*por Vítor Antunes
Há 30 anos, muita coisa mudou na televisão — desde os modos de assistir até a forma como enxergamos aqueles que fazem dela um ofício. Em 1995, galãs negros ainda eram ausências gritantes nas tramas de destaque. De igual maneira, não foram poucos os galãs – inclusive os mais alinhados ao padrão estético dominante – que não permaneceram na profissão. Alguns se perderam na espiral do tempo e abandonaram o ofício. Outros, como Luka Ribeiro, seguem na batalha. Recentemente, o ator pôde ser visto na novela “Garota do Momento” e planeja voltar aos palcos — após uma década afastado do teatro. Para ele, as transformações do mercado não foram capazes de acolher os atores da sua geração: “A minha geração, que é a do final dos anos 90, ela praticamente não existe mais. Eu sou um sobrevivente. Muitos desses atores daquela época, como o Java Mayam, o Claudio Heinrich e o Jonathan Nogueira, não estão mais na profissão — o Jonathan, inclusive, está retomando agora depois de ter feito uma participação em “Dona de Mim”. Se for colocar na ponta dos dedos quem está em atividade, trabalhando mesmo, aquela galera toda dos anos 90, que hoje está na casa dos cinquentões ou acima dos 45, já não trabalha na TV há bastante tempo”.
Eu acho assim, eu fui um privilegiado. Quando surgi em Meu Bem Querer, os galãs jovens éramos eu e o Mario Frias — que tem aquela beleza tradicional. O meu personagem era um personagem simples, de uma família simples, mas ele não tinha nenhum viés de vilania ou de bandido. Era um personagem muito relevante. Algo que só foi, já nos anos 2020, ser comum entre os atores pretos – Luka Ribeiro

Luka Ribeiro: “Se for colocar na ponta dos dedos quem está em atividade, trabalhando mesmo, aquela galera toda dos anos 90 está em casa” (Foto: Flávia Martins)
Em 2022, Luka participou do reality “A Fazenda”, da Record. Terminou em terceiro lugar na edição vencida por Douglas Sampaio. Dez anos depois da experiência, ele reflete sobre o impacto daquela participação: “Tudo na vida tem os prós e os contras. Eu tive algumas coisas, por incrível que pareça, que foram muito interessantes, muito importantes da minha participação, e algumas coisas que não foram tão boas. Tem toda uma geração de público e de perfil de pessoas, até espectadores que assistem televisão e principalmente reality shows, que não me conheciam. Ter sido finalista de “A Fazenda” me trouxe esse público.
E o ponto negativo é que é muito difícil estar num programa desse. Talvez tenha sido a experiência profissional mais difícil da qual participei em toda a minha vida — emocional, física, psicológica, espiritualmente falando. É uma exposição muito grande. O convívio, o dia a dia, são as tretas. Os programas são criados — esses reality shows — para que as pessoas, de fato, se desentendam, tenham problemas, criem confusão entre elas. A própria dinâmica do jogo é feita para que essas coisas aconteçam. Não é um spa, uma colônia de férias.
Eu fiquei 83 dias confinado, não ganhei o programa, fui até a final, não fui eliminado por ninguém, mas não ganhei. Agora, quanto a eu participar de novo… eu nunca digo nunca. Mas, a princípio, eu não faria novamente um reality show”.

Luka Ribeiro e Arlete Salles em “Meu bem Querer” (Foto: Arquivo pessoal)
REDESCOBRINDO O TEMPO
Não é uma queixa nova — há pelo menos duas décadas, a televisão brasileira reconhece a escassez de atores que possam assumir o perfil do galã na faixa dos 50 anos. Isso é tão evidente que, nas últimas quatro novelas das oito, o mesmo grupo de atores desse perfil foi revezado. Luka reconhece essa lacuna e reflete sobre como a estética do herói televisivo também está em transição: “De um modo geral, o olhar dos produtores de elenco, da própria emissora e dos autores hoje sinaliza que o perfil masculino para se fazer o galã, o herói ou o protagonista se aproxima muito mais da figura de um homem que tenha uma beleza mais comum, mais próxima de uma realidade que você pode encontrar, por exemplo, na Ilha do Governador, na Tijuca, no Méier, do que propriamente aquele galã príncipe da Disney.
E esse perfil de ‘homem maduro possível’ vem mudando a cada dia. Um exemplo seria o Domingos Montagner (1962-2016) — que obedeceria a esse perfil mais viril, mais másculo, mais rude — no qual eu até acredito me enquadrar. Talvez isso torne possível que atores com o meu perfil entrem em projetos interessantes. A expectativa é essa”.
Luka Ribeiro estreou na televisão em 1995, aos 25 anos. Envelhecer diante das câmeras, admite, é um processo delicado, mas inevitável — e que também traz lucidez.
“Claro que, para um cara que surgiu na TV muito jovem, com personagem sem camisa, com uma coisa alicerçada na beleza, eu estaria mentindo se dissesse que não importa. A gente sente o passar do tempo, ainda que seja a ordem natural da vida. Só envelhece quem está vivo. Mas compreendo: quero estar o melhor possível dentro da idade que eu tiver. Eu não luto contra o tempo para ficar parecido com o que eu era na juventude”.
Hoje é dificil que eu faça o filho, o rapaz, o herói, o mocinho. Vivo a hora de fazer o pai mesmo. Vejo o envelhecer sem preocupação, com naturalidade. Mas é óbvio que perceber o passar do tempo faz diferença – Luka Ribeiro

