Lucas Oradovschi confirma a segunda temporada de “Tremembé” e detalha mais a transformação para interpretar Nardoni


Ator voltou ao centro do debate cultural com o estrondoso sucesso de “Tremembé”, série do Prime Video que garantiu uma segunda temporada e o retorno do ator ao papel de Alexandre Nardoni. A repercussão o colocou sob nova visibilidade, inclusive após ter sido alçado a galã na novela “Vai na Fé”. Fora das câmeras, Lucas reforça que sua vida e seu trabalho são guiados pelo candomblé, tradição que orienta seus rituais de preparação e seu entendimento espiritual da arte. Entre a demanda emocional extrema do personagem e os cuidados religiosos que adota, ele busca equilíbrio para encarar novamente um papel que exige imersão intensa. E segue conciliando carreira e fé enquanto se prepara, também, para retomar a turnê do espetáculo “Um Pássaro Não É Uma Pedra”

*por Vítor Antunes

Ele é um dos nomes por trás de um dos maiores fenômenos recentes do audiovisual brasileiro: “Tremembé”, série do Prime Video que revisitou um dos crimes mais brutais e midiáticos do país. Na produção, Lucas Oradovschi interpreta Alexandre Nardoni, condenado pela morte da própria filha, Isabella, em 2008 — um caso que repercutiu em todo o país. O êxito da série garantiu não apenas a renovação do projeto, mas também o retorno do ator ao papel que o projetou. “Eu já estou respirando fundo, pegando fôlego para dar mais esse mergulho, porque é um mergulho muito intenso.”

Ao falar de “Tremembé”, Lucas não se limita aos bastidores do trabalho. Ele mira o fenômeno que a série expôs: “Eu acho que esse trabalho audiovisual, traz uma série de debates possíveis. Muitos deles são importantes e relevantes. Um ponto que me chama atenção é que ‘Tremembé’ só existe porque essas pessoas já eram famosas há muito tempo no Brasil, mas também pela maneira como a mídia conduziu esses casos. Havia um desejo da sociedade de consumir esses crimes, e o processo se retroalimentava. As perguntas importantes são: por que temos tanto fascínio e atração por crimes hediondos e violência extrema? Por que ficamos tão mobilizados pela violência?”

A série ecoa nos debates públicos e também na vida prática do intérprete. A fronteira entre ator e personagem, sobretudo em narrativas de violência, por vezes se turva — e ele sentiu isso na pele, ainda que à distância. “Por mais que tomemos muitos cuidados na maneira como conduzimos esse trabalho, existe uma margem que sai do controle, de como somos percebidos e confundir ator e pessoa. Eu fiquei um pouco receoso em não poder mais andar na rua ou ser atacado. Eu ando muito na rua, pego ônibus, transporte público, vou ao centro comprar objetos para o teatro”.

O mergulho na crueldade — ou, como ele próprio define, na “frequência emocional” do personagem — também cobrou seu preço. Não apenas técnico, mas físico. “Nardoni me demanda acesso a determinados lugares de frequência emocional, de vibração, de energia que são muito desafiadores. Na primeira temporada, para além da caracterização realizada pela equipe, eu engordei 6 kg, porque já tinha entendido que ele era mais cheio, mais inchado no período da prisão. Antes de chegar à preparação, eu ganhei esse peso e, principalmente durante as filmagens, eu dosava o meu sono para ficar com olheiras reais, para que meu rosto mudasse de expressão. Aluguei um apartamento no centro de São Paulo e fiquei isolado”.

