*Por Brunna Condini
Primeiro filme estrangeiro protagonizado por Marco Pigossi, ‘Maré Alta’ estreou nos cinemas brasileiros, trazendo o ator de uma forma inspirada e madura. O longa escrito e dirigido pelo cineasta italiano Marco Calvani, também marido de Pigossi desde 2024, conta a história de um imigrante brasileiro que vive em Provincetown (EUA), refúgio da população gay estadunidense desde meados dos anos 1980. Talvez o ator esteja tão inteiro em cena por se tratar de uma narrativa que se mistura à sua própria biografia. Morando em Los Angeles desde 2018, ele também é um imigrante, inclusive em momento nada favorável por lá, com as políticas radicais e retrógradas de Donald Trump a respeito da imigração, e também da comunidade LGBTQIA+. E tal qual Lourenço, seu personagem, Pigossi também fez movimentos nos últimos anos em busca de reconexão com sua identidade. Saiu da Globo após 12 anos e 12 novelas, e foi viver publicamente sua orientação sexual.
Esse filme é um renascimento para mim. Como pessoa e como artista. O meu movimento de sair da Globo e me expandir. Procurar outros países, outras culturas e, principalmente, outros produtos que não fossem a telenovela. Fui em busca do cinema, das séries. Nossas novelas são maravilhosas, mas a jornada do galã é sempre muito semelhante. Precisava interromper esse ciclo até como pessoa. Passei 12 anos dentro de um estúdio, queria viver outras coisas – Marco Pigossi

Marco Pigossi protagoniza filme estrangeiro pela primeira vez, diz que projeto é renascimento como pessoa e como artista e fala do recomeço da carreira fora do Brasil (Divulgação)
O ator lembra do seu trajeto até ‘Maré Alta‘. “Teve o meu encontro com meu marido em 2020, havia minha declaração pública, tinha o documentário ‘Corpolítica’, onde acompanhamos quatro candidaturas LGBTs nas eleições municipais de 2020, uma forma de trazer à frente essas pessoas que estão na linha de batalha da política institucional; mas permanecia uma vontade muito grande de falar do tema através do meu ofício, do meu trabalho como ator”, conta.
Ele conversou com o site direto de Londres, onde lançou o filme no sábado (22), no Festival de Cinema LGBTQIA+ de Londres, realizado no British Film Institute. Em seguida, em 27 de março, o longa participa do GLAAD Awards, em Los Angeles, onde concorre na categoria Melhor Filme. A premiação é considerada o ‘Oscar queer’. “Estou exausto, mas muito feliz com a trajetória de ‘Maré Alta’. Ainda mais neste ótimo momento para o nosso cinema. Porque é uma produção americana, mas tem um brasileiro dentro da história, então é um cinema um pouco nosso também”.

Marco Calvani e Marco Pigossi no set de ‘Maré Alta’ (Divulgação)
No filme falamos de um tema universal e isso acabou tocando as pessoas de uma forma muito bonita e profunda. Pelo menos na nossa temporada nos Estados Unidos. Espero que seja da mesma forma no Brasil. Ele é pessoal para mim, mas não autobiográfico, é ficção. Fala de coisas que vivi, como essa questão de se encontrar em um novo lugar, uma nova língua, outra cultura. E a questão de se entender como um homem gay no mundo. Esse projeto vem disso e do meu encontro com o Marco Calvani, meu marido – Marco Pigossi
Buscador
O ator de 36 anos tem uma carreira de 20, e vem trabalhando quase sem pausas. Ele conta que agora o objetivo é buscar projetos que lhe falem alto como artista. “A beleza da minha profissão é que quanto mais velho ficamos, melhor ficamos. Mais bagagem e experiências. Olha a dona Fernanda (Montenegro) aí. Por isso procuro novas experiências, que me transformem como homem e artista. E já venho alcançando isso”.
De que formas? “De muitas. Na questão da autoaceitação, de lidar com uma homofobia internalizada, que nem eu sabia que tinha. Na questão da imigração, do que é viver hoje nos Estados Unidos. Estamos falando de uma política de imigração muito violenta. E também, neste caso, da questão de sair do lugar do branco, que sempre ocupei. Porque nos Estados Unidos sou considerado latino. Eu já fazia parte de uma certa minoria, como homem gay no Brasil, mas dentro de um privilégio muito claro: sou branco, não afeminado. E aí, quando você vive isso aqui fora, já te colocam em uma outra ‘caixinha’. Então, você se entender dentro de tudo isso, mexe muito”, avalia.

