Luiza Mariani admite saudade da TV, expõe vigilâncias sobre corpos femininos e faz reflexões sobre aborto


Fora da Globo desde 2010, a atriz consolida uma trajetória marcada por lucidez e autonomia, guiada pela capacidade de transformar sua própria experiência em matéria artística. Ela está escrevendo o roteiro do filme sobre a cantora Marina Lima, e volta à cena com a montagem teatral de Hedda Gabler, ambos projetos produzidos por Luiza. Sua ausência da televisão reflete uma escolha consciente pela autoprodução, iniciada ainda aos 21 anos e aprofundada durante a maternidade e o desenvolvimento do filme “Cyclone”. A longa jornada desse projeto revela sua persistência e o vínculo profundo que estabeleceu com a história de Miss Cyclone. Ao analisar corpo, maternidade, deslocamento e criação, Luiza reafirma uma ética baseada em delicadeza, resistência e responsabilidade artística

*por Vítor Antunes

Há algo como uma franqueza quase antiga e uma lucidez contemporânea na maneira como Luiza Mariani articula seu percurso. A atriz quer ser uma voz de mulher que pensa o próprio ofício enquanto elabora a existência. Não se trata apenas da condição feminina inscrita no século XXI, mas de um estado de presença que atravessa épocas. Entre projetos, inquietações e uma espécie de arqueologia íntima do que significa “ser mulher”, ela organiza seus próximos passos. Ela está no processo de escrita do filme sobre a cantora Marina Lima. “Uma figura impactante, uma mulher que desperta muito interesse em mim. É um projeto meu, produzido por mim e por Joana Mariani, que dirige este filme”, revela.

Depois de alguns anos distante da televisão aberta, Luiza admite sentir falta do lugar que a consagrou para o grande público. “Estou ansiosa para voltar à televisão. Na Globo não faço nada desde 2010 e sinto muita saudade de retornar às novelas”. A última aparição de Luiza na emissora foi na série “A Cura”. O distanciamento, no entanto, não se explica apenas pela dinâmica do mercado, mas por uma escolha que acabou definindo toda a década seguinte.

“O período fora da televisão coincide com o momento em que passei a me autoproduzir. Aprendi isso com Domingos de Oliveira (1936-2019), com quem comecei a fazer teatro. Entendi que, se quisesse trabalhar e continuar em movimento, precisava ter o ímpeto de me produzir, encontrar um bom texto e bons parceiros. Produzi minha primeira peça aos 21 anos e não parei mais. Foram cerca de cinco peças. “Cyclone” foi meu primeiro longa, um projeto muito extenso, que tomou muito tempo da minha vida. Nesse intervalo, casei, tive dois filhos e me dediquei integralmente à maternidade. Foi a combinação de muitos fatores e um desejo profundo de colocar em prática projetos que me interessassem, motivassem e me mobilizassem”.

Luiza Mariani fala sobre vontade de voltar às novelas (Foto: Reprodução/Instagram)

CYCLONE

Em seu trabalho mais recente, Luiza mergulhou na história de Maria de Lourdes Castro Pontes (1900-1919) — a Miss Cyclone —, escritora, operária gráfica e peça viva de um modernismo ainda mal compreendido. A partir de sua história real, a atriz produziu um filme que acompanha a trajetória dessa mulher que sustentava o corpo com o trabalho repetitivo da gráfica e sustentava o espírito com a paixão pela dramaturgia. Quando Maria de Lourdes recebe uma bolsa para estudar teatro em Paris, descobre que a aventura maior não é a viagem, mas a fricção permanente entre o que deseja e o que o mundo permite a uma mulher que não nasceu proprietária nem de tempo, nem de corpo.

A figura de Miss Cyclone abre, por seu próprio drama, uma fresta para o Brasil da década de 1910: ela foi a única mulher a assinar “O Perfeito Cozinheiro das Almas Deste Mundo”, diário coletivo da garçonnière comandada por Oswald de Andrade (1890-1954) no Centro de São Paulo. Ali, onde fermentava a matéria-prima de um futuro movimento cultural, havia uma mulher tentando existir pela escrita – e sendo interrompida a cada passo.

“É uma personagem que tinha ímpeto e talento – uma personagem real que estava no centro de um acontecimento que se tornaria um movimento importantíssimo no país – e não teve tempo de se viabilizar. Não teve tempo de inscrever seu talento no mundo, nem de existir através da própria escrita, que era o lugar de produção, potência e sonho, onde desejava manifestar sua força criativa. Isso me afetou profundamente e ainda me afeta. Uma mulher que foi inviabilizada, que possuía inúmeras ferramentas e instrumentos, mas a quem não foi dado tempo. De alguma forma, foi silenciada e apagada. Ela estava escrevendo uma obra que entrega a ele, Oswald, antes de morrer; ela morre em decorrência de um aborto malsucedido. Entrega essa obra e pede que ele a publique, consciente de que estava morrendo e de que aquele texto atravessaria o tempo. A vida é curta e a arte é longa. E ele perde a obra. É uma mulher que, de certa forma, morreu muitas vezes. Isso me comove profundamente”.