Luka Ribeiro: “É chegada a hora de eu viver o pai” (Foto: Flávia Martins)
COM TINTA PRETA
Nos anos 1990, sabidamente, havia pouca representatividade de artistas negros em papéis de destaque na televisão brasileira. Muitos dos homens negros eram escalados para personagens que flertavam com a submissão ou a marginalidade. Quase nenhum era o herói, o protagonista da narrativa — muito menos o galã, o belo. Para Luka Ribeiro, o fato de ter sido escalado como um dos galãs jovens de Meu Bem Querer (1998) pode ter contribuído para abrir uma brecha nesse cenário: “Nos anos 1990 a gente tinha o Norton Nascimento (1962-2007) encaixado nesse perfil, que flertava um pouco com isso, mas não era considerado pela imprensa e pelo público abertamente como um homem bonito. Também havia o Lui Mendes, e o Fernando Almeida (1974-2004). A gente tem um recorte aí dos últimos 10 anos, talvez 15, em que realmente a profissão mudou. Tanto que, vendo a reprise de A Viagem, por exemplo, noto que não há pretos no elenco da atual fase da novela. Acho que naquele momento a gente abriu ali uma porta interessante e mostrou que eram possíveis essas escalações, e ao longo dos anos a gente foi sonhando, foi tentando abrir um espaço, foi buscando esse espaço, e hoje a gente vê aí as portas escancaradas para homens e mulheres negros. Eu me sinto feliz, na verdade, de, mesmo que sem saber e sem levantar bandeira — porque eu não tinha nem esse entendimento — ser um daqueles que teve a oportunidade de ser escalado com relevância e também com esse olhar de beleza, já que eu me acho uma pessoa normal como qualquer outra”.
Eu realmente me sinto um sobrevivente na carreira por conta de todas essas reviravoltas e todas as mudanças. Acho que hoje, sim, a gente tem e percebe essa relevância do homem negro no audiovisual – Luka Ribeiro

Luka Ribeiro: “Acho que hoje, sim, a gente tem e percebe essa relevância do homem negro no audiovisual” (Foto: Flavia Martins)
A última participação de Luka na televisão foi na novela Garota do Momento, exibida às 18h e encerrada na última semana de junho. Além da novela, ele também pode ser visto no filme Vitória, protagonizado por Fernanda Montenegro e recém-lançado no Globoplay. Ainda este ano, Luka pretende intensificar a dedicação à música: “Esse ano eu faço 30 anos de carreira, 23 de casado, tenho uma filha de 16. A vida foi fazendo com que eu fosse tirando o pé em algumas coisas. Depois da banda que eu lancei em 2001, a Palavras ao Vento, hoje eu tenho a minha própria banda, ‘Luka Ribeiro e os Karas’. Eu, na verdade, tive durante sete anos uma banda com o Matheus Rocha, que era a banda Palavras ao Vento, que foi lançada em 2001. Ah, e a gente ficou até 2006, 2007 com a banda. Fizemos um relativo sucesso, a gente chegou a abrir shows do Kid Abelha, do Capital Inicial. Fizemos alguns grandes festivais, tocamos em muitas casas noturnas. Hoje eu tenho a minha banda. Eu continuo fazendo shows, faço muita coisa corporativa, faço muito show ainda no Brasil inteiro, e a gente toca os principais hits dos anos 80 e 90 em versões exclusivas”.
ENTRE O MARACAJÁ E O PARANAPUÃ
A Ilha do Governador — embora não seja um bairro oficialmente — é um território com identidade própria. Composta por catorze bairros e abrigada na zona norte do Rio, a região cultiva uma geografia afetiva e cultural que vai além do mapa oficial da cidade. A identidade do “insulano” é tão presente quanto a do “tijucano”. E Luka, filho da Ilha, carrega essa herança com orgulho: “Eu sou um simples rapaz da Ilha do Governador, criado na zona norte do Rio, para alguns, subúrbio. Eu morei no Moneró, e eu morei no Jardim Guanabara. A Ilha do Governador tem uma importância muito grande na minha vida, porque foi onde eu passei a minha infância, a minha adolescência e meu início de vida adulta. Eu só saio da Ilha quando começo a fazer sucesso, já ali aos 26, 27 anos. Até os 26, 27 anos, eu morei na Ilha e andava no ônibus da Paranapuã e consegui realizar o próprio sonho. Hoje eu completo 30 anos de carreira. Já estive, entre novelas inteiras e participações, em mais de 26 novelas. No cinema, tive a oportunidade de fazer filmes com os maiores do nosso cinema. Fiz Heleno, com o Rodrigo Santoro, fiz O Homem do Futuro, com o Wagner Moura, e Vitória, com a Fernanda Montenegro”.

Luka Ribeiro e Fernanda Montenegro (Foto: Arquivo pessoal)
O poeta alagoano Jorge de Lima escreveu que “a ilha tem um segredo que só conhece quem vai. Ela esconde dentro d’água a sede que a gente traz.” Sabemos, todos, que nenhum homem é uma ilha — mas o que seria de um homem se não fosse circundado por seus sonhos? São eles que o ligam ao continente. Esse é Luka Ribeiro: um homem em transformação, em movimento. A vida, para ele, não é a calmaria da barca do Cocotá — mas o impulso que nos leva a compreender que a terra que nos sustenta é a mesma que sonha. E que o desejo é a embarcação que atravessa, incansável, essa baía.
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