Quando é um trabalho em que eu trago histórias de pessoas que viveram e morreram, meu cuidado é ainda mais fino, com atenção maior. Sabendo da situação em que a pessoa que eu estava representando estava inserida, e por ser uma vítima conhecida nacionalmente, eu fiz muitos procedimentos de cuidado, inclusive espirituais. Meu objetivo era ficar alinhado e fazer de uma forma respeitosa e que funcionasse como homenagem com reverência. Muita gente acha que eu sou um sósia do Nardoni – Lucas Oradovschi

Lucas Oradovschi deu vida a Alexandre Nardoni em “Tremembé” (Foto: Jorge Bispo)

Em seu último trabalho na televisão, Lucas apareceu em “Vai na Fé ” como Jairo, o segurança galante que, ao longo da trama, passou de figura lateral a galã inesperado. O salto de personagem refletiu, de certa maneira, uma mudança de percepção sobre o próprio ator. Ele encara o fenômeno com surpresa vigilante, atento à elasticidade de sua imagem. “Essa ampliação das possibilidades de visualidade é muito interessante para mim como ator. Quando vejo pessoas próximas percebendo essa possibilidade camaleônica, me interessa não ficar preso a uma única visualidade. Ainda estou lidando com isso, ainda entendendo. Os comentários nas redes sociais são muitas vezes duros nesse sentido, especialmente sobre eu ter ficado muito parecido com o Alexandre. Em alguma medida, eu entendo e carrego isso como algo positivo. Acho que esse é o maior objetivo. Esse desafio talvez tenha sido o maior da minha carreira até agora.”

A FÉ E O IFÁ

A família de Lucas veio da Bessarábia — uma região que já foi Império Turco-Otomano, Rússia, Romênia e União Soviética antes de se fragmentar entre Moldávia e Ucrânia. A cartografia instável do lugar ecoa na narrativa familiar. “Quando meu avô nasceu, era Romênia; a cidade onde ele nasceu, hoje fica na fronteira da Ucrânia com a Moldávia”.

Apesar da ascendência judaica, é no candomblé que Lucas encontra seu eixo. “Minha vida hoje, já há muitos anos, é toda orientada e cuidada por Ifá. O entendimento de vida e espiritualidade é um só. Todos os meus trabalhos têm uma relação intrínseca com a minha visão espiritual sobre a vida, o mundo e a existência. Qualquer trabalho que eu faça, eu realizo uma série de procedimentos de cuidados espirituais”.

A trajetória espiritual do ator segue o desenho clássico do sincretismo brasileiro, mas com uma precisão biográfica pouco comum. “Existe uma encruzilhada que vivemos no Brasil, marcada por atravessamentos e referências culturais diversas. A família da minha mãe é judia; a da minha pai não é. Eu já venho de um lugar de entrecruzamento. A família do meu pai tem mais relação com tradições afro-diaspóricas, com religiões de matriz africana. A família da minha mãe, embora judia, tinha meu avô ateu. Eu não recebi educação religiosa judaica.”

Lucas Oradovschi confirma a segunda temporada de Tremembé e detalha mais a transformação para interpretar Nardoni (Foto: Jorge Bispo)

Ele conta que, ainda criança, acompanhava a mãe nos terreiros que ela frequentava. Essa convivência, segundo ele, moldou uma compreensão particular do país e de si mesmo. “Para mim, o judaísmo tem relação com práticas culturais e questões filosóficas e existenciais. Na minha infância, minha mãe frequentava terreiro, então cresci nesse ambiente diverso, nesse entrecruzamento de culturas, que acho muito bonito e potente no ser brasileiro. Esses caminhos sempre fizeram parte da minha vida. Tive uma fase na adolescência com maior contato com a religião judaica, mas por alguns anos. Enquanto crença e visão de mundo, as tradições do Candomblé, especificamente as iorubás, são muito importantes e me orientam há muito tempo”.

Ele observa com curiosidade que a linhagem judaica é transmitida pela mãe — justamente a pessoa que, em sua juventude, buscava o terreiro como espaço de pertencimento. Essas camadas, diz, permeiam também seu trabalho artístico. “A minha peça também traz essas camadas; elas não são ditas, mas estão presentes. Essa visão de mundo e do mistério da vida, tanto na cosmopercepção iorubá quanto na judaica, se entrecruza no meu trabalho artístico. Arte, vida e religiosidade estão muito entrelaçadas para mim.”