Vemos isso acontecer ainda hoje, com mulheres próximas, amigas, conhecidas, pessoas ao nosso redor. É um lugar que ainda ecoa e permanece presente. Ainda buscamos voz. Acredito que ainda exista uma invisibilização da mulher, embora tenhamos evoluído bastante. A sensação que tenho é que, para cada cinco passos para a frente, recuamos dois. A questão do aborto exemplifica isso: trata-se de inviabilizar a mulher, seu corpo, sua escolha, seu desejo, sua individualidade. Ainda estamos submetidas ao Estado  – Luiza Mariani

Luiza Mariani em “Cyclone” (Foto: Divulgação)

A travessia de “Cyclone”, seu longa de estreia, revela o tipo de resistência que acompanha grande parte das criadoras brasileiras. A obra, inspirada na história real de Miss Cyclone, enfrentou um percurso de duas décadas até chegar à tela. Luiza descreve o processo como uma sucessão de negociações, perdas, reinícios e tarefas que só alguém com obstinação própria de artista-produtora suportaria.

“É verdade que ‘Cyclone’ demorou 20 anos para ser realizado, somando todos os períodos. Em termos de produção do filme em si, sim. Durante o processo de compra dos direitos autorais, o filho de Pagu (1910-1962) com Oswald de Andrade, faleceu no meio das negociações. Eu já tinha adquirido os direitos para montar a obra no teatro, o que fiz em 2006 e 2007. Em 2007 comecei a saga para adquirir também os direitos para o cinema. Com a morte dele, abriu-se um inventário que levou dez anos — um processo burocrático gigantesco e extremamente desgastante. Durante esses 10 anos, comecei o processo aos 27 anos e ele terminou quando eu estava grávida do meu segundo filho, aos 36. Depois foram mais oito anos para colocar o filme de pé. Sinto que renovei o sentido dessa protagonista e desse filme ao longo do tempo. Ele só faz sentido porque consegui restabelecer, diversas vezes, essa repactuação com a personagem”.

Enquanto narra esse percurso, fica evidente que sua relação com Miss Cyclone não é apenas intelectual: é visceral. Talvez por isso ela enxergue, com clareza crescente, as esferas onde a realidade das mulheres brasileiras evolui – e onde ainda permanece estagnada. Ela identifica avanços incontestáveis no debate público, mas avisa que os corpos femininos continuam submetidos a uma vigilância que se atualiza em novas formas.

Acho que hoje esses temas são discutidos de forma cada vez mais honesta. As mulheres ainda sofrem muita pressão social, como no caso da amamentação. Lembro que, quando fui amamentar meus filhos, não conseguia fazê-lo adequadamente. Tinha passado por uma redução de mama e enfrentava grande dificuldade. Sofri muito — e sofri de todos os lados. As pessoas me criticavam pelo fato de eu não conseguir amamentar – Luiza Mariani

Luiza Mariani acredita ser importrante debater pautas femininas e falas sobre liberdade (Foto: Reprodução/Instagram)

Luiza explica que a maternidade veio acompanhada de um conjunto de expectativas quase impossíveis de cumprir — e que, ao não conseguir atendê-las, descobriu o quanto o olhar social pode ser impiedoso. “Eu já estava exausta por não conseguir alimentar a criança. Amamentei o primeiro por três meses e o segundo por dois meses e meio. Eu sangrava, tive mastite, tive tudo o que se pode imaginar. Simplesmente não conseguia. Mas ainda assim havia cobranças: ‘tente mais um pouco’, ‘como assim não vai insistir?’. A criança chorava, meu peito estava em carne viva. É evidente que amamentar é importante, mas é preciso reconhecer quando o corpo não consegue. Vivemos permanentemente sendo vigiadas em todas as questões. É extremamente cansativo.”

A beleza está em conseguir descobrir novas formas de olhar. O mundo vai mudando, e encontramos novas brechas para que essa história continue fazendo sentido. – Luiza Mariani

O tema da liberdade do corpo feminino — esse território permanentemente administrado por instâncias externas — surge na fala de Luiza como um desdobramento natural de suas experiências pessoais e das histórias que escolhe narrar. E, ao pensar no Brasil contemporâneo, recorre a declarações públicas recentes que, para ela, sintetizam a desigualdade inscrita na própria estrutura moral do país.

Achei extraordinária a fala do ministro [Luís Roberto] Barroso ao afirmar que, se fossem os homens os grávidos, o aborto já seria legal no Brasil há muito tempo. Homens ‘abortam’ há muito tempo também, no sentido de desaparecerem e abandonarem mulheres. Quantas mulheres no Brasil criam filhos sem o reconhecimento paterno? São inúmeras formas de inviabilização. Nosso corpo ainda está submetido a uma autoridade, e a impossibilidade de escolher se manifesta e aparece em diversas outras questões. De alguma forma, a história de Miss Cyclone é a história de muitas mulheres próximas a mim e dialoga também comigo: com meu ímpeto e com meu desejo de contar histórias e construir narrativas que criem diálogo.”