Marco Pigossi sobre ‘Maré Alta’: Esse filme é um renascimento para mim. Como pessoa e como artista” (Foto: Reprodução/Instagram)
“Fora que o trabalho neste filme também me transformou muito. É um outro tipo de atuação da que eu estava acostumado, a da telenovela, de mostrar os sentimentos, uma coisa para fora. ‘Maré Alta’ é um filme interiorizado. Na novela, queremos ver a lágrima escorrer, neste filme, a lágrima vem, mas precisa ser contida. Foram muitos os desafios como ator, trabalhando de forma diferente da escola de onde venho. Além disso, também mudei como homem. Estou casado, tenho a vida com Marco e com a nossa cachorrinha (Nina). Misturado a isso tudo, tem o meu recomeço de carreira”.
Tenho uma trajetória no Brasil, mas ela não se traduz nos Estados Unidos, as pessoas não viram as minhas novelas. É reconstruir do zero – Marco Pigossi
Ainda sobre o momento, o ator analisa: “Hoje recomeço minha carreira de um lugar mais tranquilo. Tenho minha experiência, bagagem. Sei o que quero e o que não quero. Entendo os projetos e personagens que me interessam. Tenho também uma estabilidade financeira, que me traz mais calma. Não pretendo mais fazer tudo ao mesmo tempo. Desejo fazer trabalhos que me motivem, depois quero ficar com a minha cachorra, com o meu marido. Estou conhecendo novas versões minhas”.

James Bland, Marco Pigossi e Marco Calvani nas filmagens de ‘Maré Alta’ (Divulgação)
Abrigo na vocação
Pigossi começou a fazer teatro aos 15 anos, como uma forma de expressão artística, e também uma espécie de válvula de escape para uma liberdade de ser quem era. Quando a televisão o colocou na ‘caixinha’ do galã, ele também precisou de uma ‘rota de fuga’ de encontro à sua liberdade artística. Chegou a pensar em abandonar a carreira em algum momento?
Penso em desistir da carreira todos os dias quando acordo. Não tenho o menor medo de admitir isso. Ser ator é muito complexo, muito difícil. É instável demais, uma eterna ‘montanha-russa’. Mas não sei fazer outra coisa, preciso disso para viver. É muito louco, porque eu respiro isso, não consigo existir sem – Marco Pigossi
E conclui: “A verdade é que tentam colocar atores em ‘caixinhas’ em qualquer lugar do mundo, até em Hollywood. Lidar com a indústria, essa questão da fama, de se entender dentro disso, a exposição, a falta de liberdade, essas são todas coisas para além do fazer artístico que precisamos aprender a lidar. Com a fama, muitas portas se abrem para você, por isso muita gente não consegue administrar. É uma faca de dois gumes. O que eu não consigo viver sem, é com a essência da profissão, o que é fundamental para mim”.

“No filme falamos de um tema universal e isso acabou tocando as pessoas de uma forma muito bonita e profunda” (Divulgação)
Daqui para frente
O artista revela exatamente o quer e o que não quer daqui por diante. “Meu foco principal é o cinema independente. Sou um humilde operário deste cinema, seja ele brasileiro, americano ou em qualquer lugar do mundo. O cinema independente nos dá liberdade de contar as histórias que queremos. Histórias que nos tocam. Não tenho interesse em estar preso a projetos muito longos. Quero viajar, ler meus livros, fazer boas preparações como ator. E passar tempo com a minha família. O Marco Pigossi ator/CNPJ, sempre tomou muito da minha vida. Era a minha prioridade. Hoje meu foco é a pessoa física, quero cuidar de mim, das pessoas que amo. Ter momentos de introspecção, intervalo”. E finaliza:
Eu saia e entrava em novelas e achava que esse era o ritmo. Agora vejo o quanto é importante um tempo entre um trabalho e outro. A importância do ócio para o processo criativo do ator – Marco Pigossi

“Penso em desistir da carreira todos os dias quando acordo. Mas eu respiro isso, não existo sem” (Divulgação)
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