualquer ideia de privilégio ou posição garantida.Existem diferentes casos e contextos dentro das famílias e das carreiras artísticas. Acredito que as pessoas problematizam essa questão muito mais do que quem realmente vive essa realidade. No meu caso, essa discussão sempre veio mais de fora do que de mim mesma. Minhas questões sempre foram mais pessoais, como pensar se deveria estudar algo diferente ou explorar outras áreas. Sempre fui muito curiosa e, de fato, fiz isso: estudei moda, sou formada em maquiagem, tatuo e realizo diversas outras atividades. Acho que a essência do artista está no sangue, independentemente da forma como se expressa”.

Para a atriz, o caminho para o palco foi natural. “Minha carreira artística foi construída com apoio e incentivo dentro da minha família. Sempre tivemos essa característica de trabalhar juntos. Minha mãe esteve por trás das câmeras e dos palcos, empresariando e produzindo. Meu irmão começou como ator e depois seguiu para a produção. Minha avó – Hilda Rebello (1924-2019) também sempre esteve presente. Jorge foi a pessoa que me levou pela mão e realmente me ajudou a construir minha trajetória. Isso é algo muito emocionante e significativo para mim. Aprendi com ele que o trabalho árduo e a dedicação são as bases para qualquer sucesso verdadeiro. Mais do que isso, ele me ensinou a importância do respeito, da disciplina e da generosidade dentro do meio artístico. Sempre me incentivou a desenvolver meu próprio caminho, sem depender de atalhos ou privilégios, mas confiando na minha capacidade e paixão pelo que faço.

A atriz prossegue dizendo sobre a saudade do tio e seu legado afetivo: “Lidar com a ausência dele é delicado e muito emocionante. Lembro do dia em que precisei ir ao Projac sozinha pela primeira vez, dirigindo e chegando ao estacionamento. Foi a primeira vez que entrei naquele ambiente sem ele. É um sentimento difícil de descrever, uma mistura de respeito e solidão, como uma criança indo para a escola sozinha. Mas sinto sua presença muito forte em vários momentos da minha vida, e sei que isso não vai mudar.

Ele me deixou um legado muito poderoso, raízes profundas não apenas no meu jeito de ser e de tratar as pessoas, mas também artisticamente. Ele me ensinou que o respeito, a generosidade e a alegria são essenciais em qualquer profissão, especialmente na arte. Curiosamente, em ‘Vamp’, por exemplo, toda a família estava envolvida: eu, João, minha avó Hilda e meu tio Jorge. Foi quase como uma reunião de Natal, um ambiente que mesclava família e trabalho de forma muito natural e harmoniosa. Esses momentos compartilhados são lembranças preciosas que carrego comigo. Sei que, de alguma forma, meu tio continua me guiando e inspirando a seguir em frente. Cada ensinamento que ele me passou, cada conselho dado com amor e sabedoria, reverbera em mim diariamente, me fortalecendo como pessoa e como artista. Ele vive nas minhas memórias, no meu trabalho e na forma como escolho trilhar meu caminho”.

Hilda Rebello, Jorge Fernando e Maria Carol. Os três trabalharam juntos em novelas como “Guerra dos Sexos” e “Verão 90” (Foto: Reprodução/TV Globo)

MELHOR É MAIS QUE BOM!

Maria Carol volta às novelas com “Êta Mundo Melhor“, continuação de “Êta Mundo Bom“, exibida em 2016. “Já estava ouvindo rumores sobre a continuação da novela. Foi uma novela muito especial para mim quando interpretei a Olga, em 2016. Tenho um carinho enorme por essa personagem e adoro atuar em produções de época. Interpretar uma mulher dos anos 40 é um prazer, ainda mais em um projeto tão significativo. Olga, minha personagem, teve um arco narrativo muito rico, transitando por diversas histórias. No início, era uma dançarina que fingia ser professora e levava uma vida dupla. Apaixona-se por um homem, fica noiva de outro, é desmascarada e, por fim, refaz sua vida ao lado do Dr. Araújo, interpretado por Flávio Tolezani. Seu grande sonho era construir uma família, e a novela terminou com ela alcançando esse objetivo.”

A nova produção trará um salto temporal, transportando a trama dos anos 40 para os anos 50. “Estou empolgada porque adoro esse período da história, principalmente por causa da moda e do contexto cultural. A princípio, Olga retornará com seu visual original, mas haverá mudanças significativas na caracterização à medida que o tempo avança. Estamos no processo de criação e construção da personagem. As gravações começam no início de abril, e no dia 25 deste mês iniciamos as leituras e a preparação de figurino e caracterização.”

