Maicon Rodrigues vive Paulo César Caju em “Brasil 70” e revisita racismo e preconceito na Seleção do Tri


Ao interpretar Paulo César Caju na série “Brasil 70: A Saga do Tri”, Maicon Rodrigues resgata a trajetória de um jogador que enfrentou o racismo de forma pública durante a ditadura militar e se tornou uma voz importante do movimento negro. O ator destaca os avanços da representatividade negra, mas ressalta a necessidade de ampliar a presença em espaços de poder. Na entrevista, ele também relembra sua passagem por *Nos Tempos do Imperador*, novela marcada por discussões sobre questões raciais nos bastidores, experiência que ajudou a moldar sua trajetória artística. Ex-jogador de futebol, Maicon vê semelhanças entre atuar e jogar, ambas atividades que exigem presença, improviso e trabalho coletivo. O artista ainda afirma que encontrou em Caju um personagem que dialoga com desafios raciais que permanecem atuais no Brasil

*por Vítor Antunes

Não é incomum ouvir que o debate racial é algo novo, que não estava presente no Brasil do passado. Um equívoco histórico, obviamente. Um dos personagens que vem gerando discussão na série Brasil 70: A Saga do Tri é justamente o atravessamento racial dentro de uma Seleção essencialmente preta — e de um Brasil ainda submerso na ditadura. Na produção da Netflix, que ainda consta no Top 10 da plataforma, Maicon Rodrigues dá vida ao jogador Paulo Cesar Caju, voz ativa do movimento negro já naquela época. Paulo Cesar era, rotineiramente, alvo de preconceito. Nossa reportagem localizou dois registros importantes sobre como o racismo incidia sobre o jogador. Em um deles, ele teve que se justificar por andar sem camisa, na rua, em Manaus. No outro, a legenda era ainda mais brutal: comparava-o ao King Kong, chamando-o de “King Feio”.

Intérprete de Caju, Maicon não poupa reflexão. “Paulo surgiu em um momento importante das discussões sobre a valorização positiva da imagem da população negra. Década de 70, o papo era esse! De lá para cá, sem dúvida houve avanços, e hoje vemos uma presença maior de pessoas negras em diferentes áreas, principalmente na moda, nas artes e na publicidade. Mas ainda é preciso ampliar essa participação em espaços de decisão. Além disso, acredito que representatividade é fundamental, mas não suficiente por si só, porque também pode acabar sendo apropriada pela lógica do mercado e perder parte da força transformadora que isso gera. Mas é o jogo, sem ilusões… E Paulo sabia disso também, certeza”, diz o ator.

 

Paulo César Caju foi matéria de capa da “Fatos e Fotos”, tendo que se explicar por ter andado sem camisa em Manaus: “Estava calor” (Foto: Reprodução/Fatos e Fotos/Biblioteca Nacional)

Para Maicon, Paulo César Caju era conhecido não apenas pelo talento, mas também pela personalidade forte e pelas opiniões sem filtro. Segundo o ator, era tão importante reproduzir o jogador quanto compreender o homem por trás da figura pública. “Eu amo futebol e já conhecia a história e a carreira do Paulo César, sempre admirei! Então, quando surgiu a oportunidade de interpretá-lo, foi algo muito especial”.

Caju carregava a força de um herói popular, alguém que representava e falava a língua de um povo que precisava ser ouvido naquele contexto. (…) Fui construindo um arquétipo de alguém que usava a posição de destaque que tinha para dar voz a pessoas que não eram ouvidas, e fazia isso de maneira elegante, inteligente. Tinha uma malandragem que permitia a ele sustentar seus posicionamentos em um contexto bem difícil – Maicon Rodrigues

Tal como o personagem que interpreta na série, Maicon também foi jogador de futebol. Não é incomum que digam que o trabalho de ator é jogar — em inglês, inclusive, a expressão utilizada é “to play”. Interpretar personagens seria, então, uma forma de continuar jogando, só que em outro campo? Para Maicon, não necessariamente. “Vejo semelhanças entre as duas profissões. Ambas exigem um estado de presença de espírito, uma atenção ao momento presente. Depois de muito treino, as decisões surgem de forma orgânica, com espaço para improvisar, encontrar soluções inesperadas e estar atento ao grupo. Nesse sentido da performance, acredito que há uma conexão entre atuar e jogar futebol”, reflete o ator.

Maicon Rodrigues traz de volta o debate sobre o racismo sofrido por Caju em 70 (Foto: Brunno Rangel)

A trajetória de Maicon reúne personagens muito diferentes entre si. Em Nos Tempos do Imperador, ele viveu um personagem de destaque — figura marcada pela luta por liberdade. E, em paralelo, a novela enfrentou problemas relacionados a questões raciais presentes nos bastidores das gravações. “Alguns personagens receberam mais de mim do que deixaram algo em mim, até agora. Levei para eles referências, ideias, coisinhas da minha identidade artística, a forma como escolho dizer o que tenho a dizer, mas através de cada personagem”, diz ele.

Também vivi processos que me transformaram. Não tanto pelos personagens, e sim pela forma como algumas experiências foram conduzidas. Elas me mostraram caminhos e acabaram moldando o artista que sou hoje – Maicon Rodrigues

Para Maicon, Caju e ele têm muito em comum. “Esse personagem recebeu muito de mim, das minhas referências e daquilo que eu gostaria de dizer ao mundo. Ele representava um sonho, uma ideia, um herói, alguém que podia falar por mim e por outras pessoas. Interpretá-lo foi importante porque me mostrou que eu era capaz de construir um personagem com camadas, além das que me eram postas ali, e de maneira consistente. E ele dialogava com questões do Brasil que, apesar das mudanças tímidas, ainda permanecem atuais. Além de questionador, o homem gostava de se vestir bem, era posturado, cabelo sempre no ponto… Não só de batalha vive o homem!”, diverte-se o ator.

Paulo César Caju e Rivellino: “King Feio”, segundo a “Fatos e Fotos” (Foto: Reprodução/Fatos e Fotos/Biblioteca Nacional)

O futebol dos anos 1970 tinha uma estética quase artística. Maicon, no entanto, escapou de ter que reproduzir o seu personagem em muitas cenas dentro de campo. “Eu não sei se é sorte ou se é azar, mas, graças a Deus, eu não tinha muitas cenas em campo! Houve muitas lesões no processo, inclusive eu me lesionei também hahaha. Diferente dos outros meninos, eu tinha até mais dramaturgia fora de campo”, conta. Brasil 70, tudo indica, não era o único mergulho do ator no universo do futebol. Ele deve retornar na segunda temporada de Galera FC, série do TNT.

Maicon Rodrigues se contundiu enquanto gravava a série, sucesso do Netflix (Foto: Brunno Rangel)

Maicon Rodrigues revisita os bastidores problemáticos de novela (Foto: Brunno Rangel)

Para além dos gramados e das telas, a trajetória de Paulo César Caju ecoa como um lembrete de que a luta contra o racismo nunca foi um capítulo à parte da história brasileira, mas uma de suas linhas mais permanentes. Ao resgatar a voz de um homem que enfrentou preconceitos sem abrir mão da própria dignidade, Maicon Rodrigues ilumina um passado que ainda dialoga com o presente. Entre dribles, posicionamentos e silêncios impostos, Caju transformou visibilidade em resistência. E, décadas depois, sua história continua atravessando o tempo como uma bola lançada ao futuro: lembrando que toda conquista só é completa quando também abre caminho para quem vem depois.