*por Luísa Giraldo
Aos 53 anos, Malu Galli transforma Celina e rompe a imagem de personagem apagada: agora, ganha fôlego e profundidade diante da poderosa Odete Roitman (Débora Bloch) no remake de “Vale Tudo” assim como descobrindo as farsas de Maria de Fátima (Bella Campos). Na versão original, Nathalia Timberg interpretava Celina como uma mulher submissa aos absurdos da lendária vilã vivida por Beatriz Segall. Agora, Malu reinventa a personagem com uma pitada de novas camadas. Em uma sintonia que transcende às telas, Malu Galli está aberta à vida como Celina. Essa dinâmica pode explicar a boa recepção do público, que cada vez mais deseja mais espaço para os dramas dela. A personagem viralizou ao reagir a uma fala polêmica de Raquel (Tais Araujo), que comparava o envolvimento amoroso de Maria de Fátima movido por interesses financeiros, a serviços sexuais. No momento, Celina e Odete ouvem a frase incrédulas, constrangidas por já terem, também, se envolvido com homens “ricos e doentes” para mudar de vida. Com um olhar irônico e um comentário afiado, Celina rebate: “Casar por dinheiro é relativo”. A tentativa de dissociar o casamento por interesse da prostituição virou meme, dividiu opiniões e cravou o nome da personagem nas redes sociais.
Achei divertido e surpreendente. Mas fico feliz de ela ter viralizado! A personagem merece (risos)”. Ela reflete que devemos fazer o exercício de não julgar as pessoas. É muito difícil, porém é uma prática saudável” – Malu Galli
No campo pessoal, Malu se aprofunda cada vez mais na vida espiritual. A atriz completou sete anos de iniciação no candomblé no mês passado. Apaixonada pelas crenças de matrizes africanas, ela constantemente compartilha momentos de celebração religiosa com os seguidores. Em 2018, ela descobriu ser filha de Oyá, o que a leva a cultuar a conexão com o sagrado e a potência da religião.
Desde a estreia nos anos 1980, “Vale Tudo” se impôs como uma novela emblemática ao questionar até que ponto vale passar por cima de princípios para alcançar status e dinheiro. A nova versão mantém esse pulso crítico ao retratar o embate entre integridade e ambição. Nesse contexto, Celina, com um olhar entre o ingênuo e o pragmático, ajuda a escancarar essa tensão. A novela, mais uma vez, se revela um espelho incômodo e necessário das contradições sociais brasileiras. E a reação do público na web assina embaixo.

Malu Galli vive Celina, em “Vale Tudo”, e viraliza nas redes sociais (Reprodução/Instagram)
Virada emocional e financeira
A transformação emocional e financeira de Celina é dos momentos mais potentes da atual fase da trama. Animada e repleta de expectativa, Malu Galli relembra uma história pessoal de independência que ecoa na jornada da personagem: “Quando saí da casa da minha mãe para morar sozinha. Não foi uma ruptura, mas um passo em direção à minha autonomia. Dá medo, orgulho e autoconfiança, tudo junto [ao mesmo tempo]”.
Em contrapartida, a atriz destaca a potência de representar uma mulher que viveu uma nova paixão na “meia-idade”. “Tenho 53 anos e a personagem deve ter por volta de 55. Não encaro como segunda chance no amor, mas como mais uma paixão que surge. O amor pode aparecer a qualquer momento da vida”, afirma.
O amor é outro aspecto que liga Celina à Malu. A artista vive um romance com o artista Afonso Tostes há mais de duas décadas. Das telas aos palcos, variadas formas de expressão artística permeiam o cotidiano do casal, que tem único: Luiz Galli Tostes.
Não tem como dissociar amor e arte no nosso caso. Vivemos tudo junto: nosso trabalho, nossos projetos e nosso dia a dia. Conversamos sobre tudo. E nos amamos por sermos quem somos e fazermos o que fazemos – Malu Galli

Malu Galli desabafa sobre ataques ao Candomblé, religião do coração (Reprodução/Instagram)
Fé, discrição e resistência
Ao contrário das personagens sofisticadas que costuma interpretar, Malu Galli faz questão de dizer que leva uma vida simples e centrada no que realmente importa: família, amigos e natureza. “Não sou desse lugar chiquíssimo que pensam”, frisou, ao Extra. Longe de badalações, considera-se “zero fresca” e prefere encontros íntimos e programas ao ar livre a festas e tapetes vermelhos. “A vaidade está em todos os lugares, está dentro das pessoas. Mas a forma como escolhemos estar no mundo é o que nos define”, reflete.
“A religião me ensina a ver o mundo de outra forma, a olhar para as coisas com mais profundidade e para as pessoas com mais empatia”, observa Malu. Frustrada pelo posicionamento preconceituoso de muitos na sociedade, ela relatou perder seguidores nas redes ao compartilhar conteúdos sobre a religião, porém não se intimida.

Malu Galli defende a desconstrução de tabus relacionados à menstruação e à mulher madura (Reprodução/Instagram)
Os ataques que sofremos são fruto de racismo e incentivo ao ódio. É terrorismo. Tudo é pensado e orquestrado para o apagamento da cultura afro-brasileira. Temos que defender o Estado laico a todo custo. Muita coisa está por trás desta luta – Malu Galli.
Envelhecimento feminino
Malu Galli estreou na televisão na série “Anos Rebeldes”, da TV Globo. Ao longo das décadas seguintes, consolidou a carreira nos palcos. Hoje, ela carrega mais de 30 anos de experiência como atriz e ressignifica a maturidade. A artista reconhece a existência do etarismo e da pressão estética feminina. Por sorte, declara: “Não senti na pele. Sigo fazendo meu trabalho. Aos poucos, vemos mais protagonismo das mulheres maduras”.
Um movimento que acompanha a luta pela transformação do olhar direcionado pela sociedade ao envelhecimento é a validação de uma nova etapa na vida de mulheres maduras: a menopausa. Antes, o “fim” do ciclo fértil feminino significava uma derrocada na autoestima, no desejo sexual e no próprio olhar como mulher. Malu celebra a desconstrução desses tabus e revela como lidou com o climatério (período que antecede à última menstruação, mas que dá indícios físicos da perda da fertilidade).
Não temos mais silêncio em relação à menopausa. É um assunto que vem sendo muito discutido. Claro que transformou, no corpo e na mente. De diversas formas. É um rito de passagem, como a adolescência. Vamos nos encontrando cada vez mais com nós mesmas – Malu Galli.
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