A reflexão sobre pertencimento — ou sua ausência — abre outra frente de pensamento quando Luiza menciona o período em que viveu em Portugal com o marido, Flavio, e os filhos. A experiência de deslocamento, segundo ela, é sempre mais profunda do que o registro administrativo de ser estrangeiro: é uma transformação silenciosa da identidade cotidiana.

“Acho que você é sempre um estrangeiro. Sempre alguém tentando se adaptar e construir pertencimento. Existe uma estranheza, um exercício diário de tentativa de inclusão — e, ao mesmo tempo, não pertencemos totalmente. Isso também é interessante, porque gera atrito de pensamento e de sensações. É uma sensação de desalinho que pode ser curiosa e profunda para quem se observa e para quem observa de fora. É muito revelador olhar o país quando se está distante, reconhecê-lo de outra perspectiva, reconhecer-se brasileiro sob outro ponto de vista. Foi uma experiência valiosa. Eu estava com meus dois filhos. Saí de um lugar de grande conforto e privilégios, onde tinha uma ampla rede de apoio, e fui para um cenário totalmente diferente, sem ajuda alguma. Hoje, quando penso na época em que meu marido precisava vir ao Brasil com frequência e eu ficava sozinha com duas crianças pequenas, reflito sobre como teria lidado com situações extremas, como uma apendicite de madrugada. O que eu faria com duas crianças?”

Luiza Mariani fala sobre dos desafios da maternidade (Foto: Reprodução/Instagram)

Esse deslocamento, somado às discussões domésticas diárias, contribuiu para uma reflexão cada vez mais nítida sobre maternidade e educação — especialmente sobre como criar uma filha e um filho sem reproduzir padrões que ela própria passou a vida tentando desfazer. O desafio, admite ela, é permanente e delicado: exige observação constante e conversas que começam cedo, antes mesmo de virarem tabu para a sociedade.

“Temos uma casa onde tudo é conversado. Minha filha é muito espontânea, então os assuntos circulam com naturalidade. Ela tem 13 anos e traz uma visão de mundo completamente diferente daquela que eu tinha nessa idade. Ela me ensina muito em relação a posicionamento e forma de enxergar o mundo. Meu filho cresce nesse ambiente, no qual tem uma mãe e uma irmã que falam muito. Falamos sobre menstruação, gravidez; são temas que ecoam permanentemente em nossa casa. Sem panfletagem, de forma natural. É um desafio observar os meninos dessa geração, especialmente ele, que tem 9 anos e é pequeno ainda, mas já começa a se encantar pelas meninas.”

Ao final da conversa, quando tenta sintetizar a ética pessoal que guiou sua trajetória e segue orientando suas escolhas, Luiza troca a contundência pelo despojamento que lhe é próprio. Ela reconhece que a delicadeza — tão frequentemente confundida com fragilidade — foi a ferramenta que escolheu para atravessar o mundo, mesmo nos momentos em que isso lhe custou desgaste ou invisibilidade.

E pontua: “Tento ser honesta comigo e com os outros. Também prezo pela gentileza e pela educação. Trabalho muito nesse registro: educação, delicadeza e gentileza. Não sou de briga, não levanto a voz. Às vezes acho até que preciso trabalhar esse outro lado de me impor de maneira mais firme. Já passei por situações difíceis na profissão — ser maltratada, deixada de lado —, mas sempre preferi manter a honestidade e a delicadeza. Esse foi o caminho que escolhi seguir. Em casa, grito, faço terapia, extravaso, mas no trato com o outro prefiro me manter íntegra, alinhada ao meu centro. Há uma frase que ouvi recentemente, do Newton Bonder, que me tocou profundamente e que pode ser incluída: ‘Quando não manifestamos nossa potência, não realizamos quem somos’.”

Luiza MAriani morou em Portugal com a família (Foto: Reprodução/Instagram)

O percurso de Luiza Mariani revela uma combinação de fragilidade e força que se manifesta como um exercício permanente de lucidez. Cada etapa de sua trajetória amplia a ideia de que a existência feminina ainda enfrenta disputas profundas. A memória de Miss Cyclone, as tensões da maternidade, os deslocamentos em Portugal e a necessidade de criar com autonomia formam um conjunto que explica o alcance de sua voz. Luiza rejeita o apagamento e escolhe a delicadeza como método de convivência e de trabalho. Essa escolha sustenta sua aposta em narrativas que iluminam experiências esquecidas e recuperam presenças silenciadas. Suas palavras sugerem um caminho que combina resistência e invenção e anunciam uma artista que ainda busca novas formas de expressar quem é e o que deseja realizar.