Maria Carol Rebello volta às novelas depois de dez anos, numa novela de Walcyr Carrasco. Novela começa a ser gravada em abril (Foto: Priscila Nicheli)

Carol pretendia se dedicar ao teatro este ano, mas o convite para a novela mudou seus planos, principalmente devido ao carinho que tem pela trama. Além disso, “Êta Mundo Melhor” é um dos raros exemplos de spin-offs na TV Globo. Outras emissoras, como a Record, Band e Manchete, já adotaram estratégias semelhantes com produções como “Mutantes“, “Os Imigrantes” e “Amazônia”, respectivamente. Walcyr Carrasco, autor da novela, também foi responsável por outro spin-off na Globo, “Verdades Secretas II“. “Eu tinha projetos no teatro, minha grande paixão, e estou focada em retomá-los em 2025. Interpretar Olga novamente é algo inédito para mim na dramaturgia. Nunca havia tido essa experiência de revisitar uma personagem depois de tantos anos. É um desafio fascinante, como acontece em séries com continuações. Com um intervalo de quase dez anos, precisei rever a novela para reencontrar a essência da Olga e me reconectar com sua trajetória.”

A montagem teatral que a atriz produzia era uma homenagem ao seu tio e se chama “O Menino do Olho Azul“, projeto que deve ser retomado ao fim da novela, assim como a adaptação de um livro com uma temática social relevante. “Gostaria muito de levar para São Paulo a peça ‘O Menino do Olho Azul’, que já apresentamos no Rio de Janeiro. Meu objetivo é alcançar outras capitais. O espetáculo infantil foi protagonizado por Xande Valois, um grande parceiro de trabalho. Sempre quis trabalhar com ele novamente e o coloquei para interpretar o Jorge na peça, papel que desempenha brilhantemente. Atualmente, estou captando patrocínio para remontar o espetáculo em São Paulo e outras cidades”.

E acrescenta: “Além disso, tenho outro projeto em andamento: a adaptação teatral do livro “Presos que Menstruam“, de Nana Queiroz. Esse livro mexeu profundamente comigo quando o li, em 2017. Ele aborda as condições das mulheres no sistema prisional brasileiro e traz histórias muito intensas e necessárias. As mulheres presas são frequentemente esquecidas. Muitas são abandonadas pelos maridos e afastadas dos filhos. Dramaturgicamente, esse é um universo riquíssimo e pouco explorado. Os dados sobre o encarceramento feminino no Brasil são alarmantes. A maioria das detentas foi presa por tráfico de drogas, muitas vezes para sustentar os filhos ou porque foram envolvidas por maridos e filhos. Outro tema urgente é a pobreza menstrual nos presídios. As condições dessas mulheres são degradantes. Vemos tentativas de cortes em verbas destinadas a necessidades básicas, como absorventes. Muitas mulheres são presas grávidas ou têm filhos dentro da prisão, o que torna a situação ainda mais crítica.”

Maria Carol Rebello quer discutir a questão da mulher em montagem que revisita detentas (Foto: Priscila Nicheli)

Além disso, o sistema carcerário foi projetado para homens. “Não há estrutura adequada para atender às necessidades femininas. Muitas prisões simplesmente pintam as paredes de rosa e consideram isso suficiente, ignorando problemas estruturais que expõem as detentas a situações humilhantes. O livro “Presos que Menstruam” aborda essas questões com profundidade, e eu quero muito trazer essa realidade para os palcos.”

Para finalizar, Maria Carol reflete sobre seu ofício e como a sensibilidade de seus personagens a ajuda a compreender melhor os desafios da vida. “Acredito que somos responsáveis pela forma como escolhemos viver, apesar das circunstâncias externas. Tudo depende do olhar que damos às nossas experiências, dores e desafios. O segredo da vida está em conduzir essas situações com aprendizado e transformação. Nos últimos anos, especialmente com as perdas que enfrentei, tenho refletido sobre isso. O que fica das pessoas que amamos? Como seguir adiante? O tempo pode ser curto, mas precisamos nos apegar ao que aprendemos com aqueles que marcaram nossa vida. Falar sobre isso é fácil, colocar em prática é difícil. Viver é complicado, mas o exercício está em manter uma visão positiva e buscar crescimento. Jorge Fernando costumava dizer que, diante de um problema, temos duas escolhas: nos deixarmos consumir por ele ou olharmos de fora para encontrar uma solução. Se ficarmos paralisados, não saímos do lugar. Mas se conseguirmos enxergar além, damos o primeiro passo para seguir em frente. Como atriz e artista, vejo a arte como um instrumento essencial para transformar e educar a sociedade. Através da arte, pensamos, criamos e encontramos soluções”.