Muitas pessoas tendem a separar as coisas, mas está tudo intrínseco.  Na peça, há um momento em que conto a história dos meus avós e peço licença a eles numa perspectiva da tradição iorubá, mas evocando a minha sexta-feira judaica. É uma experiência muito interessante. Sinto-me um corpo múltiplo, atravessado por muitas culturas, um corpo multicultural – Lucas Oradovschi

Lucas Oradovschi está em cartaz em montagem no teatro (Foto: Jorge Bispo)

O ator se prepara para retomar, no ano que vem e a qual se refere, é “Um Pássaro Não É Uma Pedra”, que volta ao Rio antes de seguir viagem — ainda neste ano, haverá apresentações no Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza. A agenda, porém, teve de ser reorganizada. “Vamos fazer uma temporada no Teatro Poeira. Inicialmente seria no começo do semestre, mas, por causa da segunda temporada de “Tremembé”, precisei adiar. A temporada será em julho e agosto. O espetáculo foi muito bem recebido. Tive retornos bonitos, sensíveis, de um público incrível, pessoas que admiro, colegas da classe. Isso me motiva a continuar, embora ainda não tenhamos encontrado caminhos de financiamento. Todos os movimentos que fazemos são de produção independente”.

O projeto nasceu antes de se tornar atravessado pelo noticiário mundial. “É um projeto que articula e reúne artistas de ascendência judaica, como eu, e de ascendência árabe e afro-brasileira para olhar a questão da Palestina. Esse projeto é anterior a outubro de 2023, ao 7 de outubro, quando o Hamas atacou uma rave em Israel. É anterior porque meu objetivo inicial era observar a violência da guerra e a violência no Oriente Médio para, a partir disso, olhar para nossas próprias violências coloniais no Brasil e na América Latina, tanto históricas quanto atuais.”

A peça se estrutura a partir de uma genealogia do teatro político que o ator foi recompondo enquanto pesquisava. Ele cita, por exemplo, uma iniciativa dos anos 1980: “Descobri experiências de teatro comunitário, como a dos anos 1980, quando uma mulher judia israelense e uma árabe palestina, duas mães, se unem em meio ao colapso do sistema educacional da região e criam uma rede que atende milhares de crianças em situação de guerra por meio do teatro comunitário, o chamado teatro de pedra.” A narrativa avança para os anos 2000, quando os filhos dessas duas mulheres se reencontram e, a partir das memórias das mães, criam o Teatro da Liberdade, que existe até hoje e foi indicado ao Nobel da Paz no ano passado”.

Lucas enxerga nessas experiências a fusão entre linguagem cênica e ação social — um campo no qual se move com familiaridade. “São experiências que relacionam estética e política, arte e política, tema ao qual me dedico e pesquiso há muito tempo”. Ele explica que, ao montar a peça, buscava dar corpo a essas reverberações. “Essas experiências me permitiam contar histórias dessas pessoas e abordar o contexto em que estavam inseridas, buscando traçar paralelos com a nossa realidade. Parecia quase inviável porque os contextos são muito distintos, com especificidades próprias, mas, no fim, não fizemos essas ligações de modo tão direto. As plateias, porém, fazem essas conexões, e isso é o mais incrível”.

O espetáculo, que mescla registros documentais e passagens pessoais, encontrou boa acolhida. “Contamos essas histórias — e eu ainda cruzo com histórias pessoais — em uma peça que foi indicada ao Prêmio Shell de melhor direção e ganhou o APTR de direção musical. É uma peça que espero que possamos seguir apresentando, porque trata de um assunto com grande coincidência histórica”.

No fim, Lucas parece movido por um tipo raro de atenção — a que exige, ao mesmo tempo, entrega e vigilância. Entre personagens que desafiam a empatia, rituais que iluminam o invisível e um palco onde a história insiste em se repetir, ele se coloca como quem atravessa uma ponte feita de memórias alheias e perguntas próprias. Talvez por isso fale tanto em frequência, em vibração, em cuidado: é nesse intervalo — tenso, imprevisível, quase sagrado — que constrói seus papéis. E enquanto o país oscila entre o fascínio pela barbárie e o esquecimento rápido, ele segue buscando o gesto que atravessa o ruído, a história que não se acomoda na superfície, o ponto de contato entre vida, arte e aquilo que, por falta de nome melhor, continua chamando de mistério.